Denali National Park – Alaska

O Denali National Park está completando 100 anos  de um importante trabalho de preservação da fauna e da flora local. O parque é uma das maiores atrações do Alaska. São mais de 15.000 km² (maior que Alemanha, Holanda e Bélgica juntos), tendo como principal cartão postal o Monte Mc. Kindley, a montanha mais alta da América do Norte com 6.190 m de altitude. O Denali é um lugar único, onde é possível conviver com animais como ursos, lobos, renas, alces e outros em seu habitat natural, depois de um treinamento comandado pelos Ranger´s (Guardas do Parque).

Lagos cercados por montanhas cobertas de gelos, rios e corredeiras de degelo cortando vales de diferentes tons de verdes e muita vida animal fazem do Denali National Park um dos lugares mais lindos que já visitei no mundo. Vale a pena conferir!

 

Entre Saint-Louis e Dakar, a despedida de Jordi e os planos futuros.

A rota entre Saint-Louis e Dakar no Senegal representou o último trecho de mais uma etapa! No caminho alcancei o primeiro grande objetivo da viagem ao atingir a marca de 40.075 km pedalados, confirmando minha volta ao mundo de bicicleta. E me deliciei com o sorriso, o colorido e a hospitalidade dos senegaleses. Esses dias também marcaram a despedida do meu fiel companheiro Jordi depois de 2 meses de convivência e cumplicidade. E, como não poderia ser diferente, comecei organizar meus pensamentos para encontrar as respostas que definirão meus próximos passos.

Seis noites em Saint-Louis e algumas sessões de massagens me deixaram melhor, mas não foram suficientes para minha total recuperação. Estava irritadiço antes de reiniciar o pedal, preocupado com as dores e a sensação de dormência que se estendia desde o ombro até o dedão. E com a possibilidade de piora, já que minhas pesquisas apontavam vento contra e estrada de terra, com trechos de areão, que certamente nos fariam descer da bicicleta para empurrar, exigindo ainda mais do ombro. Para complicar ainda mais, não sabia a gravidade e as consequências da lesão, me sentindo um burro empacado em uma encruzilhada, sem ter como decidir o meu futuro.

Graças ao exercício de pedalar, o aquecimento corporal ocasionou o “milagre” de desaparecer com as dores já nas primeiras horas, remanescendo apenas a sensação de dormência, que persiste até hoje.

Associado a isso, o contato com as pessoas e o carinho das crianças ajudaram a espantar meu mau humor. Os senegaleses, de um modo geral, são mais reservados e tímidos se comparado aos habitantes dos outros países da África que visitei. Esbanjam simpatia e, ao serem cumprimentados, expressam um dos sorrisos mais genuínos que encontrei em toda minha viagem. Mesmo as crianças mais carentes, quase nunca abordam pedindo, e quando o fazem, pedem por cadeau (presente em francês), caneta ou lápis.

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Cercados pela curiosidade das crianças em Saint-Louis, Senegal.

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Ao pararmos nas vilas sempre somos cercados de crianças. Senegal

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Bonjour, monsieur!!! Senegal

A vaidade das mulheres é outra característica do Senegal que me chamou atenção. Os vestidos longos e soltos, brincos de argola, pulseiras, lenços na cabeça e sobre os ombros, e o quanto mais colorido melhor, são as tendências da moda por aqui. As mulheres mais jovens usam decote e exibem sensualidade nos ombros e costas. Já as casadas quase sempre se vestem com muita discrição. Mas todas expressam um sorriso simpático, oferecendo um charme todo especial ao país.

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Vestir-se bem mesmo quando o trabalho é duro, é regra das senegalesas. Senegal.

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Senegalesas.

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A beleza colorida das mulheres senegalesas.

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Senegalesa.

Nos dois primeiros dias, pedalamos por estradas secundárias de pouco movimento, onde nos deparamos com a simplicidade do povo local em pequenas vilas, muitas espécies de aves e cruzamos a incrível floresta de baobás, árvore símbolo do Senegal. Com exemplares gigantes e dispersos, os troncos e frondas sem folhagem lembram um cenário de ficção científica.

Diferente do que acontece quando pedalo em estradas secundárias, conseguimos encontrar boa comida apesar da simplicidade dos restaurantes, que oferecem apenas o Thieboudienne como opção. Thieboudienne é o prato nacional do país com arroz, legumes e geralmente peixe, mas que também pode levar carne e frango. O arroz “pegadinho” do fundo da panela oferece um sabor especial ao prato, sendo a paixão dos senegaleses. O ponto negativo é que não vendem água gelada, fato que associado ao forte calor, exigiu resiliência. A dica, se não quiser gastar em hospedagem nas grandes cidades, é procurar ajuda nas paróquias. Como 99% do país é devoto ao islã, a minúscula comunidade católica é bastante solícita. Em Thiés, Jordi e eu demos a sorte de encontrar uma igreja e não tivemos dificuldade em conseguir um lugar para acampar com segurança.

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Jordi pousando para foto com os baobás ao fundo. Senegal.

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Jordi empurrando a bicicleta para cruzar o areão. Senegal.

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Puxando um ronco! Senegal.

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Transporte público. Senegal

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Thieboudienne: Prato nacional do Senegal que leva peixe, legumes e arroz.

Já no terceiro e último dia, ao nos aproximar de Dakar, enquanto vivia a expectativa de completar a quilometragem equivalente à circunferência da Terra, Jordi e eu tivemos que redobrar a atenção em uma estrada movimentada e estreita, com motoristas apressados, conduzindo uma frota caindo aos pedaços.

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Perto de fechar mais uma etapa. Dakar, Senegal.

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Periferia de Dakar. Senegal.

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Periferia de Dakar, Senegal.

Muitos me perguntam sobre os prós e contras em viajar acompanhado. Uma dúvida que também sempre tive antes de começar a viajar de bicicleta. Cheguei a pedir, inclusive, depoimentos para alguns cicloturistas mais experientes, para deixar na página “O pai da Matéria” (Página do meu blog que criei para ajudar a informar, dar dicas, esclarecer e mostrar outras opiniões que não a minha). Mas nunca recebi resposta.

Durante essa minha empreitada prioritariamente solitária, também tive oportunidade de viajar em dupla, em grupo e em casal, embora a única mulher tenha sido minha irmã. Pessoas com características diferentes já pegaram “carona” no meu projeto, por períodos curtos e longos. O que me levou a refletir sobre alguns pontos importantes sobre o assunto.

Não entenda como conselho, mas talvez minha experiência possa te ajudar a ponderar.

Quando se viaja em dupla ou em grupo, fica evidente as vantagens no quesito segurança, compartilhamento de tarefas e emoções, supervisão mútua, economia. Assim como combinar prioridades e interesses comuns, cumprir horários e manter o cronograma, ou ter sucesso em sites de hospedagens são alguns pontos desfavoráveis. As chances de sucesso aumentam quando o parceiro é amigo “véio”, evidente. Mas na estrada, os encontros são casuais. Embora geralmente a afinidade é imediata, sempre é bom investigar a personalidade do novo amigo.

No entanto, acredito que saber “de você” é mais importante do que saber sobre o outro.

Antes de convidar ou aceitar um convite, sempre procuro identificar o momento que estou passando. Nas fases introspectivas prefiro estar só. Tenho dificuldades em penetrar como gostaria nos meus pensamentos quando estou acompanhado. Acontece, mas exige um estado de concentração no qual me torno ausente, sem vontade de conversar e mais impaciente. Em uma fase mais efusiva, evidentemente, sou mais comunicativo, flexível, bem como aceito melhor as interferências.

