Bye bye Mauritânia! Bye bye Saara! E que venham novos desafios!

Meso não me sentindo 100 % depois de alguns dias de repouso, as dores regrediram, e resolvi enfrentar a estrada novamente. Estava inseguro e me sentindo pressionado pela minha própria vontade de seguir em frente, e por Jordi, que já demonstrava inquietude e impaciência por tanto me esperar. Coitado! Quero ressaltar que meu amigo fez de tudo para me deixar confortável, demonstrando solidariedade em todos os momentos que precisei. Até massagem ele me fez! Valeu amigão! Esse momento está sendo muito mais confortável com sua ajuda! Muito obrigado! Continuo contando com você, Jordi! Aliás, quero agradecer também a todos que me mandaram mensagens e ligaram para me dar uma força! Se os recados já são legais quando estou na boa, eles se tornam ainda mais importante quando estou na pior! Obrigado galera!

Entre Nouakchott e Saint-Louis / Senegal (o próximo ponto de apoio caso eu necessitasse), teria que pedalar cerca de 275 km, sendo 50 deles em estrada sem asfalto. Trepidação, areão e pelo menos  3 noites dormindo em barraca. Tudo isso me colocava em check! Mas depois de adiar nossa partida por duas vezes, fiz um teste e senti que poderia ao menos pedalar com uma das mãos. Decidi correr o risco, contrariando as recomendações!

Com o vento sempre ajudando e relevo gentil, pude realmente poupar o lado comprometido, pedalando apenas com a mão direita no guidão na maior parte do tempo. Diferentemente da parte norte do país, o Saara ao sul da Mauritânia é mais povoado, com muitas vilas e mais pontos de apoio. Embora precários, os pequenos comércios foram suficientes para nos abastecer com água, e nos colocar em contato direto com o curioso e amistoso povo local. A vegetação é outra diferença marcante! Árvores e arbustos são abundantes, marcando a zona de transição desértica, e assim, conseguimos sempre uma boa sombra para descansar no meio do dia.

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Pequenas vilas no Saara. Mauritânia.

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Pequenas vilas no Saara. Mauritânia.

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Jordi recebendo o carinho do povo local. Mauritânia.

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Simpáticos Mauritanos

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Ahhh minha rede!!! Saara. Mauritânia.

Quando nos aproximamos do Rio Senegal, também conhecido por Rio do Ouro, que separa a Mauritânia e o país de mesmo nome, como em um passe de mágica, o cerrado se transformou em zona pantaneira. Nesta região do delta, junto a foz, fica o Parque Nacional Diawling, um santuário ecológico que abriga  mais de 200 espécies de aves como pelicanos, flamingos, cegonhas negras e também crocodilos, javalis e diversas espécies de peixes. Também tem muito gado pantaneiro e camelos, que certamente foram introduzidos nesta região pela população ribeirinha, devido a abundante oferta de alimentos. Existe bastante semelhança entre o parque e a região do Pantanal, inclusive com os enxames de pernilongos perto do nascer e pôr do sol. Barbaridade! Vale lembrar que a malária corre solta neste região. Fato que exige cuidado!

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Típica vegetação do deserto. Mauritânia.

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Descanso em Keur Macéne, cidade entre o deserto e o alagado. Mauritânia.

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Keur Macene. Mauritânnia.

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Ribeirinho. Parque Nacional Diawling. Mauritânia.

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Javali. Parque Nacional  Diawling. Mauritânia.

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Parque Nacional Diawling. Mauritânia.

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Parque Nacional Diawling. Mauritânia.

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Parque Nacional Diawling. Mauritânia.

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Parque Nacional Diawling. Mauritânia.

Se por um lado o ecossistema do parque nos distraiu depois de um longo período de seca, por outro, a estrada de chão foi arruinando minha lesão. Já tomei a decisão de parar e descansar assim que tiver oportunidade. Mas não sou apenas eu que estou sofrendo! Alguns dos meus equipamentos também padecem com a ação do tempo! Já se foram 3 anos e 4 meses de estrada meu! E muita coisa já possuía desde antes da viagem! Os equipamentos vão quebrando ou se danificando pelo simples fato de envelhecer! Muito uso! Desgaste natural! Tudo tem validade! A válvula do meu colchonete quebrou de tanto abrir e fechar! Diversos feixes dos alforjes já eram! Os alforjes estão “comendo” o alumínio na zona de contato com os racks. O fixador da bomba no quadro da bike já era! Barraca com problemas como relatei outro dia. Os pneus já muito perto da vida útil! Câmaras de ar ressecadas, muito tempo guardadas sem usar. Uma das conexões da mangueira dos freios ressecou e o óleo vazou. Estou com apenas um funcionando! Preço de viajar com sistema hidráulico! Eu sei! Mas já tinha a bike antes de viajar… e outra… saí de casa para ficar apenas 6 meses na estrada, lembra?  Pois é! Meus equipamentos vão minguando com o tempo e os riscos devem ser avaliados e levados em consideração para o planejamento da minha próxima etapa, que será definida muito em breve!

Infelizmente não consegui a qualidade desejada com relação a gastronomia na Mauritânia. Os pratos típicos são mais ou menos iguais ao Marrocos, como é o caso do cuscuz e tajine. O arroz acompanhado de frango, ou guizado de carne de ovelha ou de camelo também são muito apreciados. O suco da fruta do cactos é bem interessante e o chá com hortelã é a bebida nacional, servida depois de qualquer refeição ou simplesmente fazendo o papel do nosso cafezinho no meio da tarde.

