Um difícil recomeço pós terremoto! Kathmandu – Pokhara – 208 km

Eu já estava louco para colocar a bicicleta na estrada! Só não espera que meu recomeço seria tão ruim! Cometi erros, surpresas e a falta de cuidado em alguns detalhes, combinados, resultaram nos dias mais difíceis que enfrentei em cima de uma bike. Peguei carona nos últimos 12 km até Pokhara. A essa altura, não era mais o cronograma que importava, e sim a minha saúde!

Dia 1 –  Um dia depois do segundo grande terremoto. Acordei por volta das 5h da manhã. Dormi ligeiramente mal, temendo novos tremores e com a ansiedade de cair na estrada. Com o raiar do sol já estava na periferia, em uma área bastante atingida pelos tremores. Vi muitas construções demolidas e famílias garimpando os escombros em busca de sobreviventes e pertences.

Periferia de Kathmandu -    família vasculhando os escombros de uma casa ao lado da rodovia.

Periferia de Kathmandu – família vasculhando os escombros de uma casa ao lado da rodovia.

Veio à mente as emoções que vivi durante esses dias… Angústia! Destruição, desolação e medo! Na minha cabeça, flashes da Durbar Square que conheci em 2009 se alternavam com as imagens de destruição de agora. Dois momentos marcantes na minha vida.

Um repente, e sem querer, minha mente vai buscar a lembrança de um olhar de desespero de uma mãe… o pai de família sem esperanças e parecendo não ter forças para recomeçar… a inocência de um sorriso de uma criança que ainda não consegue dimensionar a tragédia… a casa no chão… o sonho destruído… a alma ferida… o apego as divindades… O trabalho voluntário me colocou frente a frente com as verdadeiras cicatrizes que uma tragédia como essa deixa na alma das pessoas e na minha também… Sensibilizado, cheguei a colocar em xeque a minha decisão de partir neste momento. É difícil partir e deixar esse sentimento para trás. Segui o meu instinto!

... buscando consolo na fé.

l … buscando consolo na fé.

Kathmandu fica dentro de um vale que se encontra a 1400 m de altitude, ao contrário do que muitos pensam, faz calor e o ar é seco. Como todo vale tem uma borda, iniciei o pedal escalando cerca 300 metros. Subida longa, não super inclinada, mas que exigiu força o tempo todo. Depois do trabalho árduo, veio a recompensa! Um ladeirão de 30 km aproximadamente, daqueles que todos os ciclistas gostam… Visual show, pedala só na boa, leva no freio, serpenteando o vale…

Um lindo visual na saída de Kathmandu.

Um lindo visual na saída de Kathmandu.

Com o tremor do dia anterior, havia menos movimento na estrada que o esperada, no entanto, motoristas ensandecidos em frota antiga e mal cuidada, sem acostamento, buracos, ondulações, velocidade e peso da bike, exigiam cautela. Um fato bastante curioso foi perceber que a preferência na estrada é de quem vem embalado! Aqui meu irmão, buzinou, sai da frente que vem um motorista doido, aproveitando o embalo da toada que conseguiu engajar. É normal o veículo que esta sendo ultrapassado frear, assim como quem vem do outro lado, para facilitar a ultrapassagem.  Você vê cada fina, meu!!!  Tem que ficar esperto! Com outras “lógicas”, acontecem coisas que não pertencem a vivencia do nosso dia a dia. Nas estradas do Nepal, buzinou… sai da frente! Já entendi!

Olha como são a coisas… No meu post anterior, tracei um paralelo entre os riscos e a preparação necessárias para executar um grande projeto como o meu. Escrevi que a minha experiência em viajar de bicicleta, conhecimento e preparação, não me isentavam dos riscos e de cometer erros. Quem leu lembra! Pois é! Nos 208 km que separam Kathmandu e Pokhara, cometi vários pequenos erros, que associados a imprevistos, falta de atenção e algumas surpresas, me levaram a exaustão! Cheguei em Pokhara esbagaçado! Eu explico!

O descidão me levou direto para uma panela de pressão. Quando parei para comer alguma coisa, meu amigo, a temperatura perto dos 36° C, em meio a umidade da floresta temperada, me causaram a sensação que estava cozinhando… a cabeça fervendo. Quanto mais a temperatura corporal sobe, mais difícil se torna manter a performance. Nestas condições, nosso organismo sofre ajustes metabólicos e fisiológicos tentando proteger a nossa integridade física. Com a alta umidade, a transpiração, que é o principal mecanismo de resfriamento corporal reduz a sua eficácia, pois o ar úmido atrapalha a formação das gotas de suor, que quando evaporadas, reduzem drasticamente a temperatura do corpo. E isso é fatal na prática esportiva! Embalado pela deliciosa descida, cometi mais um erro, bebendo menos água do que deveria. Mais preocupado em achar um lugar seguro para comer, não dei relevância para os fatos naquele momento. Era um alerta que passou despercebido naquele momento!