Outro ponto importantíssimo é saber sobre o quanto quero interagir com os locais. Estou sentindo na prática que quanto maior o grupo, menos o contato se torna íntimo. Percebo que em países mais ricos, no qual a população é, digamos, mais fria, viajar em dupla não faz muita diferença, pois o contato já é restrito naturalmente. Nos países onde a população tem característica acolhedora, percebo mais receptividade quando estou só. Além disso, não ter com quem conversar me torna ao mesmo tempo mais receptivo e disponível.

Jordi é o parceiro que mais tempo viajou comigo. A primeira vez na Nova Zelândia, a segunda na Europa e agora na África. Apesar de sermos extremamente diferentes, conseguimos nos ajustar e nos tornamos grandes amigos. Mas nem sempre foi assim! Logo no terceiro dia, ainda na Nova Zelândia, nossas divergências, personalidades e estilo em viajar de bicicleta, me obrigou a chamá-lo para uma conversa franca, na qual debatemos nossos pontos de vista. Percebi através do tempo que Jordi se adaptou bastante ao meu projeto de viagem. Em contrapartida, consegui respeitar sua individualidade. A partir daí, conseguimos administrar nossas diferenças, aumentando a compreensão e a paciência um com o outro. O fato de termos a interação com os locais como prioridade, nos coloca em alinhamento.

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Um brinde a nossa amizade, Jordi! Obrigado por tudo e até a próxima!

Posso dizer que o destino nos uniu e que a paixão em viajar de bicicleta solidificou a nossa parceria. Seguimos diferentes, discordantes em vários pontos, mas a amizade é sólida e as chances de pedalarmos juntos no futuro é muito grande! Enquanto Jordi segue pedalando até a Gâmbia, fico em Dakar para me recuperar, definir e planejar, entre 3 opções, os meus próximos passos.

O tempo me pressiona, e a decisão precisa ser tomada em poucos dias! A saudade pede para voltar, o instinto para seguir…

O que acha que vou fazer: voltar para casa, continuar na África ou cruzar o Atlântico? E se você estivesse em meu lugar, por qual dessas alternativas optaria? Deixe sua resposta nos comentários e aguarde novidades!

Minha volta ao Mundo de Bicicleta! Um pouco da aventura, um pouco do aventureiro!

Sempre considero o primeiro dia, como o mais importante dos meus projetos! Nada acontece se não dermos o primeiro passo, não é verdade? E foi ele que me trouxe a Dakar, capital do Senegal, 47° país visitado com o Projeto Da China para Casa by Bike em 3 anos e 5 meses, onde completei a distância equivalente a circunferência da Terra, 40.075 km, ratificando assim, minha Volta ao Mundo de Bicicleta.

Saí do Brasil para pedalar 6.000 km por 6 meses entre Hong Kong e Singapura, e ainda não fazia ideia onde iria chegar. Me sentia pleno e feliz e ao mesmo tempo angustiado com a aproximação do término da minha viagem pela Ásia. Aliás, este foi o mesmo sentimento que me ocorreu com o Projeto Noruega by Bike em 2011.

Então, incentivado pela minha irmã Cynthia, decidi ir mais longe.

Cynthia: _ Se não agora, quando? Não é você que diz para não desperdiçar as oportunidades?

Eu: _ Provavelmente nunca, tenho medo! É arriscado!

Cynthia: _ Na contra capa do seu livro está escrito que coragem não é a ausência de medo e sim a presença da ação, esqueceu?.

Eu: _ E se eu fracassar? Já tenho mais de 40!

Cynthia: _ Ahhh Muleke! Vai viver com essa dúvida? Não é você que diz que o seu maior medo é chegar na velhice sem ter vivido seus sonhos? A idade só te ajuda a administrar os riscos. Experiência conta nessas horas…

Eu: _ Meu planejamento para o Noruega e Ásia by Bike foram minuciosos. Nem sei para onde ir se decidir continuar.

Cynthia: _  Muda o estilo, se reinventa! Você pode planejar por etapas, não precisa ter uma visão global. Aos poucos Zé, aos poucos… E quando “der” pra você, você volta. Relaxa!

Eu: _ Falar é fácil! E a Ana Laura? Tenho responsabilidades como pai, sabia?

Cynthia: _ Bom! Realmente com isso eu não posso te ajudar… mas você pode contar comigo para todo o resto.

Estávamos em uma praia paradisíaca na Tailândia, e a conversa continuou mais ou menos nessa toada por horas, regadas por sucos de frutas tropicais e pela deliciosa gastronomia local.

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Ilha de Kho Tao – Tailândia

A minha insegurança era tamanha que ao invés de focar nas soluções só enxergava problemas. A mesma tática usada por milhões de pessoas em todo o mundo para boicotar projetos e sonhos… e no fundo eu sabia disso!

E tudo que a Cynthia me dizia fazia sentido. Ela estava usando as minhas palavras contra mim, ou ao meu favor, e me deixou sem saídas!

A Cynthia voltou para o Brasil poucos dias depois. Tive a sensação de que ela acendera o pavio e deixara a bomba em minhas mãos. Eu fiquei, com meu “inquilino”, debatendo por vários dias, buscando as respostas que me faziam sentido.

Com minha irmã  fazendo o “meio de campo” no Brasil, bastava um pouco de atitude e determinação para solucionar os  meus dilemas. Meus medos nunca foram capazes de subtrair o meu impulso. Já conhecia bem a matemática de viajar de bicicleta. O “x” sempre esteve relacionado com as minhas responsabilidades como pai, ausência e saudade! E para solucionar essa equação, recorri aos mesmos princípios que adotei nos projetos anteriores.

Como posso responsabilizar a minha filha por abrir mão de um sonho? Fuga? Seria injusto para mim e muito pesado para ela carregar. Subterfúgio? É minha responsabilidade! Eu empunho o lema de que para conquistar o que se almeja, é preciso abrir mão de muitas coisas, e sei que quanto mais importantes forem essas privações, maior será a motivação para buscar e a satisfação ao alcançar o objetivo.

Eu sabia que poderia usar esses sentimentos a meu favor. E acredito que ao adotar esse novo estilo de vida aventureiro, agrego ainda mais princípios e valores importantes a minha vida e consequentemente ao da minha filha. Juntamente com essa aventura, tem a busca pelo meu melhor!

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Taipei – Taiwan.

Assumir a responsabilidade de dar a volta ao mundo de bicicleta, tinha muito mais a ver com o risco de voltar para casa com a sensação de fracasso, e conviver com essa frustração pelo resto da vida, do que propriamente pedalar os 40.000 km equivalentes a Linha do Equador. O que mais distingue um aventureiro de um cagarola, senão o fato de assumir riscos? Sempre acreditei na minha capacidade em administrá-los. Como disse em outra oportunidade, o risco é proporcional a intensidade que você decide viver! E naquela altura eu já estava no ritmo frenético e cego da paixão em viajar de bicicleta, da sensação de liberdade e tudo aquilo que a viagem estava me proporcionando. Me sentia motivado, minha energia transbordava! Eu e meu coração estávamos alinhados e continuar fazia todo sentido para minha alma!

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Nova Zelândia.

