Monte Halla e a despedida da Coréia do Sul

Ainda com a sombra do terrível incidente da morte do coreano na cabeça, fiz uma dura caminhada ao cume do Hallasan ou Monte Halla, situado a 1950 m de altitude, no centro da Ilha de Jeju antes de me despedir da Coréia do Sul.

Depois de 3 dias na inércia, decidi que já era hora de deixar o episódio da morte do coreano para trás. É claro que eu ainda tinha as cenas bem vivas em minha memória, mas já não aguentava mais ficar no albergue alimentando aquelas lembranças. Precisava fazer algo, e resolvi visitar o Monte Halla, uma cratera de vulcão adormecido a mais de 1000 anos.

Meu dia começou cedo. Levantei 5:30h da manhã, com tempo chuvoso e muito frio e de táxi fui até o pé da face norte da montanha. O albergue YEHA oferece uma promoção bem legal e divide o táxi com os hóspedes. A corrida sai por pouco mais de US$ 5, e leva apenas 15 minutos. 4 vezes mais rápido que o ônibus.

Eu havia checado a condição do tempo na internet e a forte neblina no pé da montanha não batia com a previsão que era de dia  ensolarado. Quase voltei com o mesmo táxi. Mas o yr.no, o site norueguês que uso para checar a previsão do tempo desde o projeto Noruega by Bike erra muito pouco. Resolvi acreditar mais uma vez nele e lá fui eu, com muito frio.

A face norte é a rota menos escolhida para chegar ao cume. São 8,9 km e é bem íngreme e complicada, com muito gelo no caminho e o uso de crampões ou grampões torna-se obrigatória. Em alguns trechos a neve estava bem fofa e acabei afundando algumas vezes até o joelho. Meu tênis chegou a molhar bastante, mas as meias de lã de carneiro que uso para pedalar quando está muito frio conseguiram segurar a onda. Foram 4 horas bem puxadas até o pico mas o esforço compensou. Depois que ultrapassei a forte neblina o sol apareceu e deixou o visual magnífico!

Início da trilha com muita neblina e gelo. Hallasan - Jeju - Coréia do Sul.

Início da trilha com muita neblina e gelo. Hallasan – Jeju – Coréia do Sul.

Depois da espeça nebilna o sol chegou com força e deixou o visual magnífico. Trilha do Monte Halla - Jeju - Coréia do Sul.

Depois da espeça nebilna o sol chegou com força e deixou o visual magnífico. Trilha do Monte Halla – Jeju – Coréia do Sul.

Trilha para o cume do Monte Halla - Jeju - Coréia do Sul.

Trilha para o cume do Monte Halla – Jeju – Coréia do Sul.

Lindo visual na trilha do Monte Halla - Jeju - Coréia do Sul.

Lindo visual na trilha do Monte Halla – Jeju – Coréia do Sul.

Vista do cume da cratera do vulcão do Monte Halla - Jeju - Coréia do Sul.

Vista do cume da cratera do vulcão do Monte Halla – Jeju – Coréia do Sul.

A descida pela face leste foi bem mais tranquila, embora um pouco mais longa, 9,6 km, é bem menos inclinada no entanto muito mais movimentada. Levei apenas 2 horas para descer. Fiquei impressionado com a quantidade de turistas que cruzei na descida. Na base da montanha, peguei um ônibus e voltei para o albergue.

A viagem de navio durou 12 horas noite adentro. Das 19h ás 7 da manhã. Em Busam, mais uma vez tive  a ajuda de Seok, que já havia me recebido na minha primeira passagem pela cidade e as coisas ficaram bem mais fáceis. Membro do Warm Showers, Seok já havia providenciado a caixa para empacotar a bike, me ajudou no processo e foi super gentil ao se levantar 4:30h da madrugada para me levar para o aeroporto, mostrando mais uma vez a incrível hospitalidade do povo coreano.

 

Coreano Seok de frente para um delicioso prato de sashimi à moda coreana.

Coreano Seok de frente para um delicioso prato de sashimi à moda coreana.