A expectativa agora se volta para a minha recuperação completa, fato complicado que exige paciência, pois estou trabalhando com hipóteses, já que ainda não tenho um diagnóstico fechado; para Senegal, o 47° país visitado pelo Projeto da China para Casa by Bike; e pela aproximação de uma importante meta pessoal, que me orgulha, me fortalece, me motiva a seguir em frente ou me deixa pronto para voltar para casa! Aguardem novidades!

 

 

 

 

 

 

 

Deserto do Saara – Marrocos

Naquele altura, não sabia direito se era um sonho ou um pesadelo! No dia seguinte a inesquecível experiência de passar uma noite com os nômades, eu vencia a última pirambeira da Cordilheira Atlas, para entrar definitivamente, no maior e mais desafiador deserto do mundo, o Saara. Mais uma vez, meu sonho de dar a volta ao mundo de bicicleta, me colocava frente a frente com um grande desafio.

A cordilheira é um dos limites do deserto, já que as nuvens pesadas vindas do oceano não conseguem transpô-la. Ainda lá em cima da montanha, onde o verde predomina, a vista era apavorante. O forte vento varria a areia formando uma enorme nuvem de poeira sobre o monocromático ocre do deserto. Era possível sentir o bafo quente do vento! Excitado pela longa descida, onde a velocidade ultrapassava 60 km⁄h, me lembrava das dificuldades que enfrentei nos desertos da Mongólia, Israel e Jordânia, quando a temperatura ultrapassou 50⁰ C. Sem falar nos escassos pontos de apoio, recapitulando em meus pensamentos, todos cuidados a serem tomados. Um pitada de sofrimento antecipado! E aquela velha pergunta me atormentando: O que estou fazendo aqui?

Mas por outro lado, cruzar o maior, mais quente e temido deserto do mundo, é um desafio que excita qualquer aventureiro! Eu gosto de testar os meus limites, (de vez em quando… kkkk), pois sei que cada obstáculo ultrapassado, me deixa mais forte! A experiência ajuda nessas horas! E tudo aquilo que já enfrentei, associado ao fato de não estar só, me trazia confiança.

É… mas bastou um pequeno acidente na descida para me lembrar que toda experiência do mundo não é garantia de sucesso. Vários tipos de imprevistos podem aparecer, e estava certo que apareceriam… é a rotina de uma viagem de bike! Atropelei um abelha que me ferroou na cabeça, em uma das aberturas do capacete.  Nada grave! Mas isso foi o alerta que precisava para não baixar a guarda! Presta atenção moleque! Foco! Dizia para mim mesmo, lembrando do meu cunhado que sempre me alerta com essa palavra!

Em Guelmim, cidade apelidada de “A porta do deserto”, Jordi e eu fizemos uma bela refeição, ajustamos nosso estoque de água e comida e seguimos, com vento em popa, até a boca da noite, onde acampamos em uma escola.

Alí, conforme minhas pesquisas, tive a certeza que o vento seria um aliado na grande maioria dos dias, e assim se fez! Nunca andei tão rápido! Nossa média até agora no deserto foi de 98 km por dia. Bárbaro!

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Primeira noite no Saara em uma escola religiosa para meninos. Deserto do Saara. Marrocos.

Nos primeiros 12 dias no Saara, não fez muito calor! Mas em uma incrível coincidência, assim que cruzamos o Trópico de Câncer, o bicho pegou! E a partir de então, se esconder do sol na parte mais quente do dia passou a ser inevitável!

Basicamente, o deserto é monótomo, com paisagens cansativas até. Isso muda um pouco quando a estrada ganha um pouco de sinuosidade e ondulação ou quando beira o Atlântico.

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Saara. Marrocos

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Saara. Marrocos.

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Saara. Marrocos.

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Saara. Marrocos.

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Litoral no Saara. Marrocos.

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Litoral no Saara. Marrocos.

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Litoral no Saara. Marrocos.

O Saara marroquino, diferente dos outros desertos que atravessei, é mais habitado e o movimento na estrada é maior. Fomos parados algumas vezes por turistas curiosos que sempre contribuem com nosso estoque de água. Basicamente são europeus de férias com motor-home ou motoqueiros que são atraídos pela rota Paris ⁄ Dakar.

Teve um dia que ficamos sem água. O posto que contávamos para nos reabastecer estava abandonado. Aí, fiz sinal para um caminhoneiro com minha caramanhola em mãos. Pumba! O motorista parou na hora! Em uma das raras montanhas desse trecho, ao alcançar o topo, outro caminhoneiro com seus ajudantes nos convidaram para almoçar e tomar e chá! Para quem me segue aqui no blog, lembra do polvo que ganhei em uma vila de pescadores. Se viajar de bike inspira solidariedade,  em lugares remotos como o Saara, a ajuda é ainda mais presente.

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Motoqueiro inglês que nos brindou com pastilhas isotônicas. Saara. Marrocos.

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Almoçando na beira da estrada com locais. Saara. Marrocos.

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Vila de pescadores. Saara. Marrocos.

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Meu polvo, ainda na mão de um local. Saara. Marrocos.