No período da tarde, a estrada continuou sinuosa, porém, agora com muito sobe e desce. Eu já estava um bom tempo sem pedalar devido as consequências do terremoto, e o fato de estar mais pesado com provisões me fizeram terminar o dia bem cansado. Segundo as informações, havia muitos lugares que passavam por dificuldade de abastecimento. No caminho entre Kathmandu e Pokhara essa informação não procede. Tudo funcionando bem! O problema é encontrar um lugar que passe alguma segurança para comer. A comida exposta ao forte calor, sem proteção ou refrigeração, tornam cada refeição uma roleta russa!

Momo - Prato típico da cozinha nepalesa. Massa recheada com búfalo, frango ou vegetais que lembra o guioza, prato japonês.

Momo – Prato típico da cozinha nepalesa. Massa recheada com búfalo, frango ou vegetais  servida com molhos de diferentes especiarias que lembra o guioza, prato japonês.

Já na boca da noite, enfrentando uma dura subida, fui me aproximando de Shakti, um nepalês carregando água morro acima, para abastecer sua casa lá no alto da vila. O esforço demonstrado na face. Ele também entendeu o meu cansaço. Paramos ao mesmo tempo! Nos apresentamos e ele me explicou as dificuldades que a vila vem enfrentando. Disse que todos estão com medo, dormindo em barracas improvisadas e que algumas casas foram demolidas e outras estão condenadas, mas por sorte ninguém morreu. É o papo do cotidiano por aqui! Acabei dormindo ali!

Meu plano era comer em algum lugar durante o dia e cozinhar no jantar. Mudei! Resolvi cozinhar até ficar com a quantidade normal de suprimentos. Afinal, vou fazer uma longa parada no meio do dia e vai sobrar tempo para isso. O calor está muito forte! Essas são as adaptações e ajustes que vou fazendo em cada país até encontrar o ritmo ideal.

Durante a noite fez um calor tremendo na barraca. Acordei com a boca e a garganta secas e o corpo molhado de suor! Mais uma noite de sono ruim.

E suas irmãs. Nepal

Shakti e suas irmãs. Nepal

Dia 2 – Cai na estrada perto das 8h. Muito tarde! Eu pensando: _ Preciso ir embora, o calor vai me pegar! Mas o papo com Shakti e suas irmãs estava tão agradável que nem vi o tempo passar. Meu café da manha foi apenas um chá e alguns biscoitos.

O sol veio bruto e a temperatura atingiu 36°C! O sobe e desce não teve piedade! Em Mugling, havia chegado no fundo do vale a 250 m de altitude e agora até Pokhara teria que voltar a 850 m. A pior parte estava por vir… Não apenas pela diferença de altitude, mas principalmente devido as ondulações, acumulando quase o triplo de subida total.

Melancia em Mugling... sedento!

Melancia em Mugling… sedento!

Poderia ter ficado ali por mais tempo, mas julguei erroneamente que cumprir o cronograma seria mais importante naquele momento. Cansado, diminuía a velocidade nas descidas para  ficar mais tempo descansando e me refrescando antes da próxima ladeira. E ali fui… perrengando e progredindo como deu. E pela primeira vez em toda a minha vida, praguejei contras os Deuses, pedindo um pouco de vento… em qualquer direção! Ar morto! Batendo pesado, parecendo bafo de “beque de várzea” no cangote! Manja?

Em Anbukhaireni parei novamente, preparei uma salada de feijão, atum, azeite e cebola e comi sem o menor apetite. Descansei na rede por 2h e segui viagem, a duras penas! Pedalei mais um pouco e quase sem forças resolvi parar em uma vila logo depois de Dumre, em meio a outra subida íngreme. Senti eminência de câimbras ao desmontar da bicicleta.

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Acampamento perto de Dumre – Nepal

 

Uma crosta seca na minha testa e na minha roupa me revelaram a quantidade de sal e consequentemente de água que havia perdido. Ali que a minha ficha caiu. Forte calor, umidade, desidratação, noites mal dormidas, carregando mais peso, dias parados, stress com o terremoto, alimentação com baixo teor nutricional. Além do mais, forcei um pouco o ritmo para tentar cumprir o cronograma. Esses fatores somados foram me definhando… Para piorar, eminências de câimbras surgiam em todas as partes do meu corpo. Principalmente pés, mão e costelas. Minha vista embaçava de vez em quando, ligeira dor de cabeça, um leve zumbido no ouvido. Naquele momento nem mesmo as crianças que sempre me cercam conseguiram me animar. Pedi licença, fechei o zíper da barraca e deitei para descansar.