Seguir em frente no entanto, exigia mudanças significativas, tanto comportamentais como estratégicas. Sabia que não teria controle de tudo que aconteceria a partir desta decisão, mas me sentia tranquilo, e de uma certa forma pronto para aceitar e praticar as mudanças necessárias. Mudar sim, mas perder a essência nunca! Tem coisas na minha natureza que não abro mão!

Nunca serei um aventureiro “porra louca”, insensato do tipo destemido. Planejamento, avaliação, estratégia, pesquisa sempre farão parte do meu dia a dia. A sorte é só uma aliada, não é o meu norte. Embora adore experimentar o novo, necessito um pouco de rotina. Gosto de ser surpreendido pelo inesperado, pela casualidade, mas preciso me sentir preparado para o desafio. Tenho ímpeto de conhecer lugares, mas priorizo encontros com pessoas, e tudo isso fica mais evidente a medida que a viagem cresce!

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Líbano.

E como ela cresceu substancialmente, percebi que o melhor a fazer seria fracionar meu objetivo em etapas. Definir pequenos trechos e estudá-los seria muito mais fácil e flexível do que planejar a rota definitiva. Muita gente sabe onde quer chegar, mas vê o objetivo tão distante, que se sente desmotivada, e desiste, as vezes, antes mesmo de começar. Ao desmembrar meu grande objetivo, perdi a “linearidade” do sentido leste/oeste e ziguezagueei um pouco pelo mundo, mantendo o foco em locais, culturas e sabores que me interessam.

Aliás, encarei a flexibilização da viagem como a grande evolução estratégica. Ao contrário dos projetos anteriores, com datas de saída e chegada estipuladas, ganhei ainda mais liberdade e consegui melhor controle da ansiedade. Sem falar que a expectativa de cumprir cada etapa, mantem a motivação elevada, o foco ajustado, transformando cada conquista em estímulo para seguir em frente! É muito mais fácil manter a motivação e o foco quando o objetivo não está muito distante!

Um bom exemplo disso aconteceu quando surgiu a ideia da última etapa, cumprida ao chegar em Dakar, onde estou agora. A decisão surgiu como um impulso.

Pedalava na Europa. Já havia “subido” da Itália (ponto inicial da etapa) até a Holanda, e agora estava “descendo” até Lisboa (ponto final da etapa). De Lisboa iniciaria uma nova rota, mas ainda estava pesquisando sobre qual rumo tomaria. Estava chegando na capital da França, atravessando uma região chata do subúrbio, me esquivando do tráfego e prestando atenção na rota traçada pelo GPS. Tempo nublado com chuviscos ocasionais. Frio. Um pedal chato. Barulho! De repente ela surgiu em minha frente, tímida, com a neblina deixando-a pálida. Vi, registrei a imagem em meu cérebro, mas não tive a sensibilidade de dar a devida importância ao momento. Minha atenção estava voltada as buzinas que me azucrinavam, e ao corredor entre os carros que se estreitava à medida que me aproximava de um grande cruzamento. Alguns quilômetros à frente a ficha caiu. Me deparei com ela novamente, ainda pálida, mas desta vez ela estava  imponente, gigante, linda! Torre Eiffel!!! Meus olhos transbordaram e foi difícil me convencer que havia chegado em Paris pedalando. E quando eu soltei um _ Caraca!!! Estou em Paris!!!! Dakar explodiu na minha cabeça! Paris – Dakar! E por que não!

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Paris – França

A etapa Europa deu lugar a etapa Paris-Dakar, e o roteiro parecia perfeito! A medida em que minhas pesquisas foram se aprofundando, fui encontrando pistas de que estava “no caminho certo”! Um roteiro que culminaria com uma quilometragem muito aproximada da Linha do Equador – 40.075 km, contemplando a realização do grande sonho em dar a volta ao mundo de bicicleta, e que ao mesmo tempo preencheria as expectativas não só minhas, mais de muitos aventureiros. Dos líricos aos racionais!

Acredito que os aventureiros de um modo geral são motivados pela exploração, descoberta, aprendizado, prazer e é claro diversão, ou melhor, muita diversão! Creio que a busca pelo equilíbrio entre as sensações do corpo, mente e alma também são senso comum da comunidade. A partir daí, as vertentes se diferem bastante, pois cada indivíduo possui sua própria personalidade, estilo, interesses e crenças. Gosto de associar minha aventura a coordenadas geográficas, extremos, marcos naturais. Amo desafiar meus limites e superá-los. Gosto de criar meus próprios roteiros e de estar em um lugar pela primeira vez, ao mesmo tempo que sou atraído pelo romantismo dos roteiros tradicionais, assim como gosto de voltar a lugares que me marcaram.  Gosto de encontrar pessoas e da intensidade da viagem, mas também gosto dos momentos solitários que me proporcionam reflexões. E para mim,  faz todo sentido associar tudo isso a um apego cultural.

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Egito

E para me infiltrar na cultura local, não poderia ter sido mais feliz ao incorporar cicloturismo e gastronomia aos meus projetos.

Enquanto viajar de bicicleta possui a magia de atrair e encantar, a gastronomia me oferece a oportunidade de entrar nas casas, revelando a identidade dos locais, os sabores e aromas de cada país visitado. Como se não bastasse, meus dois hobbies despertam carinho, solidariedade e a sensibilidade das pessoas, me dando cada vez mais certeza de que o mundo é, na grande maioria das vezes, um lugar bom e seguro.

A rota Paris-Dakar coroou minha volta ao mundo resumindo toda emoção que estou vivendo desde quando deixei o Brasil em novembro de 2013. Grandes desafios, destinos exóticos, novas culturas, encontros emocionantes, paisagens incríveis, contato com a natureza e muito aprendizado!

Com a minha máquina fotográfica, registro a trilha que meus pneus desenham no mundo, eternizo minhas lembranças, e relato o dia a dia da minha aventura. Através das minhas lentes, desnudo a poesia, a diversidade, e a realidade do mundo que estou descobrindo de cima do selim da minha bicicleta, e através do Blog, Youtube e das outras mídias sociais, como Instagram e Facebook, faço a ponte de conexão entre minhas emoções e sentimentos com a minha família, amigos e todos aqueles que pegam carona na minha garupa. Essas ferramentas, além de encurtar distâncias, é também uma maneira de me sentir presente. Confesso que esse longo período de solidão judia demais do caboclo aqui!

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Croácia.

Noto que meu blog cada vez mais, vem sendo usado como ferramenta de pesquisas, ajudando a preservar meu compromisso e responsabilidade em buscar informações, curiosidades e dicas. Esse comprometimento me ajuda tanto na logística, me dando confiança para seguir em frente, quanto em meu enriquecimento cultural, unindo o prazer de aprender e compartilhar. Reconheço, no entanto, que a prospecção da minha viagem deixa muito a desejar. Sinceramente, creio que minha jornada merecia maior visibilidade se comparado ao seu tamanho global. Não quero e não vou vulgarizar ou adotar um tom de oba oba, mas acho que chegou a hora de dedicar um pouco mais de atenção a divulgação, buscando aumentar o número de seguidores que se interessam pela essência dos meus projetos, e de parceiros que se identificam com os ideias e me ajudem a divulgar e explorar de maneira adequada tudo que minha aventura representa.