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Jordi e eu cozinhando dentro da barraca para fugir dos fortes ventos. Saara. Marrocos.

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Polvo com ovo cru. Iguaria caiçara do litoral do Saara. Marrocos.

Em outro vilarejo de pescadores, onde a estrada passa bem ao lado, fiz sinal para duas mulheres, perguntando onde poderia achar comida. Ela fez sinal com as mão para que eu esperasse um minuto e foi chamar o marido. Ele veio, com um sorriso aberto, falando que poderíamos almoçar com eles. Nos levou para dentro de casa, nos deu comida, abrigo do sol e ainda compartilhou um pouco de sua história de vida com a gente. Um momento emocionante onde pudemos buscar em uma simples conversa, momentos de sua vida passada. Uma das mulheres era sua irmã. Que arranhava bem o espanhol… as lembraças culminaram no momento que acharam uma foto dos tempos de criança. Vi emoção nos olhos deles! Me emocionei também… De barriga cheia, voltei ao pedal feliz, sabendo que ao relembrar uma emoção esquecida no passado, pudemos retribuir o favor que nos fizeram.

E talvez seja esse o grande barato da vida! As lembranças… colecionar emoções!

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Vila de pescadores. Saara. Marrocos.

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Momento único! Na parede um trecho do Alcorão. Saara. Marrocos.

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Jordi e eu entre família no Saara. Marrocos.

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Boas lembranças… fortes emoções! Saara. Marrocos.

Devido a monotonia da estrada, fui procurar distração nas pequenas sutilezas do enorme deserto. Abaixo, segue um pouco da fauna e flora do Saara. Imagens que fiz nas pequenas parada para o xixi! A primeira vista, o deserto é inóspito, mas olhando com mais cuidado, encontra-se muita vida! Basta a umidade trazida pelo oceano ou pequenas cuhvas para a vida florescer. O chão é forrado de pequenos insetos como aranhas, formigas, carrapatos e besouros, e meu amigo…. os mosquitos são um inferno! Milhões! Em todos os lugares!!!

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3 camelos… Saara. Marrocos.

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Flores do deserto. Saara. Marrocos.

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Flores do deserto. Saara. Marrocos.

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Flores do deserto. Saara. Marrocos.

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Flores do deserto. Saara. Marrocos.

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Saara. Marrocos.

O vento que ajuda muito quando estamos pedalando, atormenta a nossa vida em todos os outros momentos, nos obrigando a cozinhar dentro da barraca, correr atrás de coisas que ele carrega e prestar atenção para não se molhar na hora de fazer xixi. Em uma vacilada, quando estava desmontando a barraca, cometi um erro grave que resultou em uma vareta quebrada! Mas você não disse que é experiente e coisa e tal? É irmão.. eu disse sim!!! Essa barraca me acompanha desde o Projeto Noruega by Bike (2011). Já montei e desmontei-a, chutando baixo, 350 vezes! (O Projeto da Noruega by Bike durou 100 dias, e o Da China Para Casa By Bike já ultrapassou 1200 dias). Mas também cometo erros infantis, mesmo com toda e experiência do mundo! Fiz uma besteira!!! (Entende-se por cagada!). Pô! Quantas vezes já armei e desarmei a barraca? Onde vou conseguir repor a minha vareta, se nem loja para comprar outra barraca existe por aqui? Bom, dei uma remendada e vou seguir viagem… acho que o remendo aguenta por mais um tempo! Esse são os “imprevistos e erros” que comprovam que a experiência ajuda, mas não garante nada, e que não somos infalíveis! Mas que fiquei puto com meu erro… ahhhh se fiquei!

O que me consolou um pouco, foi ter encontrado um pobre chinês que vinha na direção contrária, se “esfarfando”, para vencer o vento. Daí pensei… poderia ser pior… boraaa!!!!!

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Jordi, o pobre chinês e eu. Saara. Marrocos.

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Jordi e eu comemorando os bons ventos. Saara. Marrocos.

A polícia e o exército nos para em todas as barreiras. São os chamados check points! Diferente de outras áreas militarizadas que atravessei, pelo menos por aqui eles não pedem para tirar tudo dos alforjes. Apenas registram dados do passaporte e fazem interrogatório sobre destino, procedência, profissão e tudo mais… No geral são amigáveis. Para chegar em Dakla, uma importante cidade situada em uma península já no sul do país, seria necessário fazer um desvio de 40 km, que ida e volta se transformariam em 80 km. Sendo assim, metade contra o vento. Então, decidimos seguir viagem até o vilarejo seguinte e de lá, pegamos um táxi coletivo para voltar e visitar a cidade. Tivemos dificuldades em achar um lugar seguro para deixar as bicicletas, mas no final tudo deu certo. Deixamos as bicicletas em um posto. No dia seguinte, depois de dar a visita em Dakla por encerrada, fomos ao mesmo ponto que o táxi nos deixou com a esperança de achar um outro, para voltar ao posto onde estavam as bikes. Acontece que o preço da corrida  triplicou, pois não havia mais ninguém para dividir os custos. Então, lembrei do policial que fez questão de deixar seu numero de telefone dizendo para eu ligar se houvesse algum problema. E ele resolveu nosso problema de maneira incrível! Foi nos buscar com a viatura policial, nos levou até o posto onde deixamos as bicicletas e ainda nos ofereceu o almoço.