A primeira meia hora na barraca serviu para eu mentalizar os procedimentos que deveriam ser tomados. Comecei um processo de hidratação eficiente bebendo água devagar e constantemente. Logo escureceu, e com isso as crianças se foram. Pude preparar um macarrão com atum que comi mais uma vez sem vontade. Fiz um alongamento leve! Já houve dias muitos mais intensos nas minhas viagens, mas nunca me senti tão cansado em toda a minha vida. Não conhecia esse tipo de fadiga.

A última vez que olhei o relógio já se passava da meia noite e meia. Reservei um hotel em Pokhara apostando que levantaria melhor. Estava dolorido e com calor. Meu relógio despertou as 4h. Definitivamente, evitar o meio do dia passou a ser prioridade. Comi o resto do macarrão que sobrou, mais uma vez sem apetite e com tudo pronto caí na estrada. Me sentia melhor, mas ainda cansado.

Dia 3 – Estava a 70 km de Pokhara. O terceiro dia começou com uma longa subida de 7 km. Em 4 horas e meio de pedal alcancei a metade do caminho. Só consegui comer 3 bananas. Armei a minha rede debaixo de um toldo de zinco, estacionei minha bike ao lado e descansei. Dormi pesado cerca de 3 horas. Quando acordei me senti fervendo novamente. O sol havia contornado as árvores e agora castigava o zinco. Acordei dentro de um forno e não sei por quanto tempo fiquei ali. Me senti fraco! Outra vez a cabeça transpirando muito! Para ficar em frente de um ventilador, arrisquei comer em um pequeno restaurante. De novo sem o menor apetite!

Rio Trisuli serpenteando as montanhas do Nepal

Rio Trisuli serpenteando as montanhas do Nepal

O fato de ter reservado o hotel me forçava a seguir em frente. Fui definhando, passando a ficar cada vez mais complicado progredir. Fiz inúmeras paradas! Difícil manter a concentração.  O GPS mostrava apenas 11,76 km do hotel. Era pouco! Mas para mim deu! Nas condições que eu me encontrava, aquela distância representaria pelo menos uma hora e meia de pedal. Cheguei mais longe que os limites que normalmente estabeleço. Tive alguns sinais de câimbras novamente, e a vista tornou a ficar embaçada. A minha preocupação agora passava ser a minha saúde. E as minhas opções eram: Ou eu monto a barraca aqui em qualquer lugar e arrisco mais uma noite de sono, ou dou um jeito de chegar a Pokhara.

A primeira camionete vazia que passou, parou! Um casal. Me deixaram na porta do hotel! Fiz check-in, tomei um banho, organizei as prioridades. Era preciso descansar, hidratar e nutrir meu corpo. Afinal, o verão se aproxima, podendo piorar as coisas.

Falta de informações confiáveis, pequenos erros, surpresas, menosprezo de alguns sinais e detalhes. Acabo de completar um ano e meio de viagem, e já vivenciei muitas dessas situações de forma isoladas sem grandes danos. Contudo, desta fez, a combinação foi me minando, traiçoeira, aproveitando os meus descuidos, me colocando frente a frente com os meus piores dias na estrada se tratando de rendimento e fadiga. Talvez, o lance dos terremotos associado a minha auto-confiança, tenham trazido um relaxamento natural me fazendo perder um pouco o foco. Às vezes sinto-me tão seguro que momentos como esse são críticos para me colocar de volta a realidade.  Tudo para me manter sempre alerta, e me lembrar que estou longe de ser de ferro! Sigam na garupa!

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O risco é proporcional a intensidade que você escolhe viver!

Eu fico com a pureza da resposta das crianças... É a vida, é bonita e é bonita!

Eu fico com a pureza da resposta das crianças… É a vida, é bonita e é bonita!

Esse foi o momento mais difícil da minha grande aventura de viajar de bicicleta mundo afora. Por um instante passou pela minha cabeça: _ Vou morrer e não vai dar para fazer nada! Ironicamente, a minha bicicleta estava desmontada e protegida ainda dentro da caixa.

Eu sou responsável, reconheço e assumo o risco de uma grande aventura como a minha! Tudo pode acontecer… Posso errar, uma fatalidade ou tragédia pode ocorrer… Mas também pode ocorrer terremoto na Califórnia! Tsunami no Japão! Ataque terrorista em Paris! Avião cair, bala perdida no Rio! Assalto seguido de morte em São Paulo! Carro desgovernado, briga de torcida… descarga elétrica amigo! Botijão de gás! Dá um treco, e de uma hora para outra você “viaja” antes do combinado! Está certo que o meu risco é maior do que a maioria das pessoas… evidente… mais o risco é proporcional a intensidade que você vive… e eu estou seguro, pelo menos no momento atual da minha vida, que estou vivendo na intensidade que escolhi. E cada um escolhe a sua… na boa, a intensidade muda de acordo com a fase que você está.

