A magia da bicicleta

Hoje vou escrever sobre a mágica que é viajar de bicicleta! Como o fato de estar viajando de bike comove e gera um sentimento de solidariedade nas pessoas na maioria dos lugares onde eu chego! O valor de atos que passariam despercebidos ou sem o devido valor em muitas outras ocasiões, a simplicidade e expectativas mais modestas … Os altos e baixos que mexem com meu humor! E como tudo isso interfere no meu dia a dia e me coloca em contato direto com os locais por onde passo!

Para contar como foi um dos dias mais especiais da viagem, onde tive a oportunidade de mergulhar na cultura nômade, preciso voltar ao almoço do dia anterior…

Paramos para almoçar em uma cidade chamada Mirfelt, no litoral, na parte central do Marrocos. Pacata, ou melhor, quase fantasma, com alguns cafés e restaurantes ao longo da estrada que ao mesmo tempo ceifa e dá vida ao lugar. Os cafés que não estavam fechados tinham um ou outro gatos pingados. Já era bem tarde para almoçar, mais de 15h. E eu estava com uma fome dos diabos!

Enquanto Jordi foi para um lado da estrada, com cara de avenida naqueles poucos quarteirões, eu fui para o outro. Não conseguimos encontrar nenhum restaurante que servisse almoço aquela hora. Seguimos empurrando as bicicletas e um pouco mais a frente, vimos um grupo de estrangeiros comendo em uma mesa na calçada em frente a um restaurante. De longe até parecia movimentado! Fiquei feliz ao vê-los, pois aquilo significava comida! E o morto de fome estava faminto! Aliás, não só eu, Jordi demostrava uma certa irritação. Estava nítido em seus gestos e feições que a fome também o atacava!

Mas… a sorte não queria ajudar de jeito nenhum! Um simples prato de comida! Era tudo que queríamos e buscávamos naquela hora! Era o combustível que ao mesmo tempo nos daria força e aquietação! Éramos como um carro na reserva em frente a bomba de combustível! Prontos para encher o tanque!

“_Só servimos Tajine e nesta época do ano só fazemos por encomenda. Podemos preparar mas levara mais de uma hora!” Ao ouvir isso fiquei puto! Não pelo fato de não ter comida no restaurante aquela hora! Isso é compreensível! Povoado extremamente pobre, baixíssimo movimento e mais de 15h da tarde! Mas eu estava com fome… e nessas horas meu, você vira um animal! Chegar no único vilarejo do percurso com fome e ter a expectativa frustrada é de deixar qualquer faminto ainda mais nervoso! Saí praguejando o dono, o filho do dono, a mãe o pai e fui até a última geração! Em meus pensamentos é claro! Não disse uma palavra, apenas baixei a cabeça e já estava me conformando em comer um pão com polenguinho (único queijo, se é que se pode chamar isso de queijo, capaz de ser encontrado por essas bandas).

Nessa hora as bicicletas entraram e ação! Entre o tempo de chegar, tirar luva, capacete e tudo o mais, os estrangeiros tiveram tempo de nos bombardear de perguntas e ficaram encantados com a nossa história. Quando me viram chateado e frustrado com o fato de não haver mais comida no restaurante, se comoveram e nos convidaram a compartilhar um Tajine de peixe que haviam encomendado pela manhã. A generosidade, como em um passe de mágica, transformou o Tajine de 4 para 6 pessoas. O dono também se solidarizou trazendo uma salada extra, tipo vinagrete, que assim como no Brasil, é muito apreciada por aqui.

Meu humor mudou! Na hora! A raiva se transformou em consolo e um sentimento diferente surgiu! Era a gratidão agora que reinava! Um prato de comida! Mais do que isso! Era o gesto dos novos amigos que me comoveu!

Durante o almoço não tive tempo de pensar no assunto! Fomos bombardeados de perguntas. Aquelas de sempre! Trazendo brilho nos olhos dos nossos novos amigos a cada resposta. Eles estavam a trabalho. Estavam criando juntamente com o governo local, uma estratégia para desenvolver o turismo da região. Na verdade, isso foi tudo que soube deles, um casal canadense, uma jordaniana e um local. O almoço acabou sendo bem divertido! Ficamos com as frutas que sobraram da sobremesa, água e não nos deixaram pagar a conta.

Nos despedimos com abraços calorosos e seguimos a nossa rota.

De volta ao pedal, me peguei pensando em como o fato de viajar de bike, de uma forma ou de outra, comove as pessoas. Mesmo sabendo que não teriam comida suficiente para todos, não exitaram em nos convidar. Foram generosos, simpáticos e demonstraram respeito e admiração. Quais as chances de isso ter acontecido se Jordi e eu chegássemos de carro? Bom, pode acontecer, mas comigo, de bicicleta, acontece toda hora! O Pelé do cicloturimo do Brasil, Antonio Olinto, diz que a bicicleta tem uma magia especial que atrai as pessoas. É isso! Não só atrai como gera compaixão, respeito, admiração, sei lá! Tudo misturado! Muita gente sente a necessidade de ajudar de alguma forma! Quem ajuda fica tão ou mais feliz que o ajudado. O ato de ser generoso conforta, é bom! Neste caso, foi mais um almoço, mas já ganhei grana, GPS, roupas e muito mais. Sobretudo, não é pelo valor… é pelo ato! Cada um ajuda com o que pode ou tem no momento. Eu estou comprovando no meu dia a dia que o mundo é generoso, as pessoas são boas em sua esmagadora maioria. E elas gostam de ser assim! E isso me deixa feliz pacas!