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Jordi esperando nossos passaportes em um check point. Saara. Marrocos.

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De carona com os policiais. Saara. Marrocos.

Nas pequenas vilas, tive oportunidade de fazer algumas fotos mostrando a simplicidade e o cotidiano dos habitantes.

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Ciclista marroquino. Saara.

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Feira no Saara. Marrocos.

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Criança marroquina. Saara.

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Simplicidade. Saara. Marrocos.

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Típica vila de beira de estrada. Marrocos. 

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Cidade marroquina. Saara.

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Saara. Marrocos.

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Saara. Marrocos.

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Saara. Marrocos.

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Mulheres marroquinas em Dakla. Saara.

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Feira livre em Dakla. Saara. Marrocos.

Quando deixamos Dakla, nosso objetivo passou a ser alcançar a fronteira entre Marrocos e Mauritânia. E quando chegamos lá, embora soubesse que o pior trecho do Saara estava do outro lado, fiquei feliz com o nosso desempenho até agora.

Atravessar a Mauritânia em duas rodas será sem dúvida alguma, um grande desafio. As dificuldades que enfrentamos até aqui se somam a extrema pobreza, falta de saneamento básico, ainda menos pontos de apoio e todos os mistérios que um dos países mais pobres do mundo, com uma cultura completamente diferente da nossa pode oferecer.

Sobe na garupa e vamos juntos!

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A caminho da Mauritânie. Saara. Marrocos.

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O guerreiro Jordi e a estrada sendo varridos pelo vento. Saara. Marrocos

 

A magia da bicicleta

Hoje vou escrever sobre a mágica que é viajar de bicicleta! Como o fato de estar viajando de bike comove e gera um sentimento de solidariedade nas pessoas na maioria dos lugares onde eu chego! O valor de atos que passariam despercebidos ou sem o devido valor em muitas outras ocasiões, a simplicidade e expectativas mais modestas … Os altos e baixos que mexem com meu humor! E como tudo isso interfere no meu dia a dia e me coloca em contato direto com os locais por onde passo!

Para contar como foi um dos dias mais especiais da viagem, onde tive a oportunidade de mergulhar na cultura nômade, preciso voltar ao almoço do dia anterior…

Paramos para almoçar em uma cidade chamada Mirfelt, no litoral, na parte central do Marrocos. Pacata, ou melhor, quase fantasma, com alguns cafés e restaurantes ao longo da estrada que ao mesmo tempo ceifa e dá vida ao lugar. Os cafés que não estavam fechados tinham um ou outro gatos pingados. Já era bem tarde para almoçar, mais de 15h. E eu estava com uma fome dos diabos!

Enquanto Jordi foi para um lado da estrada, com cara de avenida naqueles poucos quarteirões, eu fui para o outro. Não conseguimos encontrar nenhum restaurante que servisse almoço aquela hora. Seguimos empurrando as bicicletas e um pouco mais a frente, vimos um grupo de estrangeiros comendo em uma mesa na calçada em frente a um restaurante. De longe até parecia movimentado! Fiquei feliz ao vê-los, pois aquilo significava comida! E o morto de fome estava faminto! Aliás, não só eu, Jordi demostrava uma certa irritação. Estava nítido em seus gestos e feições que a fome também o atacava!

Mas… a sorte não queria ajudar de jeito nenhum! Um simples prato de comida! Era tudo que queríamos e buscávamos naquela hora! Era o combustível que ao mesmo tempo nos daria força e aquietação! Éramos como um carro na reserva em frente a bomba de combustível! Prontos para encher o tanque!

“_Só servimos Tajine e nesta época do ano só fazemos por encomenda. Podemos preparar mas levara mais de uma hora!” Ao ouvir isso fiquei puto! Não pelo fato de não ter comida no restaurante aquela hora! Isso é compreensível! Povoado extremamente pobre, baixíssimo movimento e mais de 15h da tarde! Mas eu estava com fome… e nessas horas meu, você vira um animal! Chegar no único vilarejo do percurso com fome e ter a expectativa frustrada é de deixar qualquer faminto ainda mais nervoso! Saí praguejando o dono, o filho do dono, a mãe o pai e fui até a última geração! Em meus pensamentos é claro! Não disse uma palavra, apenas baixei a cabeça e já estava me conformando em comer um pão com polenguinho (único queijo, se é que se pode chamar isso de queijo, capaz de ser encontrado por essas bandas).

Nessa hora as bicicletas entraram e ação! Entre o tempo de chegar, tirar luva, capacete e tudo o mais, os estrangeiros tiveram tempo de nos bombardear de perguntas e ficaram encantados com a nossa história. Quando me viram chateado e frustrado com o fato de não haver mais comida no restaurante, se comoveram e nos convidaram a compartilhar um Tajine de peixe que haviam encomendado pela manhã. A generosidade, como em um passe de mágica, transformou o Tajine de 4 para 6 pessoas. O dono também se solidarizou trazendo uma salada extra, tipo vinagrete, que assim como no Brasil, é muito apreciada por aqui.

Meu humor mudou! Na hora! A raiva se transformou em consolo e um sentimento diferente surgiu! Era a gratidão agora que reinava! Um prato de comida! Mais do que isso! Era o gesto dos novos amigos que me comoveu!