Como disse em outra ocasião, acredito ser lúcido o suficiente para gerenciar os riscos da melhor maneira possível! Não caí nessa aventura de paraquedas! Tenho conhecimento em preparação física e minha profissão exige no mínimo um conhecimento básico sobre nutrição. Tenho treinamento de primeiros socorros (embora sei que em muitos casos não consigo aplicar em mim, mas consigo estabelecer prioridades em situações de apuro), estudei os sintomas das doenças mais comuns em que estou mais vulnerável, trago medicamentos com bulas, tenho contato direto com meu amigo e médico André Moro, que está sempre esperto e disposto a ajudar, tenho seguro de saúde. Tomei todos os tipos de vacinas disponíveis no Brasil antes de viajar, estudo sempre que possível as previsões do tempo e vento, tenho pílulas para purificar água. Consigo solucionar boa parte dos problemas que a bicicleta pode apresentar… carrego comida… faço pesquisas na internet para saber tudo que julgo necessário… só para citar alguns exemplos! O risco existe! Mas eu trabalho forte para minimizá-lo! Esse é a função de um bom aventureiro!  Não é porra-louquice! Eu não gosto de falar muito de mim, e os mais próximos sabem muito bem disso, e pode até parecer que estou dando uma de bom e que nada vai acontecer… não é nada disso! Só estou dizendo que coloco muita energia no que estou fazendo! É o papel de todo bom advogado, médico, engenheiro, professor e etc! De aventureiro também! É trabalho! Um trabalho que faço com TESÃO!

Quanto a viajar de bicicleta, fico melhor cada dia que passa! E também é assim com médico, advogado, engenheiro e professor…  O dia-a-dia oferece uma gama de acontecimentos que somados, muitas vezes, tornam as tomadas de decisões mais claras e seguras e as tarefas cada vez mais fáceis de serem executadas. Isso é experiência! Não cai do céu! Já pedalei em muitos lugares inóspitos, e já faz um bocado de tempo que estou na estrada… Tenho consciência  que essa experiência não me assegura nada! Erros, distrações, cansaço, tragédias, acidentes! Pode acontecer com qualquer um em qualquer lugar! Não estou certo se morar nas grandes cidades brasileiras como São Paulo e Rio de Janeiro é mais seguro do que viajar de bicicleta, por exemplo! Eu não quero dramatizar o assunto! Na grande maioria dos casos eu me sinto mais seguro na estrada. Uma estrada ou outra é mais perigosa, mas geralmente escolho o trajeto mais tranquilo.

Outro dia uma amiga perguntou se tenho medo? É claro que sim! No entanto, respondi, quanto mais me sinto preparado, mais seguro eu me sinto para enfrentá-lo! A experiência e o conhecimento nos alimenta de coragem, que somados ao tamanho do seu desejo, não há medo que te segura! Com tudo isso, a cada dia que passa, além de estar cada vez mais perto de casa, me sinto mais preparado!

A minha missão de voluntário neste triste episódio chegou ao fim! Fiz o que pude e estou muito satisfeito com o que fiz. Ajudar fez bem para mim! A sorte de sair vivo dessa tragédia, e a oportunidade de ajudar esse povo que muito admiro, foi uma grande experiência de vida que contribuiu para muitos aprendizados , mas que sobre tudo, me fez ainda mais humano!

Obrigado pelo apoio de todos os que participaram do vídeo ou de qualquer outro tipo de manifestação, desde um “curtir” no face, um comentário no blog, ou até mesmo mandando energias positivas em pensamento! Realmente fiquei feliz e emocionado e com a renovação de uma certeza que já tinha:  Sim, vou seguir em frente!  Agora, mais forte do que nunca!

Crianças me saudando com um NAMASTÊ - O ser que habita meu coração saúda o ser que habita o seu coração

Crianças me saudando com um NAMASTÊ – O ser que habita meu coração saúda o ser que habita o seu coração

Pela segunda vez o Nepal marca a minha vida!

Trek ao acampamento base do Everest - 2011

Trek ao acampamento base do Everest – 2011

A primeira foi em 2009, quando fiz a caminhada ao Acampamento Base do Everest. Uma viagem de aventura que pelas dificuldades, é inevitável fazer uma análise interior. Nesta viagem, encontrei algumas respostas e no pé da montanha mais alta do mundo decidi buscar um novo estilo de vida, que realmente fizesse sentido e completasse as minhas ambições. Além de ser um dos lugares mais lindos que já visitei, hindus, budistas e muçulmanos, convivem em harmonia, tramando uma diversidade cultural e religiosa enraizadas na realidade do dia a dia, com crenças muito diferentes das nossas, fazendo do Nepal um lugar que ao mesmo tempo choca e deslumbra. Apesar dos diferentes grupos étnicos, os nepaleses se caracterizam pelo sorriso puro e simpatia, tornando Kathmandu a capital mundial do sorriso, mesmo sendo um dos lugares mais pobres do planeta. Eu conheço algumas pessoas que já visitaram o Nepal e todos são unânimes em afirmar que de alguma maneira, mudaram sua forma de pensar e ver a vida.