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Algumas fotos que fiz de Seul até Busan na Coréia do Sul

Com um frio de lascar fica difícil fazer fotos. Quando se tira a luva os dedos enrijecem rapidamente e depois fica dolorido segurar no guidão. As pontas dos dedos adormecem e isso acaba me desestimulando um pouco. Outro ponto é que em algumas vezes a máquina que viaja no quadro da bike não responde muito bem ou simplesmente não funciona. O botão do zoom, por exemplo, quando acionado para aproximar a imagem não para e corre até o final. Mesmo assim, consegui alguns clicks nessa primeira etapa da viagem pela Coréia do Sul.

Ponte refletida em rio congelado - Ciclovia Seul - Busan - Coréia do Sul

Ponte refletida em rio congelado – Ciclovia Seul – Busan – Coréia do Sul

Por-do-sol na  Ciclovia Seul - Busan - Coréia do Sul

Por-do-sol na Ciclovia Seul – Busan – Coréia do Sul

Neve na floresta - Ciclovia Seul - Busan - Coréia do Sul

Neve na floresta – Ciclovia Seul – Busan – Coréia do Sul

Cascata de gelo - Ciclovia Seul - Busan - Coréia do Sul

Cascata de gelo – Ciclovia Seul – Busan – Coréia do Sul

Ciclovia Seul - Busan - Coréia do Sul

Ciclovia Seul – Busan – Coréia do Sul

Rio parcialmente congelado - Ciclovia Seul - Busan - Coréia do Sul

Rio parcialmente congelado – Ciclovia Seul – Busan – Coréia do Sul

Ciclovia Seul - Busan - Coréia do Sul

Ciclovia Seul – Busan – Coréia do Sul

Vendedora de mariscos - Mercado de peixes - Busan - Créia do Sul

Vendedora de mariscos – Mercado de peixes – Busan – Créia do Sul

Busan - Coréia do Sul

Busan – Coréia do Sul

Foto clássica da Gwangandaegyo Bridge - Busan - Coréia do Sul

Foto clássica da Gwangandaegyo Bridge – Busan – Coréia do Sul

 

Ciclovias na Coréia do Sul

Em 2012 o governo sul-coreano investiu pesado na construção de ciclovias inter municipais e busca cada vez mais incentivar a população a usar a bicicleta como forma de lazer e promoção de saúde. Oficialmente o país possui mais de 2.000 km de ciclovias pavimentadas, muito bem sinalizadas e seguras, e com boa estrutura para cicloturistas, que aumenta a cada ano.

Buscando incentivar ainda mais a prática de viajar de bicicleta, a Korea Turism Organization criou um Passaporte e distribui várias cabines de certificação pelas ciclovias. Cada cabine possui um carimbo e a cada ciclovia percorrida, uma estampa é anexada ao passaporte. Quando o passaporte é totalmente preenchido o cicloturista recebe uma medalha de honra.

Além de mapas e guias, o site: http://www.bike.go.kr, oferece todas as informações necessárias para viajar de bicicleta pela Coréia do Sul.

Ciclovia Seul - Busan - Coréia do Sul

Ciclovia Seul – Busan – Coréia do Sul

Ciclovia Seul - Busan - Coréia do Sul

Ciclovia Seul – Busan – Coréia do Sul

Ciclovia Seul - Busan - Coréia do Sul

Jovens coreanos se divertindo na Ciclovia Seul – Busan – Coréia do Sul

Disparado, essa foi a melhor ciclovia que já conheci. A maior parte do percurso é por faixas exclusivas, e quando é compartilhadas com carros, são usadas sempre estradas secundárias com pouquíssimo movimento. Placas de sinalização alertam os motoristas e também guiam os ciclistas com precisão, sem causar nenhuma dúvida do caminho a seguir. Nessa primeira etapa, pedalei por 600 km e não encontrei dificuldades em seguir o percurso. Bombas de ar para encher os pneus, áreas de descanso, água e banheiros são encontrados de tempos em tempos. Sempre margeando os rios, é praticamente plana. Foram apenas 4 montanhas de no máximo 550 m de altitude.