Durante o almoço não tive tempo de pensar no assunto! Fomos bombardeados de perguntas. Aquelas de sempre! Trazendo brilho nos olhos dos nossos novos amigos a cada resposta. Eles estavam a trabalho. Estavam criando juntamente com o governo local, uma estratégia para desenvolver o turismo da região. Na verdade, isso foi tudo que soube deles, um casal canadense, uma jordaniana e um local. O almoço acabou sendo bem divertido! Ficamos com as frutas que sobraram da sobremesa, água e não nos deixaram pagar a conta.

Nos despedimos com abraços calorosos e seguimos a nossa rota.

De volta ao pedal, me peguei pensando em como o fato de viajar de bike, de uma forma ou de outra, comove as pessoas. Mesmo sabendo que não teriam comida suficiente para todos, não exitaram em nos convidar. Foram generosos, simpáticos e demonstraram respeito e admiração. Quais as chances de isso ter acontecido se Jordi e eu chegássemos de carro? Bom, pode acontecer, mas comigo, de bicicleta, acontece toda hora! O Pelé do cicloturimo do Brasil, Antonio Olinto, diz que a bicicleta tem uma magia especial que atrai as pessoas. É isso! Não só atrai como gera compaixão, respeito, admiração, sei lá! Tudo misturado! Muita gente sente a necessidade de ajudar de alguma forma! Quem ajuda fica tão ou mais feliz que o ajudado. O ato de ser generoso conforta, é bom! Neste caso, foi mais um almoço, mas já ganhei grana, GPS, roupas e muito mais. Sobretudo, não é pelo valor… é pelo ato! Cada um ajuda com o que pode ou tem no momento. Eu estou comprovando no meu dia a dia que o mundo é generoso, as pessoas são boas em sua esmagadora maioria. E elas gostam de ser assim! E isso me deixa feliz pacas!

Quem não se sente bem depois de ter ajudado alguém? É ou não é?

Outro dia recebi uma ajuda que mexeu comigo! Era véspera de Natal. Já estava no Marrocos, me aproximando da capital Rabat.

Eu vinha pedalando pensando na minha família. Todos reunidos e é claro que a melancolia apareceu. Eu queria estar lá de alguma forma! Saudade… pensamentos de ternura. Estava ali concentrado no pedal e ao mesmo tempo conversando com meu “inquilino”. Uma música veio a minha cabeça… comecei cantarolar, até que minhas narinas arderam e as lágrimas rolaram.Para estar juntos não é preciso estar perto, e sim do lado de dentro! Me agarrei na frase de Leonardo da Vinci, e segui. Toda aquela melancolia, o tempo nublado o vento contra! Tudo isso deixava o caminho mais difícil. Vinha em meus devaneios meio triste até, aí… em poucos segundos a página virou! Ao mesmo tempo em que o sol venceu as nuvens, estava sendo ultrapassado por uma moto, daquelas que tem carroceria. Um homem sentado, ao me ver, me deu um sorriso e acenou com a cabeça. Li claramente seu gesto de incentivo e respeito. Imediatamente retribui, tirando a mão direita do guidão, batendo a mão serrada no peito! Tum! O cara tão rápido como eu, fez o mesmo movimento, batendo duas vez no peito! Tum tum!

Rapaz! Aquele simples gesto mudou meu ritmo! Um significado imenso! A sensibilidade em ajudar de alguma forma, na única forma que o momento permitiu. Foi o estopim que precisava para me animar. E de alguma forma a minha melancolia foi se transformando em uma saudade gostosa… daquelas que aquece… que eu gosto de ter e sentir!

Jordi e eu, já na boca da noite, escolhemos um bom lugar com vista para o mar para armar as barracas. Cozinhamos e batemos um bom papo durante o jantar. Também discutimos sobre o dia seguinte, como sempre fazemos. A única baixa foi que não tínhamos sinal de internet e não conseguimos prever as pegadinhas meteriológicas causadas pela combinação do inverno, litoral, montanhas e a proximidade do deserto.

Fui dormir contente, com pensamentos confortantes… embora a saudade naquela noite, me deu umas espetadas!

A chuva nos pegou de madrugada! Minha brava barraca resistiu a penca d’água e ao vento forte. Mas meu humor não resistiu! Já estava bravo por ter que guardar a barraca molhada e mesmo não chovendo enquanto desmontávamos acampamento, as nuvens carregadas e escuras, denunciavam a eminência da precipitação. Era possível ver a cortina d’água ao longe… cada vez mais perto!

Bomba! Foi o tempo de desmontar a barraca, e fechar os alforges. Ela chegou! Forte! Gelada! Já estava completamente molhado quando terminei de equipar a bicicleta. Detesto começar o dia molhado! Aceito na boa a chuva me pegar no meio do caminho, mas começar molhado eu detesto! Meu humor ia de mau a pior.

Quando chegamos a praia de Legzira para visitar os arcos, o sol já havia saído, causando alívio e prometendo um dia melhor. A bela paisagem desanuviaram meus pensamentos e rapidamente voltamos a pedalar com alegria. A estrada era bem bonita!

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Paramos para almoçar em Sidi Ifni. Penduramos as barracas para secar e com isso gastamos mais tempo no amoço, comprometendo nosso cronograma. Mas a males que vem pra bem! Ainda meio puto com o tempo “desperdiçado” para secar as tendas, recebemos uma notícia que me deixou ao mesmo tempo feliz e desanimado. Vejam vocês a intensidade e variações dos sentimentos!