Não foi diferente comigo!

“O vídeo acima mostra mulher tomando banho nas águas do rio Bagmati, um rio considerado sagrado por hindus e budistas, no Templo de Pashupatinath ( Templo das cremações).
A imagem choca, pois o rio recebe todo o esgoto da região sem nenhum tratamento, deixando sua água com forte odor e aparência péssima.
Pashupati significa “o senhor e protetor de todos os seres vivos” e aqui seria o lugar em que Shiva teria repousado.”

Do Nepal, voltei com a ideia de planejar uma grande viagem de bike, um sonho guardado na gaveta, onde criei o conceito de juntar meus hobbies em um grande desafio: viagem de aventura, gastronomia, fotografia e busca por novas culturas. E assim nasceu o Projeto Noruega by Bike, finalizado com o lançamento do livro em agosto de 2011, e já no mês seguinte, eu já estava trabalhando em um novo projeto chamado Ásia by Bike, que foi renomeado de Da China para Casa by Bike, responsável pelo meu retorno ao Nepal. (Saiba mais sobre o livro Noruega by Bike)

Bairro de Thamel - Kathmandu - Nepal

Bairro de Thamel – Kathmandu – Nepal

As diferentes etnias do Nepal... um só sentimento...

As diferentes etnias do Nepal… um só sentimento…

Cheguei em Kathmandu na véspera da tragédia em um cansativo voo noturno com escala em Seul, vindo de Ulan Bataar, capital da Mongólia. Estava empolgado! Afinal, voltava ao lugar onde tudo começou, com a expectativa de fazer um novo trek nas montanhas do Himalaia e seguir viagem pedalando pelo interior, até cruzar a divisa com a Índia (Banbasa), no extremo oeste do país. A longa espera na fila da imigração e a confusão na esteira de bagagens me traziam uma paz difícil de explicar. Todos muito contrariados e aflitos com a confusão de sempre no aeroporto, e eu, parecendo estar em outra dimensão, feliz por viver aquele caos novamente. Sabia que de alguma forma, tudo iria dar certo!

Cansado e ainda sem um mapa da região, coloquei a caixa da bicicleta no pequeno táxi e segui para o bairro de Dilli Bazar, cerca de 2,5 km do Thamel (lugar mais atingido pelo terremoto, o bairro central da cidade, onde ficam a maioria dos turistas e as maiores atrações culturais e históricas de Kathmandu). Consegui hospedagem na casa de um professor norte-americano via warmshowers, caso contrário, muito provavelmente, estaria no Thamel na hora do desastre. A casa de Dhane Blue fica entre um emaranhado de vielas onde não há espaço para os carros, com postes improvisados, fios emaranhados, lixo espalhados nos terrenos baldios e chão de pedras soltas e barro. Enquanto adentrava ao bairro carregando a caixa da bicicleta, logo associei o lugar as favelas do Brasil.

Dhane Blue e Suva momentos depois do terremoto atravessando os escombros - Vielas do Bairro de Dilli Bazar, Kathmandu - Nepal

Dhane Blue e Suva momentos depois do terremoto atravessando os escombros – Vielas do Bairro de Dilli Bazar, Kathmandu – Nepal

A casa onde estou é relativamente segura. Não sofreu nenhuma rachadura com os tremores. A casa não possui geladeira, vaso sanitário, e a água sai marrom das torneiras, mas considero que pelos padrões da Kathmandu, estou bem instalado.

Na casa também moram dois garotos locais. Suva de 18 anos, que divide o quarto comigo e Karun de 13. Professor e aluno respectivamente da mesmo escola em que Dhane Blue leciona.

Conversava com Suva sobre fotografia. O garoto muito interessado, gosta de trabalhar com photoshop, e fazíamos um plano para fotografar a cidade nos próximos dias quando o chão tremeu levemente, ao mesmo tempo em que a energia foi cortada. Frações de segundos depois, veio o grande tremor…

Eu demorei um pouco a perceber o que estava rolando… ele, rapidamente se levantou e me arrastou correndo para fora de casa. Enquanto atravessávamos o quarto, o tremor foi aumentando, chacoalhando tudo, fazendo um barulho danado! Os utensílios de cozinha foram ao chão, os vidros das janelas á um triz de se quebrarem… a estrutura do prédio balançou, acompanhando o chão que nos fez esbarrar nas paredes e batentes enquanto o medo e o desespero foi aumentando… O que é isso? Ataque terrorista? _ Earthquake man! _ Earthquake man! Gritava Suva, sem largar a manga da minha camiseta.