Bomba de ar, informações e mapas na Ciclovia Seul - Busan - Coréia do Sul

Bomba de ar, informações e mapas na Ciclovia Seul – Busan – Coréia do Sul

Mapa detalhado na Ciclovia Seul - Busan - Coréia do Sul

Mapa detalhado na Ciclovia Seul – Busan – Coréia do Sul

Ciclovia Seul - Busan - Coréia do Sul

Ciclovia Seul – Busan – Coréia do Sul

Jeff, amigo que fiz durante a viagem, orgulhoso com seu passaporte em uma das cabines de certificação na Ciclovia Seul - Busan - Coréia do Sul

Jeff, amigo que fiz durante a viagem, orgulhoso com seu passaporte em uma das cabines de certificação na Ciclovia Seul – Busan – Coréia do Sul

Jejj mostrando os carimbos de seu passaporte. Ciclovia Seul - Busan - Coréia do Sul

Jejj mostrando os carimbos de seu passaporte. Ciclovia Seul – Busan – Coréia do Sul

Placas de sinalização na Ciclovia Seul - Busan - Coréia do Sul

Placas de sinalização na Ciclovia Seul – Busan – Coréia do Sul

Definitivamente o inverno deve ser evitado. Além de pedalar com temperaturas abaixo de zero, as paisagens perdem um pouco do fascínio, já que tudo está queimado pelo gelo. Se for pedalar no inverno, o melhor é seguir de Seul para Busan, pois o vento sopra prioritariamente neste sentido nesta época do ano, no verão, a coisa inverte.

Último centro de certificação na Ciclovia Seul - Busan - Coréia do Sul

Último centro de certificação na Ciclovia Seul – Busan – Coréia do Sul

 

 

 

A incrível hospitalidade dos coreanos

Estou impressionado com a hospitalidade e solidariedade dos coreanos. A cada dia uma surpresa diferente e já posso afirmar que seu povo é o que o país tem de melhor!

Ainda em Seul conheci Jinwon Choi. Ele abriu mão do sábado com a família para me dar apoio em busca de uma bicicletaria, me levou para jantar e ainda me apresentou o Jjimjilbag, o tal SPA, super apreciado pelos coreanos. Tivemos tempo de bater um longo papo! Daqueles de amigo de longa data, sabe como é?! Parecia que nos conhecíamos a muito tempo, e com certeza fizemos uma amizade para sempre.

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Eu e Jinwon Choi em típico restaurante coreano em Seul.

 

Depois foi a vez de encontrar no final do meu primeiro dia de pedal na Coréia do Sul três garotos que me ajudaram a encontrar um Jjimjilbang. Nos encontramos na ciclovia e curiosos ao ver minha bicicleta super carregada começamos a conversar. Com um plano modesto de viajar por um dia até Yangpyonggun, lugar onde nos encontramos, os garotos ficaram empolgados com a minha história. Era domingo e o único Jjimjilbang da cidade estava fechado. Determinados em não me deixar na mão, fomos em duas igrejas que negaram a investida de me dar abrigo. Embora muito cansados, não mediram esforços em me guiar até a cidade vizinha e só se deram por satisfeito depois que a recepcionista do Jjimjilbang arrumou um lugar seguro para minha bicicleta e alforjes. Eles realmente estavam bem cansados, pois um deles não conseguiu acompanhar o nosso ritmo em uma subida e ficou aguardando seus amigos voltarem. Ficamos apenas uma hora juntos. Infelizmente não consegui gravar os nomes. Mas pela feição dos garotos acho que eles ficaram tão felizes quanto eu!

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Ajuda muito bem vinda em Yangpyonggun – Coréia do Sul.