Uma das barragens do rio Lkrayama não conseguiu segurar o volume de água da chuva e a ponte na saída da cidade ficou submersa. Embora no primeiro  momento fiquei feliz em saber, já que a ponte fica a mais ou menos 6 km de onde estávamos, o que na verdade se transformariam em 12 km ida e volta (cerca de uma hora e meia devido ao relevo), a decepção veio ao constatar que não conseguiríamos cumprir o planejamento estabelecido para o dia, pois nosso trajeto aumentaria 30 km. Mesmo assim, decidimos por seguir viagem pela rota secundária, mais longa e com relevo muito mais acentuado.

Se as barracas não estivessem molhadas certamente daríamos com a tropa n’água, e teríamos que voltar. E ficar sabendo disso apenas quando nos deparássemos com a ponte, certamente aumentaria a frustração.

Embora o fato de ter que fazer mais força para escalar azucrinou a minha cachola por algum tempo, o dia bonito e a linda estrada entre as montanhas e o mar dissiparam a minha frustração. Resolvi esquecer o fato e me contentar em dormir onde desse, afinal, cicloviagem é assim… improviso e flexibilidade são quesitos indispensáveis!

É! É fácil falar né?! Mas quando fizemos uma curva de 90⁰ para a esquerda, dando as costas para o mar, nos deparamos com as montanhas bem a nossa frente! Quer queira ou não, bate um martírio! Se estivéssemos na outra estrada a essa hora, as grandes montanhas já estariam para trás, e estaríamos chegando ao nosso objetivo do dia… Essa era a nossa zona de conforto! Nossa meta! Não é que me sentia inseguro, mas o imprevisto trouxe algumas incertezas, acentuadas pelas nuvem se formando novamente.

Antes de iniciar a escalada, bem próximo a bifurcação, turistas belgas nos pararam na estrada. Eles vinham no sentido oposto.  Fizeram questão de nos alertar sobre uma nova ponte inundada. Já sabíamos e por isso encararíamos as montanhas. Mesmo assim agradecemos e recarregamos nosso estoque de água, mesmo sem precisar. Fizeram questão! Mas uma vez pude sentir o carinho e o cuidado com a gente.

Enquanto comíamos as frutas que sobraram do almoço, e nos preparávamos psicologicamente para encarar as montanhas, um outro senhor parou para nos dar a mesma informação.

Teríamos uma hora para o pôr do sol! O campo vasto que a primeira vista parece oferecer disponibilidade de sobra para colocar a barraca, ao ser examinado com mais cuidado, revela-se extremamente pedregoso, com arbustos e galhos secos espinhosos, tornando difícil achar um bom lugar para acampar.

Jordi e eu subíamos com determinação! As longas conversas cessaram, e depois de um tempo ligamos o radar para achar um lugar para passar a noite.

No céu as nuvens iam de mal a pior… aumentando o nosso alerta!

Os amigos do almoço do dia anterior, surgiram em um 4×4 no sentido contrário. Pararam e é claro que fizemos uma pequena celebração! Trocávamos abraços quando a chuva veio sem dó! Rapidamente nos despedimos! Eles entraram no carro e partiram. Vi compaixão nos olhos deles. Jordi e eu ficamos debaixo de uma torrencial chuva, sem pai nem mãe!

Jordi avistou uma passagem de água sob a estrada e fomos para lá nos abrigar! Minha preocupação era a chuva parar antes de anoitecer. Ainda era preciso achar um lugar para as barracas.

Para nossa surpresa, um homem com turbante e traje típico também usava a passagem de água para se proteger. Nos recebeu com um sorriso! Logo em seguida chegou Hamsee, um de seus filhos, que conseguia arranhar um pouco o francês.

Enquanto a chuva caía e a enxurrada começava a inundar o nosso abrigo, Hamsee conversava com Jordi, que também arranha o francês. A chuva durou cerca de 15 minutos. Tempo suficiente para eu perceber que ali, com aqueles nômades, tínhamos a chance de dormir abrigados e ainda conhecer de perto um pouco dessa cultura, que aos poucos, vai se extinguindo da face da Terra. Na Mongólia, pude aprender e receber o carinho dos nômades pela primeira vez. Depois foi na Turquia, e tinha certeza que no Marrocos eles não seriam tão diferentes. É um povo hospitaleiro, que mesmo vivendo com simplicidade, sempre compartilham o que possuem.

A experiência ajuda nessas horas. Senti que seríamos bem recebidos! Já tinha passado por alguns momentos semelhantes nesses mais de 3 anos de viagem. Dei um toque para o Jordi perguntar se poderíamos passar a noite com eles. O Catalão se surpreendeu um pouco com meu pedido, mas foi em frente. Hamsee abriu um sorriso e gritou algumas palavras em árabe para seu pai , que examinava as nuvens, com a chuva bem mais amena naquele momento. Com um breve olhar de consentimento e um gesto com a cabeça, o velho deu o sinal afirmativo!

Não demorou muito e nossos anfitriões começaram a demonstrar todo o carinho e generosidade com os viajantes. Eles sabem que como eles, somos também um pouco nômades viajando de bicicleta.