Quem não se sente bem depois de ter ajudado alguém? É ou não é?

Outro dia recebi uma ajuda que mexeu comigo! Era véspera de Natal. Já estava no Marrocos, me aproximando da capital Rabat.

Eu vinha pedalando pensando na minha família. Todos reunidos e é claro que a melancolia apareceu. Eu queria estar lá de alguma forma! Saudade… pensamentos de ternura. Estava ali concentrado no pedal e ao mesmo tempo conversando com meu “inquilino”. Uma música veio a minha cabeça… comecei cantarolar, até que minhas narinas arderam e as lágrimas rolaram.Para estar juntos não é preciso estar perto, e sim do lado de dentro! Me agarrei na frase de Leonardo da Vinci, e segui. Toda aquela melancolia, o tempo nublado o vento contra! Tudo isso deixava o caminho mais difícil. Vinha em meus devaneios meio triste até, aí… em poucos segundos a página virou! Ao mesmo tempo em que o sol venceu as nuvens, estava sendo ultrapassado por uma moto, daquelas que tem carroceria. Um homem sentado, ao me ver, me deu um sorriso e acenou com a cabeça. Li claramente seu gesto de incentivo e respeito. Imediatamente retribui, tirando a mão direita do guidão, batendo a mão serrada no peito! Tum! O cara tão rápido como eu, fez o mesmo movimento, batendo duas vez no peito! Tum tum!

Rapaz! Aquele simples gesto mudou meu ritmo! Um significado imenso! A sensibilidade em ajudar de alguma forma, na única forma que o momento permitiu. Foi o estopim que precisava para me animar. E de alguma forma a minha melancolia foi se transformando em uma saudade gostosa… daquelas que aquece… que eu gosto de ter e sentir!

Jordi e eu, já na boca da noite, escolhemos um bom lugar com vista para o mar para armar as barracas. Cozinhamos e batemos um bom papo durante o jantar. Também discutimos sobre o dia seguinte, como sempre fazemos. A única baixa foi que não tínhamos sinal de internet e não conseguimos prever as pegadinhas meteriológicas causadas pela combinação do inverno, litoral, montanhas e a proximidade do deserto.

Fui dormir contente, com pensamentos confortantes… embora a saudade naquela noite, me deu umas espetadas!

A chuva nos pegou de madrugada! Minha brava barraca resistiu a penca d’água e ao vento forte. Mas meu humor não resistiu! Já estava bravo por ter que guardar a barraca molhada e mesmo não chovendo enquanto desmontávamos acampamento, as nuvens carregadas e escuras, denunciavam a eminência da precipitação. Era possível ver a cortina d’água ao longe… cada vez mais perto!

Bomba! Foi o tempo de desmontar a barraca, e fechar os alforges. Ela chegou! Forte! Gelada! Já estava completamente molhado quando terminei de equipar a bicicleta. Detesto começar o dia molhado! Aceito na boa a chuva me pegar no meio do caminho, mas começar molhado eu detesto! Meu humor ia de mau a pior.

Quando chegamos a praia de Legzira para visitar os arcos, o sol já havia saído, causando alívio e prometendo um dia melhor. A bela paisagem desanuviaram meus pensamentos e rapidamente voltamos a pedalar com alegria. A estrada era bem bonita!

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Paramos para almoçar em Sidi Ifni. Penduramos as barracas para secar e com isso gastamos mais tempo no amoço, comprometendo nosso cronograma. Mas a males que vem pra bem! Ainda meio puto com o tempo “desperdiçado” para secar as tendas, recebemos uma notícia que me deixou ao mesmo tempo feliz e desanimado. Vejam vocês a intensidade e variações dos sentimentos!

Uma das barragens do rio Lkrayama não conseguiu segurar o volume de água da chuva e a ponte na saída da cidade ficou submersa. Embora no primeiro  momento fiquei feliz em saber, já que a ponte fica a mais ou menos 6 km de onde estávamos, o que na verdade se transformariam em 12 km ida e volta (cerca de uma hora e meia devido ao relevo), a decepção veio ao constatar que não conseguiríamos cumprir o planejamento estabelecido para o dia, pois nosso trajeto aumentaria 30 km. Mesmo assim, decidimos por seguir viagem pela rota secundária, mais longa e com relevo muito mais acentuado.

Se as barracas não estivessem molhadas certamente daríamos com a tropa n’água, e teríamos que voltar. E ficar sabendo disso apenas quando nos deparássemos com a ponte, certamente aumentaria a frustração.