Dhane Blue conseguiu sair da casa alguns poucos segundos depois. Desorientados e com medo, seguimos em direções contrárias no instante em que outro tremor, ainda maior aconteceu. Um muro desabou, fazendo Blue retornar para a nossa direção. Pude ver seu semblante apavorado surgindo em meio ao poeirão que o cobriu por completo. Fomos ao chão por duas ou três vezes! Hora o chão nos jogava para um lado, hora para outro. Por sorte, no momentos em que caímos por cima de uma cerca de bambu de uma pequena horta, o muro do terceiro andar de uma casa veio abaixo, inteiro, se espatifando a menos de 3 metros das nossas cabeças. Pude sentir os estilhaços me atingindo… enquanto que desta vez, éramos nós que estávamos sendo encobertos pela poeira… ainda com o chão tremendo. Se caíssemos para o outro lado como no instante anterior, seríamos atingidos em cheio! Nos sentamos e nos seguramos uns aos outros… O barulho oco do muro se espatifando no chão parecia não sair da minha cabeça!

Quando tudo parecia mais calmo, corremos ao pátio aberto de um colégio e aos poucos a população foi chegando também… Todos muito assutados… Minutos depois, outro tremor de menor escala, mas suficiente para nos levar ao chão! Uma agonia! Mães com as crianças no colo, família e amigos se abraçavam na tentativa de confortarem uns aos outros. Rostos pálidos de medo! Os tremores se seguiram por horas, variando a intensidade e a cada tremor gritaria e apreensão.

Família abraçada buscando consolo enquanto alguns tentam contato com celulares. Pátio da escola momentos depois do terremoto - Kathmandu - Nepal

Família abraçada buscando consolo enquanto alguns tentam contato com celulares. Pátio da escola momentos depois do terremoto – Kathmandu – Nepal

Família em oração. Pátio da escola momentos depois do terremoto em Kathmandu, Nepal

Família em oração. Pátio da escola momentos depois do terremoto em Kathmandu, Nepal

Cerca de 15 minutos depois do grande tremor, mandei uma mensagem de texto para a minha família contando do terremoto e que estava tudo bem comigo. Depois o sistema 3G entrou em colapso e a comunicação passou a ser um desafio. Para piorar, sem energia elétrica, não tínhamos como recarregar as baterias dos celulares, computares e tudo mais.

O terremoto ocorreu ás 11:56h. Por volta das 16h, com tudo mais calmo, resolvi seguir para o centro da cidade, ainda sem saber a verdadeira dimensão da tragédia. Não tínhamos acesso a notícias, e as poucas informações que chegavam eram conflitantes vindas de pessoas que voltavam da rua. “Muitas pessoas mortas.” “Terremoto de magnitude 7.8.” “Quase ninguém morreu em Kathmandu, o problema foi no interior.” “Muita gente morreu em Kathmandu.” “O terremoto foi de 5,8 de magnitude.” “Caiu a torre da cidade.” “Vai faltar água e energia por uma semana.” “Vamos ter que dormir aqui no pátio do colégio.” “Dizem que o Thamel foi devastado.” “Vai ter mais terremoto a qualquer momento.” Foi assim que as informações foram chegando até mim… dependo do lugar que a pessoa estava voltando ela contava uma história diferente. Estava ansioso, curioso e aflito para saber a verdade.

Suva foi comigo. As informações que ele me dava não condizia com a realidade que eu estava encontrando. Milhares de pessoas mortas, prédios destruídos, muita confusão na cidade. Eu não via nada daquilo! O bairro de Dilli Bazar estava estranhamente desabitado e não mostrava nenhuma evidência de um terremoto devastador. Um muro ou outro destruído era tudo que vimos por ali. O fato de ter poucas pessoas nas ruas, era a única coisa que destoava da Kathmandu que eu conhecia até então. Aqui, há sempre muita gente nas ruas!

Um dos poucos locais destruído no Bairo de Dilli Bazar após terremoto em Kathmandu, Nepal

Um dos poucos locais destruído no Bairo de Dilli Bazar após terremoto em Kathmandu, Nepal

No entanto, o panorama foi mudando á medida que nos aproximávamos da Durbar Square, a praça mais famosa de Kathmandu, com vários templos e prédios históricos.  Cruzamos uma praça já tomada por barracas e tendas improvisadas com muitas famílias desabrigadas. Aglomerações de pessoas, ruas bloqueadas, caminhões do exército, policiais apitando e gesticulando tentando impor a ordem, ambulâncias em alta velocidade, gente correndo para lá e para cá… e ali, diante daquele caos, pela primeira vez, caiu a ficha de que aquele povo que esbanja sorriso e simpatia sustentava agora um semblante triste, amargo, desiludido.  Percebi que os maiores patrimônios dos nepaleses, o sorriso e o conjunto arquitetônico da Durbar Square, haviam desaparecido… Eu começava a entender o tamanho da tragédia.

Nepaleses atônitos após terremoto em Kathmandu, Nepal.

Nepaleses atônitos após terremoto em Kathmandu, Nepal.