 

No segundo dia de pedal encontrei 5 amigos na ciclovia. Quatro rapazes e uma garota que era a única que falava um pouco de inglês. Mesmo muito mais rápidos do que eu, pois viajavam apenas com uma pequena mochila nas costas, faziam questão de me esperar a cada bifurcação, mesmo eu mostrando meu GPS. Simpáticos e sorridentes, mas sobre tudo curiosos, me pagaram o almoço e pedalamos juntos até que um deles começou a sentir o joelho. Expliquei a minha pressa, pois tinha que encontrar Kim, membro do warm showers, e segui em frente, pois já estava bem atrasado e Kim me esperava em um ponto da estrada exposto ao frio. Foi uma despedida rápida, e não lembramos de trocar os telefones. Deixei o meu cartão em um centro de certificado da ciclovia, passagem obrigatória para colher um carimbo no passaporte, que totalmente carimbado, dá direito a um certificado e uma medalha de conclusão, e fiquei torcendo para eles encontrarem. Dois dias depois me ligaram. Pelo que entendi, um outro grupo achou o meu cartão e coincidentemente se encontraram em um Jjimjilbang. Vou saber detalhes desta história daqui uns dias, pois prometemos de nos reencontrar em Busan.

Eu e os garotos coreanos em uma rápida parada para lanche.

Eu e os garotos coreanos em uma rápida parada para lanche.

A minha primeira experiência com warm showers por aqui foi sensacional!

Kim Jun Young pedalou 11.000 km pelos EUA e 10 países da Europa, e fez de tudo para retribuir o carinho que recebeu por lá. Eu fui seu primeiro hóspede do warm showers e só posso dizer que estou muito agradecido pelo carinho que recebi dele e de seus pais. Dedicado em querer ajudar de todas as formas, não poupou esforços para buscar informações, me deu dicas valiosas e conseguiu depois de muito trabalho, desenhar a rota até Busan em meu GPS. Me levou para um city tour na região, e me apresentou deliciosos pratos típicos. O Sr. e a Sra. Kim, pareciam viver dentro de casa as histórias do filho durante sua dura jornada. Simpáticos, hospitaleiros e com um sorriso que deixava claro a felicidade em retribuir o carinho que o filho recebeu do outro lado do mundo. A casa dos Kims foi mais um daqueles lugares que eu fui embora querendo ficar mais.

Família Kim. Chungju - Coréia do Sul

Família Kim. Chungju – Coréia do Sul

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Kim Jun Young preparando um típico prato sul coreano.

 

Passeio na região gelada de Chungju, Coréia do Sul.

Passeio na região gelada de Chungju, Coréia do Sul.

Depois foi a vez de encontrar um trio de garotos coreanos, Jaekang, Keanha e Minbum, que também estão pedalando até Busan. Nos encontramos já perto de anoitecer e pedalamos no escuro por quase 20 km em busca de um Jjimjilbag. Nessa altura já havíamos pedalados perto de 100 km e o frio de – 3 ° C castigava bastante. Já perto do Jjimjilbang, decidimos comer em um restaurantes, aliviados com a proximidade do nosso destino. Jantamos e mesmo com dificuldade em nos comunicar, já que não falam muito bem inglês, conseguimos bater um bom papo e saber o que cada um faz. Aquele papo trivial que sempre rola no primeiro encontro. Quando chegamos ao Jjimjilbang foi como um balde de aguá fria receber a notícia de que ele fechava ás 23h. Já era 22h. Além de voltar a pedalar no frio com o corpo já frio novamente, eu sabia que teríamos de pedalar mais 28 km para encontrar o próximo Jjimjilbang, caso contrário teria que gastar uma boa grana em um dos hotéis de luxo da cidade. Enquanto eu buscava um lugar barato nos aplicativos Hoteis.com e Bookung.com sem sucesso no meu celular, meus amigos conversavam entre eles e faziam o mesmo. Minutos depois, acharam um hotelzinho e me convidaram para dividir um quarto US$ 5 mais caro que o Jjimjilbang a apenas 1.5 km. Um achado!

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Eu, Jaekang, Keanha e Minbum em Gumi Coréia do Sul. Garotada nota 10!

 

O outro lado de uma grande viagem de bicicleta

Dificuldade de comunicação, imprevistos, informações erradas e conflitantes. Existe um outro lado de uma grande viagem de bike que geralmente não é comentado, mas que faz parte do dia-a-dia, e exige muito trabalho, atenção, paciência e muita perspicácia.