Embora o fato de ter que fazer mais força para escalar azucrinou a minha cachola por algum tempo, o dia bonito e a linda estrada entre as montanhas e o mar dissiparam a minha frustração. Resolvi esquecer o fato e me contentar em dormir onde desse, afinal, cicloviagem é assim… improviso e flexibilidade são quesitos indispensáveis!

É! É fácil falar né?! Mas quando fizemos uma curva de 90⁰ para a esquerda, dando as costas para o mar, nos deparamos com as montanhas bem a nossa frente! Quer queira ou não, bate um martírio! Se estivéssemos na outra estrada a essa hora, as grandes montanhas já estariam para trás, e estaríamos chegando ao nosso objetivo do dia… Essa era a nossa zona de conforto! Nossa meta! Não é que me sentia inseguro, mas o imprevisto trouxe algumas incertezas, acentuadas pelas nuvem se formando novamente.

Antes de iniciar a escalada, bem próximo a bifurcação, turistas belgas nos pararam na estrada. Eles vinham no sentido oposto.  Fizeram questão de nos alertar sobre uma nova ponte inundada. Já sabíamos e por isso encararíamos as montanhas. Mesmo assim agradecemos e recarregamos nosso estoque de água, mesmo sem precisar. Fizeram questão! Mas uma vez pude sentir o carinho e o cuidado com a gente.

Enquanto comíamos as frutas que sobraram do almoço, e nos preparávamos psicologicamente para encarar as montanhas, um outro senhor parou para nos dar a mesma informação.

Teríamos uma hora para o pôr do sol! O campo vasto que a primeira vista parece oferecer disponibilidade de sobra para colocar a barraca, ao ser examinado com mais cuidado, revela-se extremamente pedregoso, com arbustos e galhos secos espinhosos, tornando difícil achar um bom lugar para acampar.

Jordi e eu subíamos com determinação! As longas conversas cessaram, e depois de um tempo ligamos o radar para achar um lugar para passar a noite.

No céu as nuvens iam de mal a pior… aumentando o nosso alerta!

Os amigos do almoço do dia anterior, surgiram em um 4×4 no sentido contrário. Pararam e é claro que fizemos uma pequena celebração! Trocávamos abraços quando a chuva veio sem dó! Rapidamente nos despedimos! Eles entraram no carro e partiram. Vi compaixão nos olhos deles. Jordi e eu ficamos debaixo de uma torrencial chuva, sem pai nem mãe!

Jordi avistou uma passagem de água sob a estrada e fomos para lá nos abrigar! Minha preocupação era a chuva parar antes de anoitecer. Ainda era preciso achar um lugar para as barracas.

Para nossa surpresa, um homem com turbante e traje típico também usava a passagem de água para se proteger. Nos recebeu com um sorriso! Logo em seguida chegou Hamsee, um de seus filhos, que conseguia arranhar um pouco o francês.

Enquanto a chuva caía e a enxurrada começava a inundar o nosso abrigo, Hamsee conversava com Jordi, que também arranha o francês. A chuva durou cerca de 15 minutos. Tempo suficiente para eu perceber que ali, com aqueles nômades, tínhamos a chance de dormir abrigados e ainda conhecer de perto um pouco dessa cultura, que aos poucos, vai se extinguindo da face da Terra. Na Mongólia, pude aprender e receber o carinho dos nômades pela primeira vez. Depois foi na Turquia, e tinha certeza que no Marrocos eles não seriam tão diferentes. É um povo hospitaleiro, que mesmo vivendo com simplicidade, sempre compartilham o que possuem.

A experiência ajuda nessas horas. Senti que seríamos bem recebidos! Já tinha passado por alguns momentos semelhantes nesses mais de 3 anos de viagem. Dei um toque para o Jordi perguntar se poderíamos passar a noite com eles. O Catalão se surpreendeu um pouco com meu pedido, mas foi em frente. Hamsee abriu um sorriso e gritou algumas palavras em árabe para seu pai , que examinava as nuvens, com a chuva bem mais amena naquele momento. Com um breve olhar de consentimento e um gesto com a cabeça, o velho deu o sinal afirmativo!

Não demorou muito e nossos anfitriões começaram a demonstrar todo o carinho e generosidade com os viajantes. Eles sabem que como eles, somos também um pouco nômades viajando de bicicleta.

Nos levaram até o acampamento e nos ofereceram leite de cabra que haviam ordenhado a pouco como boas vindas. Eu vi os filhotes sendo soltos quando estávamos a caminho do acampamento. Eles são soltos logo depois da ordenha para mamar e passar a noite ao lado das mães. Assim como na Mongólia, estamos na fase de reprodução. E leite é farto nesta época do ano. Um berreiro angustiante entre filhotes famintos e mães saudosas inundam o acampamento nessa hora! Jordi se mostrava preocupado em saber como pegaria no sono com esse berreiro, enquanto eu ria da sua preocupação! Um jumento, vez ou outra, zurrava, parecendo pedir silêncio, deixando a orquestra ainda mais engraçada e a certo ponto desesperadora para Jordi.