Meus pensamentos, em devaneios, misturavam as emoções e lembranças que tinha daquela magnífica praça de anos atrás, com os templos completamente destruídos bem à minha frente. Uma lágrima rolou. Fui tomado por um vazio inexplicável. Do chão, olhava para o alto dos destroços do templo que em 2009 passei horas sentado, admirando o visual… me vendo lá em cima… Naquele dia, havia acabado de voltar do trek do Everest decidido a encarar a vida de uma maneira diferente… cheio de autoestima, entusiasmo e coragem… Entre uma foto e outra, meus pensamentos buscavam encontrar a melhor direção a ser seguida. Nunca vou me esquecer daquele dia!

Durbar Square - Kathmandu - Nepal

Durbar Square – Kathmandu – Nepal

Templo que resistiu ao terremoto na Durbar Square, Kathmandu, nepal.

Templo que resistiu ao terremoto na Durbar Square, Kathmandu, nepal.

No caminho de volta para o colégio me sentia deprimido, sem vontade de conversar. A terra continuou tremendo durante toda a madrugada. Por volta das 5:35h da manhã um tremor com mais intensidade deixou todos apavorados novamente. Eu não mais sentia medo! Sentia tristeza! Angústia! E esse sentimento se transformou em vontade de ajudar de alguma forma. Ficamos sem energia por 36h. Uma boa surpresa em meio ao caos. Todos apostavam em muito mais tempo sem energia. O Thamel por exemplo, só teve a energia restabelecida depois de 7 dias. Só então as notícias chegaram com mais precisão.

Muitos me perguntam sobre como foi o resgate das pessoas em meio aos escombros e se vi muita gente morta. Não! Eu não me sinto capaz de entrar em prédios condenados com segurança. Não tenho treinamento para isso! Vi alguns corpos ocasionalmente e muitos feridos. Me voluntariei fazendo um trabalho de profilaxia, contenção de epidemias e conscientização, espalhando bactericida em acampamentos de desabrigados e lugares com grande número de pessoas, explicando a importância de manter o lugar limpo. Foram 3 dias até que o nosso suprimento acabou. Depois, ajudei na distribuição de água e alimentos, carregando caminhões; na limpeza e desinfecção de áreas de emergência de dois hospitais; e na remoção de escombros na Durbar Square.

Prédio demolido pelo terremoto em Kathmandu, Nepal.

Prédio demolido pelo terremoto em Kathmandu, Nepal.

Dois dias atrás adoeci. Dor de cabeça, leve diarreia, e um pouco de febre durante a noite me fizeram pensar em cólera. No manhã seguinte, já sem diarreia, arrotos com cheiro de enxofre, ou ovo podre, me sugeriram giardia. Tomei medicamento e me hidratei. Também achei melhor não sair de casa e me resguardar, interrompendo por um tempo o trabalho voluntário. Afinal, estou em viagem de bicicleta e sei da importância de manter minha saúde em dia. Hoje já me sinto 100% e fiz apenas uma caminhada até o Thamel, que parece voltar ao normal. Agora apenas poucas lojas em prédios condenados estão fechados.

Embora ainda não tenho uma data específica para deixar Kathmandu, amanhã começo meus preparativos para iniciar o pedal. Pela manhã, com a promessa de reabertura da Embaixada da Índia, vou aplicar meu visto que pode demorar de 4 a 10 dias. Também aguardo um par de pneus que comprei pela internet vindos da Alemanha. Nesse meio tempo, pretendo continuar ajudando como voluntário. Ainda tenho que tirar a bike da caixa e montá-la, comprar gás para meu fogareiro de cozinha, repelente, protetor solar e preparar meu estoque de água e comida.

Infelizmente o governo fechou todos os treks do país, e ainda não tem uma data de reabertura. Também estou levando em consideração encurtar a rota no Nepal, entrando antes do previsto na Índia. É uma decisão que vou tomar de acordo com os fatos. Dizem que o abastecimento de água e comida em alguns lugares está muita abaixo das necessidades.

A cidade está coberta por uma nuvem de poeira. Com problemas na coleta de lixo e a falta de saneamento básico, o mau cheiro prolifera em algumas áreas. O calor e ar extremamente seco, deixa garganta, olhos e nariz irritados ou ressecados. Vez ou outra o chão ainda treme por aqui! Com mais frequência, sentimos um pouco de ondulações, como marolas passando por um barquinho. Bem de leve!

Quis o lado bruto do destino, que o Nepal marcasse mais uma vez a minha vida. Certamente, nunca vou esquecer essa experiência!

Para os nepaleses, fica meu sentimento de tristeza e solidariedade, e a esperança que esse povo forte e tão amável, de sorriso puro e cativante, encontre forças para se reerguer e superar um dos momentos mais difíceis da sua história recente.

Para mim, que estou vivendo a maior aventura da minha vida, vivenciar uma tragédia de tamanha dimensão, e consequentemente o maior risco de morte que já passei, ironicamente com a minha bicicleta dentro de uma caixa, me traz à lembrança uma frase que meu velho pai sempre diz: _ Para morrer, basta estar vivo!