Então família, amigos e simpatizantes, quero pedir a sua ajuda! Se você ainda não me segue, que tal me dar uma forcinha, clicando no botão “seguir” do meu blog e no canal do youtube? Ao mesmo tempo em que você oficializa seu apoio, vai ficar sabendo em primeira mão toda vez que rolar uma novidade. E se quiser ir ainda mais longe, curta e compartilhe meus posts no Facebook. Vai ajudar mais que imagina e me deixar feliz pra caramba! Conto com vocês!

Aliás, chegou a hora de agradecer você que está viajando comigo já há algum tempo. Saiba que receber o seu carinho faz toda a diferença. Para expressar a minha gratidão, me perdoe usar o chavão eternizado por Christopher McCandless no filme Na Natureza Selvagem – “A felicidade só é verdadeira se for compartilhada”. Muito obrigado pelo carinho e por não me deixar andar sozinho! Embora tenha ciência de que foi minha paixão que me trouxe até aqui, aliás, a relação paixão e resultado é outro princípio no qual acredito, considero cada um dos meus seguidores, dos mais chegados aos mais distantes, o alicerce da minha aventura.  Compartilhar as histórias e aprendizados faz tanto sentido para mim que ao término desse sonho, quero continuar a minha missão de ministrar palestras motivacional com objetivo de influenciar e motivar a busca do sonho e o melhor de cada um

Por último, não entenda que sou desapegado pelo fato de estar tanto tempo na estrada. Não sou!!! A saudade grita dentro de mim! Sinto falta de tudo e de todos que gosto! Minhas lembranças e a vontade de estar presente machucam muito! Sinto falta da minha TV e do meu sofá, sim Senhor! No entanto, uma das coisas que me fez romper com o conservadorismo e mudar meu estilo de vida foi decidir não desperdiçar as oportunidades. Quero aproveitar ao máximo minha aventura. Continuo tão motivado como se fosse o primeiro dia!

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1.224 dias. 47 países. 40.075 km pedalados. Dar literalmente a volta ao mundo foi uma vitória pessoal que me fez superar meus limites físicos e mentais. Fica a lição que não é possível chegar a lugar nenhum se não dermos o primeiro passo, e que não é a velocidade, e sim a direção a seguir o mais importante. Nunca estive tão perto de casa e alguns poderiam imaginar Dakar como o ponto final da minha aventura. Mas para os aventureiros nem sempre um ponto final representa o fim, e sim o ponto de partida para uma nova aventura!

Sem pressa, mas cada dia mais perto de casa!

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Bye bye Mauritânia! Bye bye Saara! E que venham novos desafios!

Meso não me sentindo 100 % depois de alguns dias de repouso, as dores regrediram, e resolvi enfrentar a estrada novamente. Estava inseguro e me sentindo pressionado pela minha própria vontade de seguir em frente, e por Jordi, que já demonstrava inquietude e impaciência por tanto me esperar. Coitado! Quero ressaltar que meu amigo fez de tudo para me deixar confortável, demonstrando solidariedade em todos os momentos que precisei. Até massagem ele me fez! Valeu amigão! Esse momento está sendo muito mais confortável com sua ajuda! Muito obrigado! Continuo contando com você, Jordi! Aliás, quero agradecer também a todos que me mandaram mensagens e ligaram para me dar uma força! Se os recados já são legais quando estou na boa, eles se tornam ainda mais importante quando estou na pior! Obrigado galera!

Entre Nouakchott e Saint-Louis / Senegal (o próximo ponto de apoio caso eu necessitasse), teria que pedalar cerca de 275 km, sendo 50 deles em estrada sem asfalto. Trepidação, areão e pelo menos  3 noites dormindo em barraca. Tudo isso me colocava em check! Mas depois de adiar nossa partida por duas vezes, fiz um teste e senti que poderia ao menos pedalar com uma das mãos. Decidi correr o risco, contrariando as recomendações!

Com o vento sempre ajudando e relevo gentil, pude realmente poupar o lado comprometido, pedalando apenas com a mão direita no guidão na maior parte do tempo. Diferentemente da parte norte do país, o Saara ao sul da Mauritânia é mais povoado, com muitas vilas e mais pontos de apoio. Embora precários, os pequenos comércios foram suficientes para nos abastecer com água, e nos colocar em contato direto com o curioso e amistoso povo local. A vegetação é outra diferença marcante! Árvores e arbustos são abundantes, marcando a zona de transição desértica, e assim, conseguimos sempre uma boa sombra para descansar no meio do dia.

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Pequenas vilas no Saara. Mauritânia.

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Pequenas vilas no Saara. Mauritânia.

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Jordi recebendo o carinho do povo local. Mauritânia.

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Simpáticos Mauritanos

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Ahhh minha rede!!! Saara. Mauritânia.

Quando nos aproximamos do Rio Senegal, também conhecido por Rio do Ouro, que separa a Mauritânia e o país de mesmo nome, como em um passe de mágica, o cerrado se transformou em zona pantaneira. Nesta região do delta, junto a foz, fica o Parque Nacional Diawling, um santuário ecológico que abriga  mais de 200 espécies de aves como pelicanos, flamingos, cegonhas negras e também crocodilos, javalis e diversas espécies de peixes. Também tem muito gado pantaneiro e camelos, que certamente foram introduzidos nesta região pela população ribeirinha, devido a abundante oferta de alimentos. Existe bastante semelhança entre o parque e a região do Pantanal, inclusive com os enxames de pernilongos perto do nascer e pôr do sol. Barbaridade! Vale lembrar que a malária corre solta neste região. Fato que exige cuidado!

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Típica vegetação do deserto. Mauritânia.

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Descanso em Keur Macéne, cidade entre o deserto e o alagado. Mauritânia.

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Keur Macene. Mauritânnia.

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Ribeirinho. Parque Nacional Diawling. Mauritânia.

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Javali. Parque Nacional  Diawling. Mauritânia.

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Parque Nacional Diawling. Mauritânia.

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Parque Nacional Diawling. Mauritânia.

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Parque Nacional Diawling. Mauritânia.

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Parque Nacional Diawling. Mauritânia.

Se por um lado o ecossistema do parque nos distraiu depois de um longo período de seca, por outro, a estrada de chão foi arruinando minha lesão. Já tomei a decisão de parar e descansar assim que tiver oportunidade. Mas não sou apenas eu que estou sofrendo! Alguns dos meus equipamentos também padecem com a ação do tempo! Já se foram 3 anos e 4 meses de estrada meu! E muita coisa já possuía desde antes da viagem! Os equipamentos vão quebrando ou se danificando pelo simples fato de envelhecer! Muito uso! Desgaste natural! Tudo tem validade! A válvula do meu colchonete quebrou de tanto abrir e fechar! Diversos feixes dos alforjes já eram! Os alforjes estão “comendo” o alumínio na zona de contato com os racks. O fixador da bomba no quadro da bike já era! Barraca com problemas como relatei outro dia. Os pneus já muito perto da vida útil! Câmaras de ar ressecadas, muito tempo guardadas sem usar. Uma das conexões da mangueira dos freios ressecou e o óleo vazou. Estou com apenas um funcionando! Preço de viajar com sistema hidráulico! Eu sei! Mas já tinha a bike antes de viajar… e outra… saí de casa para ficar apenas 6 meses na estrada, lembra?  Pois é! Meus equipamentos vão minguando com o tempo e os riscos devem ser avaliados e levados em consideração para o planejamento da minha próxima etapa, que será definida muito em breve!