Aos poucos, a medida que mãe e filhote se encontravam, o frenesi ia diminuindo, até que a noite chegou e tudo ficou em silêncio.

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Hamsee, o irmão Petit Garçom (apelido de família) e eu. Acampamento nômade. Marrocos.

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Hamsee ordenhando o nosso leite. Acampamento nômade. Marrocos.

Uma amiga me perguntou como me comunico nessas ocasiões. É claro que se perde muito de detalhes, pois a comunicação é simples, direta! Uma palavra, um gesto, uma mímica, o dedo indicador mostrando algo, dá sentido as perguntas… ao mesmo tempo que dão as respostas. Não é possível se aprofundar! Eu costumo dizer que quando existe o desejo´das duas partes, de alguma forma, a comunicação acontece. Presta-se mais atenção aos detalhes e muitas perguntas torna-se desnecessárias. Neste dia, por sorte, Hamsee e Jordi conseguiram ir mais além, o que deixou o encontro ainda mais rico.

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O anfitrião Hamsee, Jordi e eu. Acampamento nômade. Marrocos.

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Iniciando os preparos para o jantar. Acampamento nômade. Marrocos.

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Os miúdos sendo divididos pelo chefe da família. Ele divide e é o último a se servir. A ideia de ser o mais justo possível. Acampamento nômade. Marrocos.

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A vez do prato principal. Macarrão com cordeiro. Todos comem com as mãos do mesmo prato. Acampamento nômade. Marrocos.

Quando as lamparinas se apagaram, coloquei minha cabeça no travesseiro que fiz com as minhas próprias roupas, e me senti realizado. Foi inevitável pensar nas surpresas da vida! Como um caminho bloqueado, uma decepção momentânea, pode fazer desabrochar um novo horizonte, e se transformar em uma experiência rica e inesquecível! A necessidade de fazer um outro caminho. Um reencontro exatamente no momento em que a chuva caia, que nos obrigou a buscar abrigo. A ponte interditada. O tempo para secar as barracas. Como pequenos acontecimentos vão moldando a história do nossos dias? Se não estivesse chovendo ou se cruzássemos com nossos amigos um quilometro mais a frente, certamente nada disso teria acontecido. Sorte? Universo conspirando? Energia? Sei lá eu! Só sei que a bicicleta é mágica! Como costumo dizer, a bicicleta oferece a velocidade ideal para me colocar em contato com as pessoas, me mostrar e me ensinar muita coisa que ainda preciso aprender ou que me falta para ser uma pessoa cada vez melhor. E dias como esses são a prova disso!

Lá vou eu… colecionando emoções, vivendo um sonho… cada dia mais perto de casa!

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Lugar onde passamos a noite vista da estrada que nos levaria para longe. Acampamento nômade. Marrocos.

No mesmo dia que partimos do acampamento, chegamos ao deserto do Saara. Agora, serão mais de 1000 km para cruzar o maior deserto do mundo.

Marrocos: fortes emoções

Deserto, montanhas nevadas, lindas praias, cidades históricas, arquitetura, diversidade cultural, povo hospitaleiro, novos amigos, cheiros e sabores deliciosos e muita diversão! Minha viagem pelo Marrocos está sendo muito divertida e surpreendente!

Embora meu natal tenha sido melancólico, sozinho dendro de um quarto de hotel, meu Ano Novo não poderia ter começado melhor! Meus pais fizeram a gentileza de trazer minha filha Ana Laura, e juntos, além de comemorar seus 15 anos, passeamos pelos principais destinos do país. Uma viagem que me colocou frente a frente com as diferenças em viajar como turista convencional e de bicicleta. Acostumado a receber gentilezas quando estou com a minha magrela, estranhei um pouco o fato de não ser “mimado” pelos locais como de costume, e experimentei de maneira mais incisiva, a abordagem hiperbólica do mundo turístico na busca sedenta pelo dinheiro! Uma insistência que tira qualquer um do sério!!! Aquela velha prática da barganha do mundo árabe… e o vender a qualquer custo! Qualquer coisa!

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Passeio em família. Deserto do Saara. Merzouga. Marrocos.

O deserto do Saara é uma das principais atrações do Marrocos, ocupando grande parte do seu território. Para chegar até as dunas de areia é preciso cruzar o país e chegar bem pertinho da fronteira com a Argélia, atravessando a cordilheira Atlas ou Rif, que se estende por mais de 2400 km entre o oceano e o deserto. A montanha mais alta da cordilheira é  a Jbel Toubkal, com 4 167 m acima do nível do mar, a segunda mais alta da África, perdendo apenas para o Kilimanjaro na Tanzânia. Nesta época do ano, os picos mais altos estão nevados, deixando a paisagem ainda mais bonita!

Os Berberes são o povo do deserto. Nômades, vivem principalmente da criação de camelos e do turismo, explorando desde os fósseis da região até excursões para os entusiastas que desejam passar a noite debaixo do incrível céu estrelado do Saara. Acompanhar o pôr do sol, e as sutileza das mudanças de cores das dunas é imperdível.

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Deserto do Saara. Merzouga. Marrocos

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Deserto do Saara. Merzouga. Marrocos.