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Eu não estou falando de escolher e equipar a bicicleta, montar roteiros, comprar equipamentos e roupas apropriadas, organização dos alforjes. Para tudo isso existe até manual. Eu até recomendo o manual escrito pela minha amiga do Clube de Cicloturismo do Brasil, Eliana Garcia. É um ótimo começo para quem quer se aventurar em cima de uma bike. O manual está disponível no site: wwww.clubedecicloturismo.com.br

Veja o que aconteceu comigo aqui na Coréia do Sul desde a minha chegada. E se alguém souber de um manual para isso, por favor, me avise!

Eu já ligo meu radar antes mesmo de descer do avião toda vez que chego em um país. Ainda mais quando se trata de um país como a Coréia do Sul, com um alfabeto totalmente diferente do nosso. Para mim, aqueles risquinhos chamados ideogramas parecem chinês (risos).

Tudo certo dentro do aeroporto. Passei pela imigração, encontrei minha bagagem com facilidade e lá vou eu para o lado de fora do aeroporto. Cheguei em Seul com temperatura abaixo de zero, perto das 18h. Meu plano era comprar um chip de telefone de uma operadora local e pegar um meio de transporte, de preferência o mais barato, e seguir até o hotel que havia reservado. Geralmente monto a bike no aeroporto e sigo pedalando. Mas acontece que já estava escurecendo e o meu GPS ainda não possuia o mapa da Coréia. Eu sei que vai ter uns engraçadinhos que vão pensar que eu estou “Aureliando” por causa do frio… kkkk

Fui até o centro de informações e fiquei sabendo que não poderia usar ônibus e trem, a caixa da bicicleta era grande demais. Eu sou meio insistente e tento resolver as coisas do meu jeito quando recebo uma informação que não me agrada. Meio que ignorei o que a atendente me disse e fui verificar com meus próprios olhos. Tipo São Tomé, manja?

Antes de chegar perto da catraca do metro um funcionário se aproximou e confirmou a informação. Fui correndo para a fila do ônibus que estava bem grande, ainda sem o ticket na mão, como era exigido. Só para testar… Quando me aproximei veio outro funcionário dizendo: _ Over size! Not allowed!

Tentei uma empresa de delivery e mais uma vez me disseram que a caixa era muito grande e custaria cerca de US$ 95. O mesmo preço do táxi de luxo. O táxi convencional US$ 65. Conversei com um italiano e ele topou dividir o táxi comigo, e lá fomos nós para a fila do táxi convencional. Por sorte o seu hotel era próximo do meu.

E quem disse que a caixa da bike coube no táxi? Com o tanque de gás no porta-malas, tentamos de todo jeito colocar no banco de trás. O processo demorou um bocado e o italiano não teve paciência de esperar. A caixa não cabia por pouco! Tentei de tudo quanto foi jeito! Eu já estava pensando em tirar a bike da caixa quando um motorista de táxi de luxo, comovido pela minha história de viajante de bicicleta topou me levar pelos US$ 65. Mesmo assim, tivemos que espremer a caixa no banco de trás.

No outro dia quando tirei a bike da caixa, o disco de freio estava torto e dois raios da roda traseira quebrados. Eu conseguiria desentortar o disco, mas trocar os raios não. Eu tenho raios reservas, mas não tenho a ferramenta de rosquear e muito menos o medidor de tensão. Não existe uma PEDAL POWER no centro de Seul! A bicicletaria mais próxima ficava a 8 km do hotel segunda o google. É como sair de Perdizes na minha casa em São Paulo e ir até a Vila Mariana. Os pneus da bike estavam vazios. Para voar é necessário esvaziar os pneus, e quando fui usar a minha bomba manual, ela não funcionou. Fiquei muito tempo sem usá-la. Ela fica fixada no quadro da bike tomando chuva e sol, deve ter ressecado.

Nessa altura, meu plano de visitar a cidade naquele dia, tinha ido metade por água abaixo. Fiz uma correria para encher o pneu e resolvi pedalar até a bicicletaria mais perto, que o recepcionista do hotel havia sugerido, mesmo sem aparecer no google. Já era quase 14:30h e eu ainda tinha que buscar meu passaporte e comprar a passagem para o meu próximo destino.