Infelizmente não consegui a qualidade desejada com relação a gastronomia na Mauritânia. Os pratos típicos são mais ou menos iguais ao Marrocos, como é o caso do cuscuz e tajine. O arroz acompanhado de frango, ou guizado de carne de ovelha ou de camelo também são muito apreciados. O suco da fruta do cactos é bem interessante e o chá com hortelã é a bebida nacional, servida depois de qualquer refeição ou simplesmente fazendo o papel do nosso cafezinho no meio da tarde.

A expectativa agora se volta para a minha recuperação completa, fato complicado que exige paciência, pois estou trabalhando com hipóteses, já que ainda não tenho um diagnóstico fechado; para Senegal, o 47° país visitado pelo Projeto da China para Casa by Bike; e pela aproximação de uma importante meta pessoal, que me orgulha, me fortalece, me motiva a seguir em frente ou me deixa pronto para voltar para casa! Aguardem novidades!

 

 

 

 

 

 

 

Mauritânia é coisa de louco meu amigo!!!

Cultura chocante, a mais estranha oferta sexual que já recebi na vida, cruzar território não reconhecido internacionalmente (terra de ninguém),  deserto e raríssimos pontos de apoio, calor, e uma derrota marcante que me deixou muito triste! São os mais de 3 anos de viagem cobrando seu preço!

Geograficamente localizado no norte da África entre dois países conhecidos pelos brasileiros, Marrocos ao norte e Senegal ao sul, muito pouco se sabe sobre a Mauritânia. O Saara cobre 75% do país e sua economia provém principalmente do minério de ferro (50% das exportações), petróleo, ouro, prata e bronze. A maioria da população vive na pobreza e o fato curioso é que o país aboliu a escravatura apenas em 1981.

Sempre falo aqui sobre culturas diferentes das nossas e coisa e tal… mas a  República Islâmica da Mauritânia (Nome oficial do país) surpreendeu! Ao mesmo tempo em que as mulheres são chefes de família e responsáveis pela casa e crianças, elas são impedidas de ir a escola e trabalhar. Quanto a isso, se entendermos que estamos em um país muçulmano sunita, podemos até considerar “normal”, não é verdade? Todos nós sabemos sobre as diferenças dos direitos entre os sexos em um país regido pelas leis do Islã.

Mas se liga no que acontece por aqui!

Diferente do padrão mundial, na Mauritânia as mulheres magras não tem vez! Isso mesmo! Segundo a tradição Leblouh, são as gordinhas que fazem sucesso por aqui! E a coisa é levada a sério meu chapa! As famílias mandam suas filhas para um Acampamento de Engorda. Um tipo de campo de concentração , onde as crianças entre 5 a 9 anos são forçadas a ingerir até 16.000 kcal por dia! Aos 12 anos já pesam mais de 80 kg. Se vomitarem, ou não seguirem as regras, sofrem castigos e torturas. A obsessão pelos “pneuzinhos”  e estrias é tão grande, que chegam a drogar as crianças para comer mais e mais. Algumas meninas são abandonadas pelas famílias caso não consigam engordar.

De acordo com instituições que defendem os direitos das mulheres, o Leblouh vem perdendo força nas classes média e alta do país,  mas ainda é muito praticado nas classes mais baixas e na zona rural. Segundo a tradição, quanto maior a mulher, mais espaço ela ocupa no coração do marido, não dando espaço para concorrentes. A cultura diz que ser gorda, traz felicidade e estimula o casamento precoce. Assustador, não é mesmo!!! Mas não termina por aqui. Mais abaixo vou relatar um fato curioso que aconteceu comigo.

Posso dizer que minha chegada ao país também foi um pouco sinistra. Entre as fronteiras de Marrocos e Mauritânia existe uma faixa de terra  de 6 km, não reconhecida internacionalmente, ocupada pelas Nações Unidas. Uma terra de ninguém, podemos dizer assim! Sem estrada e muito militarizada.

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Estrada entre as fronteiras entre Marrocos e Mauritânia. Território não reconhecido internacionalmente ocupado pela Nações Unidas..

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Estrada entres as fronteiras de Marrocos e Mauritânia sendo guardada por bases militares e viaturas da ONU. Território não reconhecido internacionalmente ocupado pela Nações Unidas.

Depois de atravessar o território não reconhecido, chegamos, Jordi e eu, na Mauritânia. Eu já estava com o visto em meu passaporte, mas Jordi teve que enfrentar a burocracia e “morrer” com uma grana a mais para receber o carimbo.

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Posto de fronteira da Mauritânia.

Conforme o esperado, nossa dificuldade aumentou no Saara do lado da Mauritânia. O sol, cada dia mais forte, exigiu mais cuidado e os pontos de apoio ficaram ainda mais escassos, nos obrigando a carregar mais água e comida. Para se ter uma ideia, o país é coberto por apenas 4 estradas asfaltadas. Sabendo disso, aproveitamos o vento a favor e paramos, já na boca da noite, em Boulenouar, cerca de 45 km da fronteira. Como já estávamos há alguns dias tomando banho com lenços umedecidos, que nunca conseguem vencer o poeirão do deserto com satisfação, decidimos alugar um quarto no único hotel do vilarejo. E que besteira que fizemos!!! Para começar, o hotel parecia uma prisão e a gororoba que jantamos estava mais para ração do que refeição. Além de pagar caro em relação ao Marrocos, fomos devorados por pulgas, carrapatos e piolhos. Que tristeza meu amigo! Decidimos que a partir de então, passaríamos as noites acampando. A lua cheia e a temperatura agradável durante a noite ofereciam as condições ideais.

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Nome das duas mais importantes cidades da Mauritânia.

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Nunca pare nesse hotel. Boulenouar. Mauritânia.

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Recepção do hotel em Boulenouar. Mauritânia.

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Jordi e eu esperando a nossa “ração” no hotel El Heze. Boulenouar. Mauritânia.

Em algumas pequenas vilas, a precariedade é tão grande que não existe eletricidade e a água é armazenada e barris de plástico. Não existe água mineral para comprar. Durante todo o trajeto é comum encontrar carcaças de carros abandonados, fato que nos remete ao terrorismo. Alguns estão tão contorcidos, com as fuselagens queimadas que parecem terem sidos bombardeados. Vale lembrar que em 2008, a maior prova de Rali do mundo, o Paris-Dakar, sofreu um ataque terrorista por fanáticos religiosos na Mauritânia, obrigando os organizadores mudarem o Rali de lugar.

As paisagens do Saara no lado da Mauritânia continuam muito parecidas com o Saara marroquino. Reparei apenas um pouco mais de verde, com algumas árvores, arbustos e moitas.

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Cidade fantasma. Mauritânia.

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Mauritânia.

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Mauritânia

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Mauritânia.

Quando aparece uma oportunidade, nos protegemos do sol nos pequenos armazéns de beira da estrada onde aproveitamos para cozinhar algo simples, já que ou não existe restaurantes ou a higiene do lugar não convence.  Mas como já disse, são raros. Teve dia que não achamos nada e nos escondemos debaixo de uma carroceria de caminhão abandonada. Os mosquitos azucrinam nossas vidas durante o dia, mas somem durante a noite e com isso, associado ao clima mais ameno, caprichamos mais no rango.

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Cozinhando em um armazém de beira de estrada. Mauritânia.