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Os berberes no deserto do Saara. Merzouga. Marrocos.

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Crianças berberes vendendo fósseis e souvenires. Saara. Merzouga. Marrocos

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Passeio de camelo nas dunas do Saara. Merzouga. Marrocos.

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Por do sol no Saara. Merzouga. Marrocos.

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Instituto Berbere em prevenção a língua e cultura berbere. Merzouga. Marrocos.

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Cordilheira Atlas. Marrocos.

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Estrada marroquina em direção as Cordilheiras Atlas.

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Cordilheira Atlas. Marrocos.

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Cordilheira Atlas. Marrocos.

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A fauna da Cordilheira Atlas. Marrocos.

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Azrou. Marrocos.

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Cordilheira Atlas. Marrocos.

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Marrocos

Chefchaouen, a cidade azul, situada no norte do país, nas encostas da cordilheira, é outro ponto muito visitado do Marrocos. Fundada em 1471 para tentar impedir a invasão portuguesa no continente africano, a cidade acabou virando refúgio dos judeus a partir de 1930. Existe muitas teorias para explicar o azul, entre elas, que espanta mosquitos. No entanto, a teoria mais aceita é que os judeus, para preservar a tradição sagrada das roupas dos reis do Antigo Testamento, resolveram reverenciar o azul, fazendo da pacata cidade a “extensão do céu”. O número de judeus da cidade é bem pequeno nos dias de hoje, mas os habitantes ainda seguem a tradição, pintando as fachadas, ruelas e escadarias em diferentes tons de azul.

Chefchaouen passou a ser ponto obrigatório para os “malucos”. Dizem que o haxixe da região é um dos melhores do mundo!

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Chefchaouen. Marrocos.

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Chefchaouen. Marrocos.

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Chefchaouen. Marrocos.

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Chefchaouen. Marrocos.

As grandes cidades como Fez, Casablanca, Rabat (capital), Marraquexe e Tanger, possuem como principal atração os palácios reais, as grandes mesquitas e a Medina. Medina é o nome do bairro mais antigo da cidade. Toda cidade tem a sua, que geralmente é cercada por grandes muralhas que no passado serviam de fortificações. A dica é se hospedar dentro das muralhas em um Riad, nome dado aos pequenos hotéis tipo pousada. Geralmente administrado por famílias que também habitam o local.

As Medinas são verdadeiros emaranhados formados por ruelas, escadarias e becos que exigem bastante do senso de direção. Certamente você vai se perder dentro dela. Então, procure guardar o nome de um ponto de referência como uma mesquita, o nome do hotel ou um dos grandes portões das muralhas Todos os portões possuem nomes. E não se preocupe, há sempre um guia para te levar de volta em troca de alguns trocados.

Além da arquitetura genuína, as Medinas possuem identidade única, um comércio vibrante, onde turistas e locais se espremem em meio a carroças, motos e bicicletas em um agitado frenesi. Em geral, parecem desorganizadas, mas existe os Souks, setorizando diferentes áreas do comércio como vestimenta, especiarias, restaurantes e souvenir por exemplo.

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Medina de Fez. Marrocos.

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Riad em Fez. Marrocos.

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Fez. Marrocos.

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Curtume em Fez. Marrocos.

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Fez. Marrocos.

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Fez. A maior medina do mundo árabe. Marrocos.

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Medina. Fez. Marrocos.

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Mesquita Hassan II. Casablanca. Marrocos.

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Feira livre na Medina de Casablanca. Marrocos.

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Casablanca. Marrocos.

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Marraquexe. Marrocos.

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Marraquexe. Marrocos.

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Rabat. Marrocos.

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Rio Bouregreg. Rabat. Marrocos.

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Medina de Rabat. Marrocos.

Viajar de bicicleta pelo centro-norte do Marrocos é bastante excitante, com paisagens de tirar o fôlego! Geralmente o trânsito é moderado, mas as pistas sem acostamentos, as curvas nas regiões de montanha, a frota antiga e motoristas agressivos exigem muita atenção. As vilas ou cidades são frequentes, e os marroquinos estão sempre dispostos a ajudar, seja com um simples copo de água, passando por um prato de comida e até um lugar para passar a noite. Carente de saneamento básico, o povo do interior é muito simples, vivem quase que exclusivamente da produção rural de subsistência, calcado por grandes latifúndios de plantação de trigo, soja e milho, fazendo algum dinheiro com o excedente da produção. Os mais afortunados possuem pequenos comércios ou industrias de manufaturas que exploram a matéria prima local. Pequenas fábricas de azeite,pão, especiarias, tapetes, panelas de barro, artesanato são alguns exemplos.

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Estadas do Marrocos.

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Marrocos.

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Marrocos.

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Estradas do Marrocos.

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Estradas do Marrocos.

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Mulher marroquina vendendo hortaliças em feira livre. Chefchauoen. Marrocos.

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Mulher do campo. Marrocos.

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Tear. Marrocos.

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Mulher do campo II. Marrocos.

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Hospitalidade local. Marrocos.