Nos levaram até o acampamento e nos ofereceram leite de cabra que haviam ordenhado a pouco como boas vindas. Eu vi os filhotes sendo soltos quando estávamos a caminho do acampamento. Eles são soltos logo depois da ordenha para mamar e passar a noite ao lado das mães. Assim como na Mongólia, estamos na fase de reprodução. E leite é farto nesta época do ano. Um berreiro angustiante entre filhotes famintos e mães saudosas inundam o acampamento nessa hora! Jordi se mostrava preocupado em saber como pegaria no sono com esse berreiro, enquanto eu ria da sua preocupação! Um jumento, vez ou outra, zurrava, parecendo pedir silêncio, deixando a orquestra ainda mais engraçada e a certo ponto desesperadora para Jordi.

Aos poucos, a medida que mãe e filhote se encontravam, o frenesi ia diminuindo, até que a noite chegou e tudo ficou em silêncio.

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Hamsee, o irmão Petit Garçom (apelido de família) e eu. Acampamento nômade. Marrocos.

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Hamsee ordenhando o nosso leite. Acampamento nômade. Marrocos.

Uma amiga me perguntou como me comunico nessas ocasiões. É claro que se perde muito de detalhes, pois a comunicação é simples, direta! Uma palavra, um gesto, uma mímica, o dedo indicador mostrando algo, dá sentido as perguntas… ao mesmo tempo que dão as respostas. Não é possível se aprofundar! Eu costumo dizer que quando existe o desejo´das duas partes, de alguma forma, a comunicação acontece. Presta-se mais atenção aos detalhes e muitas perguntas torna-se desnecessárias. Neste dia, por sorte, Hamsee e Jordi conseguiram ir mais além, o que deixou o encontro ainda mais rico.

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O anfitrião Hamsee, Jordi e eu. Acampamento nômade. Marrocos.

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Iniciando os preparos para o jantar. Acampamento nômade. Marrocos.

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Os miúdos sendo divididos pelo chefe da família. Ele divide e é o último a se servir. A ideia de ser o mais justo possível. Acampamento nômade. Marrocos.

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A vez do prato principal. Macarrão com cordeiro. Todos comem com as mãos do mesmo prato. Acampamento nômade. Marrocos.

Quando as lamparinas se apagaram, coloquei minha cabeça no travesseiro que fiz com as minhas próprias roupas, e me senti realizado. Foi inevitável pensar nas surpresas da vida! Como um caminho bloqueado, uma decepção momentânea, pode fazer desabrochar um novo horizonte, e se transformar em uma experiência rica e inesquecível! A necessidade de fazer um outro caminho. Um reencontro exatamente no momento em que a chuva caia, que nos obrigou a buscar abrigo. A ponte interditada. O tempo para secar as barracas. Como pequenos acontecimentos vão moldando a história do nossos dias? Se não estivesse chovendo ou se cruzássemos com nossos amigos um quilometro mais a frente, certamente nada disso teria acontecido. Sorte? Universo conspirando? Energia? Sei lá eu! Só sei que a bicicleta é mágica! Como costumo dizer, a bicicleta oferece a velocidade ideal para me colocar em contato com as pessoas, me mostrar e me ensinar muita coisa que ainda preciso aprender ou que me falta para ser uma pessoa cada vez melhor. E dias como esses são a prova disso!

Lá vou eu… colecionando emoções, vivendo um sonho… cada dia mais perto de casa!

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Lugar onde passamos a noite vista da estrada que nos levaria para longe. Acampamento nômade. Marrocos.

No mesmo dia que partimos do acampamento, chegamos ao deserto do Saara. Agora, serão mais de 1000 km para cruzar o maior deserto do mundo.

Fotos entre Casablanca e a linda praia de Legzira, Marrocos

As fotos abaixo contam um pouco de como foram meus primeiros 1000 km com Jordi nesta terceira carona (primeira na Nova Zelândia e segunda na Europa) que ele pega com o Projeto da China Para casa by Bike.

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Forte de Al Jadidia. Marrocos.

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Cozinha rica em frutos do mar e peixe em El Jadida. Marrocos.

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Marrocos.

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Estrada no Marrocos

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Hospitalidade Marroquina

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Linda vista mesmo em dia feio. Marrocos.

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Senhor Marroquino

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Chef orgulhoso de seu Tajine de peixe. Marrocos.

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Medina de Safi. Marrocos.

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Safi – Marrocos.

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Dura vida no campo. Marrocos.

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Medina de Mogador. Marrocos.

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Estradas do Marrocos

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Bete-papo na beira da estrada do Marrocos.

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Mulher marroquina.

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Ambulante. Marrocos.

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Jordi e eu preparando o café da manhã. Marrocos.

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Estradas do Marrocos.

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Boas lembranças do outro lado do Atlântico. Ehhh Saudade!!! Marrocos.

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Acampamento no Marrocos.

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Jordi se deliciando ladeira abaixo. Marrocos.

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Vai um cafezinho? Marrocos.

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Transportando bananas. Marrocos.

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Hora da reza. Marrocos.

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Pescaria. Marrocos.

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Padaria. Marrocos.

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O caminho no Saara. Marrocos

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Boa conversa… Marrocos.

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Da minha bicicleta. Marrocos

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A flora do semi-deserto. Marrocos.

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Filha e mãe. Marrocos.