Depois do árabe, o francês é a língua mais falada, seguido pelo espanhol. Com sorte, é possível achar alguém que fala inglês. A população é bastante miscigenada entre mouros e negros. Sempre são muito simpáticos. Em alguns lugares, onde a pobreza e a falta de cultura prevalessem, tivemos dificuldades de comunicação e aborrecidos por pedintes. O lixo ao relento e o fedor também incomodam bastante!

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Jovens curiosos vestidos tipicamente com o Drâa, nos abordando amigavelmente na estrada. Mauritânia

Entre a fronteira e a capital Nouakchott, são 400 km e a única cidade propriamente dita é Chami. A cidade impressiona pela pobreza, sujeira e desorganização. Muita gente na rua, que foram atraídos pela febre do ouro. Quando chegamos a cidade, eu não me sentia bem. Um torcicolo me deixou travado e com fortes dores no ombro e por isso não consegui fazer muitas fotos. Devido a dor, buscamos um hotel, mas o único da cidade estava lotado. Seguimos viagem e paramos para acampar debaixo de um luar maravilhoso.Com a claridade da lua, praticamente não precisamos das lanternas para cozinhar. Mas a dor não me deixava curtir o momento como gostaria. Nem mesmo uma cáfila de camelos que pastava perto de nós me animou. Fui para a cama, ou melhor, para barraca mais cedo que gostaria.

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Chami. Mauritânia.

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Garimpeiros tomando chá em Chami. Mauritânia.

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A lua surgindo com tudo! Mauritânia.

Praticamente não dormi durante a noite. Desmontei acampamento com dores e pedalamos 8 km até um posto de combustível. Ali comemos, descansamos até o sol baixar novamente, compramos água e comida. Quando voltamos a pedalar já não conseguia ficar com a mão esquerda no guidão da bike. Fiz de tudo e a única posição que não me fazia ver estrelas era elevar o braço acima da cabeça. E assim fui, com vento ajudando por mais 20 km. Em uma barreira policial decidi pedir ajuda.

Enquanto Jordi ficou no check point, gentilmente, o comandante escalou um soldado para voltar comigo até Chami, para me levar a um pequeno hospital, que ficou sem energia durante todo o tempo que fiquei lá. O médico que me atendeu teve sensibilidade e mesmo sem falar inglês, conseguiu entender as minhas necessidades. Enquanto o soldado segurava a lanterna, o doutor me injetou um relaxante muscular e anti-inflamatório. Me deu uma caixa de remédio e me desejou boa sorte.

Aí aconteceu mais um momento inusitado da viagem.

Aproveitando a folga, o soldado me convidou para passar em sua casa. Era uma oportunidade para ele visitar a família. A cidade inteira sem energia. Só a rua principal, ou melhor, a estrada, com luminárias abastecidas com painéis solares, ao longe, e a lua é claro, traziam um pouco de luminosidade. Muita gente sentada em frente as casas e crianças correndo e brincando. Em 5 minutos de caminhada chegamos. Como não conseguíamos nos comunicar através de palavras, muita coisa se perdia na mímica, exigindo muito do meu senso de interpretação. Meio sem paciência devido a dor e cansado, fui “levando” o soldado da maneira que deu. Cumprimentei seus familiares homens, que estavam em frente a casa, sentados em uma esteira. A penumbra não permitindo a completa identificação dos rostos.

_ Salamaleico (Salaam Aleikum em árabe)! Soltei a saudação mais comum do mundo árabe com meu sotaque português.

_ Alaikum As-Salaam! Os 5 homens responderam simultaneamente, fazendo sinal para me sentar.

Sentei! Ou melhor, tentei, mas estava impaciente e com dor. Minha cabeça só pensava em descansar e eu já duvidava da minha recuperação para seguir pedalando no outro dia pela manhã. Ainda estava a 200 km da capital.

Me levantei e tentei me distrair com a lua, laranja naquele momento. Enorme! Linda!

Andando para lá e para cá, minha curiosidade me levou até a porta da casa, onde 3 mulheres conversavam em vós alta. A única luz vinha de uma lanterna de pilhas postada bem no meio do único cômodo da casa. Uma delas com uma criança no colo. As outras, se maquilando com um pó branco que as deixavam com uma aparência assustadora. A luz não era forte suficiente para revelar suas feições, que associadas ao rosto branco, parecia um filme de terror!  Nossa! Fantasmas, pensei!

Quando a última mulher terminou a auto maquilagem, senti um movimento diferente entre todos. O soldado me chamou até a porta, e com o dedo indicador, apontou para uma e depois para outra mulher, excluindo a que estava com o bebe. Estranhei, e demorei alguns segundos para entender que ele estava perguntando qual delas eu preferia. Bicho, fiquei sem graça que soltei uma gargalhada. As duas sentadas no chão com os olhos fixos em mim. Aqueles rostos brancos fantasmagóricos me deixavam pilhérico! Onde eles querem chegar? Tentei dar uma de “João sem braço”(expressão usada lá nas bandas de onde venho, que significa: dar uma de desentendido), e sair. Mas o soldado ao mesmo tempo que me segurou com firmeza o braço, fez sinal para uma delas se levantar e se aproximar. Me segurando com uma mão, e com a outra segurando o braço da mulher, ele nos aproximou. Com a cabeça, fez um movimento perguntando o que achei, soltando um: _ Small sister.

Não consegui sacar a idade da moça, que tinha um rosto bonito até, contrastando com os dentes desalinhados quando sorriu. Perfume barato exagerado! Roliça! Ela usava um bonito mulafa, traje típico das mulheres da Mauritânia.

Tentei me desvencilhar  das garras do soldado. Mas ele foi irredutível! Notei a expressão do seu rosto e fiquei um tanto quanto apavorado! O rosto amigável até então, exibia traços sérios, lembrando um soldado em formação. Naquele instante, percebi que o melhor a fazer era dar um sorriso e brincar. Nem me lembro o que falei…

Ao mesmo tempo que soltou o braço de uma,  fez um sinal para a outra moça se aproximar. Percebi a dificuldade que a mulher teve ao se levantar do chão com toda a banha que carregava. O mesmo perfume exagerado! _ Big sister, disse o soldado! Essa não era feia, era lazarenta de feia! Enorme! Essa deu medo! kkkk

De uma maneira mais incisiva e ao mesmo tempo fazendo parecer uma brincadeira, me livrei do soldado, dei um sorriso, e fazendo gestos com a mão imitando umas pedaladas disparei: Você quer pedalar comigo até o Brasil? kkkkk

Ao mesmo tempo em que estava achando engraçado,  sentia que as coisas estavam rolando com seriedade para eles. Não senti medo, mas fiquei inseguro e não entendi direito o que estava acontecendo. Será que o soldado estava tentando arrumar um casamento para as irmãs? Será que estavam apenas fazendo uma brincadeira entre família querendo saber minha opinião sobre qual era a mais bonita?

Fui me afastando da porta e o soldado tentando me segurar. Quando parei, com uma postura mais austera, pude ler os sinais que ele fazia com as mãos. O indicador de uma das mãos entrando no buraco que fazia com a outra, deixando claro que era sobre sexo o negócio.