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Pão fresco o dia todo. Marrocos.

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Um dos símbolos da superstição marroquina.

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Mulher do campo III. Marrocos.

A diversidade gastronômica do Marrocos é incrível! Quase sempre rústica, com carnes variadas, peixes e vegetais, o país se orgulha do cuscuz (sêmola de trigo), e do tajine. Na verdade tajine é o nome da panela em forma de vulcão, geralmente de cerâmica, que dá nome ao prato servido com uma carne e vegetais. O tajine de cordeiro é o meu preferido.

Os restaurantes de beira de estrada possuem um açougue agregado que servem os dois pratos típicos e também churrasco. Os miúdos como fígado, coração e rins também são muito apreciados. Você escolhe a parte que quer assar, compra por peso, e é adicionado uma taxa para preparar. Um quilo de carrê de cordeiro sai em torno de US$ 7.

O Harira é uma sopa de grão de bico, o Maticha, espécie de omelete que pode levar queijo, tomate ou embutidos, também são muito populares, assim como os peixes e frutos do mar, que podem ser encontrados, fritos, empanados ou na brasa.

Nas casas a comida é geralmente servida em um único prato. O pão acompanha todas as refeições, fazendo o papel dos talheres, que são encontrados apenas em restaurantes mais sofisticados. Embora o país seja o paraíso das especiarias, o cominho é predominante em todos os pratos. Até ovo cozido é “xunxado”  no cominho em pó. Embora os pratos não sejam picantes, o molho de pimenta chamado Harissa acompanha tudo, sempre servido separadamente.

Todas as refeições são acompanhadas de chá, que no geral são de hortelã e bem doce. Por ser um país muçulmano não é comum encontrar bebida alcoólica por aqui. As frutas secas, nozes e castanhas, verduras e hortaliças são abundantes. O quilo de tâmaras custa em média US$ 2,5. Nem preciso falar que caio matando, né? kkk As frutas também são deliciosas, com destaque para a maça, pêra tipo portuguesa e as minhas favoritas mexericas. Ual! São deliciosas!!! Lembra as da minha infância no sítio dos meus avós.

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Típico restaurante de beira de estrada. Marrocos.

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Comendo um peixinho. Marrocos.

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Tajine de cordeiro. Meu prato favorito. Marrocos.

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Tajine. Marrocos.

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Fábrica de panela Tajine. Marrocos.

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Jantando com amigos em Tanger. Marrocos.

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Cozinha típica de restaurante do Marrocos.

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Vendedor de pimenta. Rabat. Marrocos.

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Comida de rua. Marrocos.

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Jantar com a família de Yacine, membro do warmshower. Sale. Marrocos.

Nesta época do ano a produção de azeite de oliva está a todo vapor! Geralmente são as mulheres que debulham as azeitonas do pé com longas varas, na base da pancada. Daí, os frutos são recolhidos e enviados para pequenas fábricas ou para moendas movidas por animais. O quilo da azeitona sai por US$ 2, e o azeite USS 6 o litro. Estou abusando do azeite, azeitonas e um queijo tipo coalhada vendido por mulheres na beira de estrada. Delícia sem fim!

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Mulher colhedora de azeitonas. Marrocos.

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Colhendo azeitonas. Marrocos.

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Moenda de azeitonas. Marrocos.

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Azeitonas do Marrocos.

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Vendedora de queijo. Marrocos.

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Queijo tipo coalhada. Marrocos.

Mesmo ao nível do mar, as temperaturas durante a noite são baixas, exigindo proteção. Em algumas noites, dormi em restaurantes de beira de estrada, aproveitando da hospitalidade do povo local. Chove pouco nesta época do ano, os ventos são relativamente fortes e mudam bastante de direção.

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Restaurante onde passei a noite atrás do balcão. Marrocos.

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Restaurante onde montei minha barraca para passar a noite. Marrocos.

Ainda em Tanger, conheci Leighton, um canadense, e no nosso primeiro dia de pedal, cruzamos o inglês Luck, escalando a primeira grande subida em território marroquino. Todos com planos bem parecidos, seguimos juntos nos primeiros dias. Nos entrosamos bem, mas como estava indo encontrar a minha família me separei precocemente dos amigos. Lucas chegaria em Marraquexe e voltaria para casa. O canadense, voltou para a França, e infelizmente fiquei sabendo que teve a bicicleta roubada. Um duro golpe para o garoto que tinha ambição de chegar ao sul da Croácia.

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Leighton, eu e Lucas, tomando chá em Chefchaouen. Marrocos.

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Leighton, Lucas e eu recebendo o carinho do povo local em uma fazenda onde passamos a noite. Marrocos.

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Leighton e Lucas descansando depois de longa escalada. Marrocos.

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Eu e meus amigos ajustando a rota em casa abandonada onde passamos a noite. Marrocos.

Agora minha férias acabou! Curti tudo que pude, claro, querendo mais! Ainda posso sentir o cheiro de todos! E isso me alimenta! Me sinto com as baterias carregadas para enfrentar, ou melhor, curtir 2017 de maneira intensa! Meu coração está pronto para as emoções!