A bicicletaria era de fundo de quintal! Com muita dificuldade consegui me entender com o mecânico, via aplicativo tradutor do telefone. Nem mesmo sua boa vontade conseguiu resolver todos os problemas. Não havia raios para a minha bike. Usei os meus. Ele conseguiu trocar sem desmontar a roda, entortando os raios por completo para conseguir passar pelo buraquinho de fixação, para o meu total desespero, e o ajustamento de tensão foi feito com os dedos mesmo. Que aparelhinho que nada! Improviso puro! Jundos, com um alicate desentortamos o disco que quase ficou bom… Não consegui checar a vida da corrente, pois não havia o medidor e muito menos trocar as patilhas de freio traseiro. Vou ter que voltar em uma bicicletaria antes de iniciar o pedal.

Com um frio de lascar, pedalei apressado até o hotel e fui direto para a embaixada buscar meu passaporte. E onde estava meu passaporte? No meu comprovante de pagamento estava agendado para retirar dia 29/01 – 13h. O atendente procurou, procurou e nada! Eu já estava explodindo! Ele disse que havia pego meu passaporte e tudo mais. Era o único passaporte brasileiro! Ele se lembrava mas não achava de jeito nenhum! Depois de quase meia hora, com a fila já grande atrás de mim, ele achou! Estava dentro do bolso do paletó que estava pendurado no cabideiro. Ele pediu desculpas e eu saí apressado para comprar as passagem que já estavam reservadas na Korea Air Lines, sem saber como meu passaporte foi parar no bolso do paletó. Nem quis perder tempo de perguntar…

Minha senha era 89. A chamada estava no 74. Eu ainda queria visitar pelo menos o mercado que o meu amigo coreano Jae havia me sugerido e dar uma relaxada em um Jjimjilbang, uma espécie de sauna pública muito popular entres os coreanos. Eu olhava para a plaquinha e para o relógio! 33 minutos e o 89 apareceu! O atendente não falava inglês. Mas eu apertei o botão da senha que dizia: in english. Mais 5 minutos. Chegou uma bonita e simpática atendente. O processo seria rápido. Eu tinha o código de reserva. Mas definitivamente não era o meu dia. Seriam duas passagens. Uma para chegar ao meu próximo destino e outra para sair, já que o país exige uma passagem de volta. Tudo bem, beleza! A simpática atendente me disse que teria que comprar as passagens separadamente. Não entendi direito, mas ok! Passei o cartão de crédito e a primeira compra foi efetuada. Na segunda a transação não foi autorizada. Não era o meu dia! Saí de lá puto da vida e mesmo assim fui cumprir a obrigação de visitar o mercado!

Acabei beliscando alguma coisa por lá e já havia digerido a ideia de que mesmo o dia não sendo bom, eu teria uma outra chance amanhã.

O frio rachando! -6°C. Embora apertando o passo para sair do freezer, caminhei tranquilo para o hotel pensando nas obrigações que ainda teria que cumprir antes de começar a pedalar. Bicicletaria, agência de correios, Jjimjilbang, solucionar o problema da passagem, pontos turísticos, compra de provisões,  organizar alforjes, e etc, e fui organizando as prioridades na minha cabeça.

Depois de tomar um banho fui checar a minha caixa  de e-mail. Meu cartão foi bloqueado! Precisava entrar em contato com a minha operadora por telefone. Gastei mais um bom tempo para conseguir achar o número de telefone para ligação à cobrar para o Brasil. Isso porque com o chip da operadora local, o google trazia informações em ideogramas que nem mesmo o Indiana Jones conseguiria decifrar. Depois a coisa andou até relativamente bem. Até eu saber que receberia uma ligação no meu telefone de cadastro para confirmar o desbloqueio. Como assim meu telefone de cadastro? Eu não uso o número a mais de um ano. E a moça insistiu dizendo que não poderia me ligar no telefone coreano que eu estou usando.

Depois de mandar um e-mail para minha gerente fui dormir sem saber como esse problema será solucionado. A expectativa por um bom desfecho gerou uma ansiedade que não me deixava pegar no sono. E fiquei pensando: É melhor deixar para amanhã o que não deu para resolver agora!