Inacreditável! O soldado estava oferecendo as suas irmãs. E o pior, com o consentimento dos familiares e das próprias meninas. Ele ficou inconformado com a minha negativa. Batia a mão direita no peito suavemente, sobre o coração, como se estivesse dizendo: Vai lá cara, é de coração! Pode comer! Sinceramente não consegui interpretar sua intensão. O gesto que fazia parecia se tratar de uma cortesia, mas eu sentia que no fundo eles queriam dinheiro. Será que aqui rola o se comer tem que casar? Será que isso também faz parte da tradição Leblouh?

Joguei a culpa da minha negativa em minha dor e consegui fazer com que ele me levasse de volta ao acampamento. Jordi me ajudou a montar a barraca. As dores só aumentando! Quase não consegui dormir com meus pensamentos oscilando entre a experiência que acabara de viver e o quanto tudo aquilo me chocou, e a preocupação com as dores e ter que sair dali pedalando.

Pela manhã, tive a impressão que a dor não retrocedeu uma vírgula e uma angustia ainda maior, tomou conta de mim. Enquanto desmontava acampamento fui tentando me convencer que o melhor a fazer seria não pedalar. Aliás, com aquelas dores, não seria possível. Nenhum ponto de apoio, vento contra, forte calor, bicicleta ainda mais pesada com o estoque de água e comida e muitas outra coisas mais…

Chamei Jordi e lhe informei que não conseguiria chegar pedalando em Nouakchott. Foi difícil ver meu amigo se aprontando para partir sozinho! Fiquei com um nó na garganta. Ele partiu depois de um abraço e da promessa de um reencontro breve. Chorei ao ver meu amigo partir…

Os soldados pararam uma caminhonete. E os 200 km que fiz de carro foram os mais difíceis desde que iniciei a empreitada no Saara. Um sentimento de derrota! Fracasso! Angústia! Foram 3 horas e meia onde meu foco passou a ser o problema, e não a solução! A dor me impedindo de buscar uma saída!

Demorei um tempo para me organizar e me energizar novamente. Era preciso mudar minha atitude. A primeira coisa que fiz foi buscar uma explicação sobre isso. E estava fácil! O assunto está diretamente ligado a minha profissão. Tempos atrás, tive que mudar os ajustes da bike para amenizar uma lesão no pé. Desci o banco e a biomecânica do pedal mudo. Inclinação do corpo, ponto de pressão, alavancas e etc… Certamente, isso sobrecarregou outras áreas, que associado a um torcicolo, causou uma forte contratura que comprometeu a musculatura do trapézio, deltoide, manguito rotador, supraespinhal,  subescapular entre outros. A contratura foi tão forte que sobrecarregou a origem de alguns músculos e certamente exigiram mais dos tendões. Sei bem as consequências de fazer exercícios de maneira inadequada. E na verdade estava tentando administrar os problemas para seguir em frente. Mas chega uma hora que não dá mais! Nesses mais de 3 anos, sinto que, enquanto consigo manter a massa muscular dos músculos da perna, venho definhando na parte superior, principalmente braços e ombros. Estou certamente mais fraco nessas áreas e a bomba estourou.

Estou em fase de tratamento agora. Repouso forçado! Na capital Nouakchott, fui a um ortopedista, tomei mais uma injeção de anti-inflamatório, acionei minha irmã e cunhado que são fisioterapeutas e associado a um repouso, estou me recuperando.

Já me sinto melhor, embora ainda sinto dores neste momento e tento me livrar da sensação de fracasso. O que me consola é um velho ditado chinês que diz:

_  Para se dar um grande salto á frente, é necessário dar uns passos para trás…

 

 

 

 

 

 

Deserto do Saara – Marrocos

Naquele altura, não sabia direito se era um sonho ou um pesadelo! No dia seguinte a inesquecível experiência de passar uma noite com os nômades, eu vencia a última pirambeira da Cordilheira Atlas, para entrar definitivamente, no maior e mais desafiador deserto do mundo, o Saara. Mais uma vez, meu sonho de dar a volta ao mundo de bicicleta, me colocava frente a frente com um grande desafio.

A cordilheira é um dos limites do deserto, já que as nuvens pesadas vindas do oceano não conseguem transpô-la. Ainda lá em cima da montanha, onde o verde predomina, a vista era apavorante. O forte vento varria a areia formando uma enorme nuvem de poeira sobre o monocromático ocre do deserto. Era possível sentir o bafo quente do vento! Excitado pela longa descida, onde a velocidade ultrapassava 60 km⁄h, me lembrava das dificuldades que enfrentei nos desertos da Mongólia, Israel e Jordânia, quando a temperatura ultrapassou 50⁰ C. Sem falar nos escassos pontos de apoio, recapitulando em meus pensamentos, todos cuidados a serem tomados. Um pitada de sofrimento antecipado! E aquela velha pergunta me atormentando: O que estou fazendo aqui?

Mas por outro lado, cruzar o maior, mais quente e temido deserto do mundo, é um desafio que excita qualquer aventureiro! Eu gosto de testar os meus limites, (de vez em quando… kkkk), pois sei que cada obstáculo ultrapassado, me deixa mais forte! A experiência ajuda nessas horas! E tudo aquilo que já enfrentei, associado ao fato de não estar só, me trazia confiança.

É… mas bastou um pequeno acidente na descida para me lembrar que toda experiência do mundo não é garantia de sucesso. Vários tipos de imprevistos podem aparecer, e estava certo que apareceriam… é a rotina de uma viagem de bike! Atropelei um abelha que me ferroou na cabeça, em uma das aberturas do capacete.  Nada grave! Mas isso foi o alerta que precisava para não baixar a guarda! Presta atenção moleque! Foco! Dizia para mim mesmo, lembrando do meu cunhado que sempre me alerta com essa palavra!

Em Guelmim, cidade apelidada de “A porta do deserto”, Jordi e eu fizemos uma bela refeição, ajustamos nosso estoque de água e comida e seguimos, com vento em popa, até a boca da noite, onde acampamos em uma escola.

Alí, conforme minhas pesquisas, tive a certeza que o vento seria um aliado na grande maioria dos dias, e assim se fez! Nunca andei tão rápido! Nossa média até agora no deserto foi de 98 km por dia. Bárbaro!

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Primeira noite no Saara em uma escola religiosa para meninos. Deserto do Saara. Marrocos.

Nos primeiros 12 dias no Saara, não fez muito calor! Mas em uma incrível coincidência, assim que cruzamos o Trópico de Câncer, o bicho pegou! E a partir de então, se esconder do sol na parte mais quente do dia passou a ser inevitável!

Basicamente, o deserto é monótomo, com paisagens cansativas até. Isso muda um pouco quando a estrada ganha um pouco de sinuosidade e ondulação ou quando beira o Atlântico.

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Saara. Marrocos

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Saara. Marrocos.

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Saara. Marrocos.

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Saara. Marrocos.

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Litoral no Saara. Marrocos.

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Litoral no Saara. Marrocos.

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Litoral no Saara. Marrocos.

O Saara marroquino, diferente dos outros desertos que atravessei, é mais habitado e o movimento na estrada é maior. Fomos parados algumas vezes por turistas curiosos que sempre contribuem com nosso estoque de água. Basicamente são europeus de férias com motor-home ou motoqueiros que são atraídos pela rota Paris ⁄ Dakar.

Teve um dia que ficamos sem água. O posto que contávamos para nos reabastecer estava abandonado. Aí, fiz sinal para um caminhoneiro com minha caramanhola em mãos. Pumba! O motorista parou na hora! Em uma das raras montanhas desse trecho, ao alcançar o topo, outro caminhoneiro com seus ajudantes nos convidaram para almoçar e tomar e chá! Para quem me segue aqui no blog, lembra do polvo que ganhei em uma vila de pescadores. Se viajar de bike inspira solidariedade,  em lugares remotos como o Saara, a ajuda é ainda mais presente.