Já renovei meu passaporte, e o visto da Mauritânia, meu próximo destino, estréia meu novo documento. As atenções agora se voltam aos preparativos para enfrentar um dos grandes desafios do projeto Da China para Casa by Bike até aqui. Para chegar a Mauritânia será preciso desbravar o maior deserto do mundo, o Saara. Mas antes disso, ainda tem um longo trecho de Marrocos até chegar lá! A boa notícia é que meu velho e companheiro Jordi, o catalão que já pedalou comigo na Nova Zelândia e Europa, está chegando para me acompanhar por mais um trecho.

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A vice-cônsul, Sra. Silvia Ali e Khalid, com meu novo passaporte. Mais uma vez muito bem tratado em uma embaixada. Rabat. Marrocos.

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Welcome Jordi! The Saara is waiting for us! Bem vindo Jordi! O Saara nos espera!

Esse é o meu primeiro post do ano. Aproveito a oportunidade para desejar um ótimo 2017 a todos, e dizer que a sua visita no blog, as curtidas, os recados e mensagens, continuam sendo um grande combustível para eu seguir em frente!

Para me ajudar um pouco mais, da um clik no botão de seguir aí do blog! Fica lá em cima, a direita! Convida um amigo! Tenho como objetivo para esse ano, melhorar a propagação da minha aventura.

Muito obrigado e vamos juntos, de peito aberto, com ou vento a favor, ou não, para o melhor ano de nossas vidas! INSHA’ALLAH (em árabe: esperança em um acontecimento; se Deus, ou Alá, quiser).

Lisboa: o ponto final!

Lisboa foi a última cidade visitada pelo Projeto da China para Casa by Bike na Europa. Foram mais de 180 dias no velho continente, incluindo a primeira passagem no Leste Europeu. Era a minha terceira visita na cidade, e desta vez, mesmo sendo a mais curta, foi a melhor! Não tive a oportunidade de ir as principais atrações turísticas, nem de voltar a alguns restaurantes ou conhecer outros tantos… nem mesmo fui a Belém comer um pastel! Não fui ao Jõao do Grão, um dos restaurantes favoritos do meu mais português dos parentes, meu querido Tio João Caetano… e também não escutei fado! Mas por outro lado, a bicicleta, esse meio de transporte incrível, me colocou em contato direto com os lisboenses, me dando a oportunidade de ver a cidade através da ótica dos moradores locais, seus pontos de vistas, como pensam e vêem a cidade, e conhecendo seus lugares favoritos.

Fiquei hospedado na casa de Gonçalo Peres via warmshowers. Sempre disposto a ajudar e disponível, Gonçalo me ajudou com os preparativos para deixar a Europa, me levou a um show de uma banda popular, por um tour na cidade e fez questão de me apresentar alguns pratos típicos para ajudar o meu projeto.Enveredamos por vários assuntos em longas conversas interessantes, onde tive a oportunidade de aprender bastante com o novo amigo.

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Lisboa – Portugal.

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Castanhas portuguesas. Lisboa – Portugal

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Atenção a TV do bar. É hora de Benfica x Sporting. Lisboa – Portugal.

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Lisboa – Portugal.

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Lisboa – Portugal.

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Lisboa – Portugal.

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Simpatia dos lisboenses. Lisboa – Portugal.

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Lisboa – Portugal.

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Lisboa – Portugal.

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Delícias de Lisboa. Portugal.

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Lisboa – Portugal.

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Bob Marley em Lisboa – Portugal.

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Mosaico de Amália Rodrigues. Lisboa – Portugal.

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Sandra e Gonçalo. Meus amigos portugueses. Lisboa – Portugal.

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Lisboa – Portugal.

Agora a aventura toma outros rumos! Depois do Sudeste Asiático, Oceania, parte da Ásia Central e Oriente Média, totalizando 44 países e mais de 36.600 km pedalados, o Projeto da China para Casa by Bike volta para a África. Depois de Egito e Tunísia, te convido mais uma vez a subir na minha garupa, e seguir comigo para o Marrocos.

Portugal, o último país visitado na Europa.

Minha passagem por Portugal durou apenas 10 dias, infelizmente! Tinha planos audaciosos, mas tive que sacrificá-los em virtude do tempo de permanência na Europa. Cheguei em Portugal na véspera da data limite de saída! Era preciso correr, pois não sabia direito quais as retalhações que sofreria na migração. Já havia feito algumas pesquisas com várias informações diferentes. Multa, proibição de voltar a Europa temporária ou definitivamente, e até extradição. Essas eram algumas das possibilidades que me deixavam preocupado. Por outro lado, achei relatos de pessoas que não tiveram problemas. Sabia que estava infringindo uma lei importante, no entanto, apostava no bom senso, sorte e principalmente na impressão que o tamanho da minha viagem já vem causando nas pessoas. Os números da minha aventura se transformaram em um aliado muito interessante. Percebo um certo respeito e admiração por onde passo e com isso as pessoas parecem mais dispostas a ajudar. E sinceramente, apostei todas as minhas fichas nesse quesito. Sabia que de alguma forma esses números ajudariam em um momento delicado como esse. Mas ao mesmo tempo, sabia que quanto mais tempo eu permanecesse irregular, menor seria a tolerância.