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Acampamento na praia de Legzira. Marrocos.

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Arco de Legzira. Marrocos.

Vale de Loire, uma das mais belas ciclovias da França.

Minha estada em Paris serviu também para eu tomar algumas decisões em relação ao roteiro que farei até Lisboa. Entre o caminho mais curto para tentar cumprir a viagem dentro dos 90 dias que são permitidos aos brasileiros na Europa, e esticar um pouco a viagem para rever amigos, decidi pela segunda opção, e essa decisão me fez tomar outras decisões.

Resolvi sair de Paris de trem para adiantar um pouco a viagem e ganhar tempo para rever meus amigos Vincent e Florian, que vivem em Theix, na Bretanha Francesa, região que estava fora do meu roteiro, já que fica na parte oeste, entre o Canal da Mancha e o Oceano Atlântico. Peguei o trem até Tours, e de lá segui pedalando por dois dias pelo lindíssimo Vale do Loire até Nantes, já pertinho do Atlântico. Média de mais de 100 km por dia com uma pernoite em Angers, na casa de mais um membro do Warmshowers.

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Minha bike no trem. França.

Foi uma decisão difícil na verdade! Confesso que não gosto da ideia de pegar o trem durante uma viagem de bicicleta. Mas a amizade que fiz com os dois franceses que viajaram comigo pela Croácia, Montenegro e Albânia, foi tão sólida  e verdadeira que não tive como negar a visita depois de uma conversa ao telefona. E estou super feliz indo para lá! Vou comemorar os 3 anos do Projeto da China para Casa by Bike com eles!

O Vale do Loire é um dos destinos mais procurados por cicloturistas do mundo inteiro. Dizem que 800 mil cicloturistas passeiam por lá todos os anos! E não é por menos! Ladeando o rio Loire, a ciclovia cruza a região com mais castelos por km² do mundo! Vinículas, parques nacionais, cidades medievais e muita natureza! Aliás, não me canso de repetir! As cores do outono deixam a paisagem ainda mais linda!

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Parque Regional Francês.

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Ciclovia Eurovelo Vale do Loire. França.

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Vale do Loire. França.

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Ciclovia Vale do Loire. França.

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Ciclovia Vale do Loire. França.

A ciclovia se estende por mais de 800 km e é extremamente plana e segura! Quase sempre exclusiva, muito bem sinalizada e com pavimento super bem conservado. Chega a impressionar!

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Sr e Sra. Gannon do warmshowers. Angers. França.

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Sinalização Eurovelo Vale do Loire. França.

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Vale do Loire. França.

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Vale do Loire. França.

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Vale do Loire. França.

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Vale do Loire. França.

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Vale do Loire. França.

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Ciclovia Eurovelo 6 – Vale do Loire. França.

Com a agenda cada vez mais apetada aqui na Europa, no entanto super feliz, vou cumprindo com a obrigação de deixar vocês informados sem perder os encantos que a minha viagem de bicicleta me proporciona… a quase 3 anos…

 

Paris… e a emoção de chegar pedalando!

Chegar em Paris pedalando foi mais um sonho realizado. Lá longe, a Torre Eiffel  parecia brincar de esconde-esconde! Quase sempre encoberta por prédios, de vez em quando ela aparecia, cada vez maior e mais bela. Muito próximo de completar 3 anos de viagem com o Projeto da China para Casa by Bike, na minha cabeça lembranças desde quando iniciei a viagem iam e vinham, sem ordem cronológica, me fazendo reviver emoções semelhantes aquela que eu estava sentindo agora. Uma ponta de orgulho! Lágrimas e ardência no nariz. Perguntas e respostas conectando meu subconsciente e eu! Um mergulho profundo na minha intimidade! Orgulho, saudade, conquista, ansiedade…

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Paris. França.

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Torre Eiffel. Paris. França.

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Basílica de Sacré Coeur. Paris. França.

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Champs-Elysées. Paris. França.

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Museu do Louvre. Paris. França.

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Minha bicicleta passeando por Paris. França.

Cheguei em Paris na véspera de um dos feriados mais importantes do país. No dia 11 de novembro é celebrado o dia do Armistício, em homenagem ao fim da Primeira Guerra Mundial. Não posso dizer que a cidade estava em festa, no entanto, um certo ar de tranquilidade devido ao feriado prolongado ajudou a pedalar pela cidade. Esta foi minha segunda passagem pela capital francesa. Como já conhecia as principais atrações turísticas, privilegiei passeios com a minha bicicleta. Paris possui mais de 700 km de ciclovias demarcadas. Me senti relativamente seguro no trânsito, me preocupando mais com os distraídos pedestres nas ciclovias.

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Clássica foto da Torre Eiffel. Paris. França.

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Torre Eiffel, Paris. França.

Em Paris fui hospedado por Jean Malet, membro do Warmshowers. Além de me receber com todo o conforto, Jean foi super hospitaleiro! Cicloturista experiente, Jean entende perfeitamente as necessidades de um aventureiro. Ele me guiou por um city tour noturno pela cidade, cozinhou pratos maravilhosos e ainda me ajudou com tudo que eu precisava. Tivemos conversas agradáveis e super produtivas. Espero um dia retribuir o carinho no Brasil. Obrigado Jean!

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Jean Malet, orgulhoso com sua quiche. Paris. França.