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Motoqueiro inglês que nos brindou com pastilhas isotônicas. Saara. Marrocos.

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Almoçando na beira da estrada com locais. Saara. Marrocos.

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Vila de pescadores. Saara. Marrocos.

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Meu polvo, ainda na mão de um local. Saara. Marrocos.

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Jordi e eu cozinhando dentro da barraca para fugir dos fortes ventos. Saara. Marrocos.

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Polvo com ovo cru. Iguaria caiçara do litoral do Saara. Marrocos.

Em outro vilarejo de pescadores, onde a estrada passa bem ao lado, fiz sinal para duas mulheres, perguntando onde poderia achar comida. Ela fez sinal com as mão para que eu esperasse um minuto e foi chamar o marido. Ele veio, com um sorriso aberto, falando que poderíamos almoçar com eles. Nos levou para dentro de casa, nos deu comida, abrigo do sol e ainda compartilhou um pouco de sua história de vida com a gente. Um momento emocionante onde pudemos buscar em uma simples conversa, momentos de sua vida passada. Uma das mulheres era sua irmã. Que arranhava bem o espanhol… as lembraças culminaram no momento que acharam uma foto dos tempos de criança. Vi emoção nos olhos deles! Me emocionei também… De barriga cheia, voltei ao pedal feliz, sabendo que ao relembrar uma emoção esquecida no passado, pudemos retribuir o favor que nos fizeram.

E talvez seja esse o grande barato da vida! As lembranças… colecionar emoções!

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Vila de pescadores. Saara. Marrocos.

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Momento único! Na parede um trecho do Alcorão. Saara. Marrocos.

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Jordi e eu entre família no Saara. Marrocos.

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Boas lembranças… fortes emoções! Saara. Marrocos.

Devido a monotonia da estrada, fui procurar distração nas pequenas sutilezas do enorme deserto. Abaixo, segue um pouco da fauna e flora do Saara. Imagens que fiz nas pequenas parada para o xixi! A primeira vista, o deserto é inóspito, mas olhando com mais cuidado, encontra-se muita vida! Basta a umidade trazida pelo oceano ou pequenas cuhvas para a vida florescer. O chão é forrado de pequenos insetos como aranhas, formigas, carrapatos e besouros, e meu amigo…. os mosquitos são um inferno! Milhões! Em todos os lugares!!!

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3 camelos… Saara. Marrocos.

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Flores do deserto. Saara. Marrocos.

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Flores do deserto. Saara. Marrocos.

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Flores do deserto. Saara. Marrocos.

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Flores do deserto. Saara. Marrocos.

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Saara. Marrocos.

O vento que ajuda muito quando estamos pedalando, atormenta a nossa vida em todos os outros momentos, nos obrigando a cozinhar dentro da barraca, correr atrás de coisas que ele carrega e prestar atenção para não se molhar na hora de fazer xixi. Em uma vacilada, quando estava desmontando a barraca, cometi um erro grave que resultou em uma vareta quebrada! Mas você não disse que é experiente e coisa e tal? É irmão.. eu disse sim!!! Essa barraca me acompanha desde o Projeto Noruega by Bike (2011). Já montei e desmontei-a, chutando baixo, 350 vezes! (O Projeto da Noruega by Bike durou 100 dias, e o Da China Para Casa By Bike já ultrapassou 1200 dias). Mas também cometo erros infantis, mesmo com toda e experiência do mundo! Fiz uma besteira!!! (Entende-se por cagada!). Pô! Quantas vezes já armei e desarmei a barraca? Onde vou conseguir repor a minha vareta, se nem loja para comprar outra barraca existe por aqui? Bom, dei uma remendada e vou seguir viagem… acho que o remendo aguenta por mais um tempo! Esse são os “imprevistos e erros” que comprovam que a experiência ajuda, mas não garante nada, e que não somos infalíveis! Mas que fiquei puto com meu erro… ahhhh se fiquei!

O que me consolou um pouco, foi ter encontrado um pobre chinês que vinha na direção contrária, se “esfarfando”, para vencer o vento. Daí pensei… poderia ser pior… boraaa!!!!!

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Jordi, o pobre chinês e eu. Saara. Marrocos.

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Jordi e eu comemorando os bons ventos. Saara. Marrocos.

A polícia e o exército nos para em todas as barreiras. São os chamados check points! Diferente de outras áreas militarizadas que atravessei, pelo menos por aqui eles não pedem para tirar tudo dos alforjes. Apenas registram dados do passaporte e fazem interrogatório sobre destino, procedência, profissão e tudo mais… No geral são amigáveis. Para chegar em Dakla, uma importante cidade situada em uma península já no sul do país, seria necessário fazer um desvio de 40 km, que ida e volta se transformariam em 80 km. Sendo assim, metade contra o vento. Então, decidimos seguir viagem até o vilarejo seguinte e de lá, pegamos um táxi coletivo para voltar e visitar a cidade. Tivemos dificuldades em achar um lugar seguro para deixar as bicicletas, mas no final tudo deu certo. Deixamos as bicicletas em um posto. No dia seguinte, depois de dar a visita em Dakla por encerrada, fomos ao mesmo ponto que o táxi nos deixou com a esperança de achar um outro, para voltar ao posto onde estavam as bikes. Acontece que o preço da corrida  triplicou, pois não havia mais ninguém para dividir os custos. Então, lembrei do policial que fez questão de deixar seu numero de telefone dizendo para eu ligar se houvesse algum problema. E ele resolveu nosso problema de maneira incrível! Foi nos buscar com a viatura policial, nos levou até o posto onde deixamos as bicicletas e ainda nos ofereceu o almoço.

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Jordi esperando nossos passaportes em um check point. Saara. Marrocos.

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De carona com os policiais. Saara. Marrocos.

Nas pequenas vilas, tive oportunidade de fazer algumas fotos mostrando a simplicidade e o cotidiano dos habitantes.

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Ciclista marroquino. Saara.

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Feira no Saara. Marrocos.

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Criança marroquina. Saara.

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Simplicidade. Saara. Marrocos.

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Típica vila de beira de estrada. Marrocos. 

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Cidade marroquina. Saara.

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Saara. Marrocos.

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Saara. Marrocos.

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Saara. Marrocos.

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Mulheres marroquinas em Dakla. Saara.

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Feira livre em Dakla. Saara. Marrocos.

Quando deixamos Dakla, nosso objetivo passou a ser alcançar a fronteira entre Marrocos e Mauritânia. E quando chegamos lá, embora soubesse que o pior trecho do Saara estava do outro lado, fiquei feliz com o nosso desempenho até agora.

Atravessar a Mauritânia em duas rodas será sem dúvida alguma, um grande desafio. As dificuldades que enfrentamos até aqui se somam a extrema pobreza, falta de saneamento básico, ainda menos pontos de apoio e todos os mistérios que um dos países mais pobres do mundo, com uma cultura completamente diferente da nossa pode oferecer.

Sobe na garupa e vamos juntos!

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A caminho da Mauritânie. Saara. Marrocos.

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O guerreiro Jordi e a estrada sendo varridos pelo vento. Saara. Marrocos