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Fronteira entre Espanha e Portugal.

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Pedrogão de São Pedro. Portugal

Entrei em Portugal por uma cidadezinha chamada Aldeia da Ponte. E logo comecei a receber o carinho e a hospitalidade dos patrícios, via couchsurfing, warmshowers e até mesmo em encontros imprevisíveis. Um deles foi bem inusitado!

Vinha subindo a encosta de um grande desfiladeiro depois de cruzar uma barragem no sopé do vale. O sol já vinha baixo, com seus raios não sendo mais capazes de vencer as altas montanhas. O frio começava a açoitar e enquanto vencia metro por metro aquela dura subida, elaborava em minha cachola uma estratégia para passar a noite. Investiguei um casarão abandonado na beira da estrada. Tinha condições razoáveis, mas o susto que levei com um pássaro me “dando um rasante”, pareceu-me um presságio! Resolvi seguir em frente!

Um pouco mais acima, parei uma camionete com um típico Sr. do campo, com cara de poucos amigos, chapéu “tolado”(como dizemos no interior, que significa que o chapéu está socado na cabeça), um cigarro na mão que segurava o volante, e um bigodão branco com pontas amareladas, escondendo uma acarda dentária irregular, impregnada de nicotina. Cumprimentei-o!

_ Boa tarde! Procuro um lugar para passar a noite. Sei que vai chover e gostaria de colocar a minha barraca em um lugar coberto. Um barracão, garagem ou coisa assim…

_ Por aqui não há! Disse o velho, acelerando sua sofrida camionete, e arrancando morro acima! Me cobrindo com uma fumaça preta e fedorenta!

O velho foi tão rápido e rude, que demorei um pouco para assimilar o golpe!Dei umas tossidas,  tomei um gole de água e continuei… ainda tentando entender a indelicadeza do velho.

Rapaz! Eu não andei 200 m. Ainda podia sentir em minhas narinas aquela fumaça preta. Duas mulheres passeando com os cachorros… vinham descendo o morro, aparecendo na mesma curva que o velho desaparecia. Notei o momento que elas o cumprimentaram, tentando controlar os cães que bradavam contra o veículo. Um pensamento maldoso veio à minha mente! Toma velho! Pega eles cão! Me controlei e exorcizei o pensamento na mesma fração de segundo.

Com a minha aproximação, elas pararam fora da pequena estrada, segurando os cães com cuidado, esperando que eu passasse. Sorriram ao mesmo tempo que acenaram a mão, com um sorriso antagônico ao do velho. Por um instante, devido ao encontro recente, exitei em perguntar! Mas mudei de ideia! De novo na mesma fração de segundos…

_ Nós já acomodamos outro ciclistas por aqui. Temos um quartinho com uma lareira, e você também pode tomar um banho quente!

Enquanto escutava a resposta, parecia não acreditar… Em 200 m duas respostas completamente diferentes! Pensei bastante sobre isso! Janice e Leola são mãe e filha. Inglesas que vivem já a 4 anos em Portugal. Super simpáticas, me ofereceram o jantar, café da manhã e frutas secas, tangerinas e vinho para eu levar comigo. Foi um encontro legal! Muito boa conversa!

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Leola, Janice e eu. Ameixal. Portugal

Num outro dia, estava mais uma vez na boca da noite quando parei no restaurante Zé Galante. Precisava de água. A D. Lurdes me atendeu com tanto carinho que além da água, me ofereceu um prato de sopa e um dos quartos da pousada para eu pernoitar.

Em Mouriscas tive um outro encontro super legal! Era hora de comer algo e resolvi pedir informação para um rapaz que tomava um sol, sentado na mesa em frente a um bar. Ele acabou me levando para um restaurante de amigos. Conversa vem, conversa vai, os meninos acabaram me oferecendo um sanduba e umas cervejas. Bate- papo descontraído e divertido!

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Jorito, eu, Tiago e Raquel. Mouriscas. Portugal

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Rio Tejo. Abrantes. Portugal.

Houve outros vários encontros. Como com os meninos do Clube de futebol de Tramagal, os meninos do colégio agrícola, a dona do café que fez questão de me oferecer um café com leite e uma broa…. no entanto, de todos os amigos que fiz em Portugal, foi com Gonçalo de Lisboa que rolou a maior identificação. Além de me hospedar, Gonçalo veio ao meu encontro para chegar comigo em Lisboa. Foi um dia de pedal bem legal, com sol forte, ótima comida e estradinhas secundárias perfeitas para pedalarmos lado-a-lado. Conversamos bastante!

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Gonçalo e eu a caminho de Lisboa. Portugal.

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Meu primeiro bacalhau em Portugal.

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Cegonhas. Portugal

Agora é preparar e organizar a minha saída da Europa e torcer para que tudo corra bem! E enquanto isso, lógico, fazer uma rápida visita em Lisboa.