E isso fortalece o meu conceito daquilo que eu sempre digo: _ Aproveite a vida!

ONE LIFE, ONE CHANCE!

NAMASTÊ!

 

 

 

 

 

 

Pela minha lente: Pós terremoto em Kathmandu – Nepal

Olá pessoal,

A tensão causada pelo terremoto e a expectativa de novos tremores, associadas ao trabalho voluntário e 3 noites sem dormir me deixaram exausto. Por isso, ao invés de escrever, vou deixar as fotos falarem por mim.

Muito obrigado pelas mensagem de carinho e apoio que venho recebendo pelas redes sociais. Isso é um fator motivacional super importante para eu seguir ajudando por aqui e para continuar a minha aventura com o Projeto da China para Casa by Bike. Eu tenho acompanhado um pouco de como tudo repercutiu no Brasil, e devido a isso, recebi vários convites de amigos no facebook. Para você que está chegando agora, seja bem vindo, e junte-se aos velhos amigos sendo um seguidor do Projeto da China para Casa by Bike!

 

Será um prazer ter você na minha garupa!

Terremoto em Khatmandu - Nepal

Terremoto em Khatmandu – Nepal

Mulher desolada em frente a casa demolida por terremoto em Kathmandu - Nepal

Mulher desolada em frente a casa demolida por terremoto em Kathmandu – Nepal

Desolação estampada no rosto da nepalesa após terremoto em Kathmandu - Nepal

Desolação estampada no rosto da nepalesa após terremoto em Kathmandu – Nepal

População em busca de informações após terremoto em Kathmandu, Nepal

População em busca de informações após terremoto em Kathmandu, Nepal

Esse foi o pedaço do muro que desabou bem próximo da mim durante o terremoto em Kathmandu, Nepal.

Esse foi o pedaço do muro que desabou bem próximo da mim durante o terremoto em Kathmandu, Nepal.

Carro atingido por desmoramento durante o terremoto em Kayhmandu, Nepal

Carro atingido por desmoramento durante o terremoto em Kayhmandu, Nepal

Desolação - Khatmandu - Nepal

Desolação – Khatmandu – Nepal

Casa atingida pelo terremoto em Kathmandu, Nepal

Casa atingida pelo terremoto em Kathmandu, Nepal

Prédios condenados depois de atingidos por terremoto em Kathmandu, Nepal.

Prédios condenados depois de atingidos por terremoto em Kathmandu, Nepal.

Casa atingida pelo terremoto em Kathmandu, Nepal

Casa atingida pelo terremoto em Kathmandu, Nepal

Ruínas da Torre Dharahara, 62m de altura, que foi ao chão atingida pelo terremoto em Kathmandu - Nepal

Ruínas da Torre Dharahara, 62m de altura, que foi ao chão atingida pelo terremoto em Kathmandu – Nepal

Muro condenado após terremoto em Kathmandu - Nepal

Muro condenado após terremoto em Kathmandu – Nepal

Equipe de busca entre as ruínas na Durbar Square após terremoto em Kathmandu - Nepal

Equipe de busca entre as ruínas na Durbar Square após terremoto em Kathmandu – Nepal

Famílias acampadas ao lado das ruínas na Durbar Square após terremoto em Kathmandu - Npal

Famílias acampadas ao lado das ruínas na Durbar Square após terremoto em Kathmandu – Npal

Lixo se acumulando nas ruas de Kathmandu após terremoto - Nepal

Lixo se acumulando nas ruas de Kathmandu após terremoto – Nepal

Cozinha emprovissada em acampamento de desabrigados após terremoto em Kathmandu - Nepal

Cozinha emprovissada em acampamento de desabrigados após terremoto em Kathmandu – Nepal

População sendo abastecida com água potável após terremoto em Kathmandu - Nepal

População sendo abastecida com água potável após terremoto em Kathmandu – Nepal

Acampamento de desabrigados após terremoto em Kathmandu, Nepal.

Acampamento de desabrigados após terremoto em Kathmandu, Nepal.

A falta de saneamento básico na cidade preocupa as autoridades do Nepal.

A falta de saneamento básico na cidade preocupa as autoridades do Nepal.

Trabalho de profilaxia e controle de pragas em acampamento de desabrigados. Kathmandu após terremoto - Kathmandu - Nepal

Trabalho de profilaxia e controle de pragas em acampamento de desabrigados. Kathmandu após terremoto – Kathmandu – Nepal

Trabalho voluntário de conscientização e controle de pragas em Kathmandu - Nepal

Trabalho voluntário de conscientização e controle de pragas em Kathmandu – Nepal

Menina segura uma garrafa de água em acampamento de desabrigados em Kathmandu - Nepal

Menina segura uma garrafa de água em acampamento de desabrigados em Kathmandu – Nepal

Ruínas após terremoto em Kathmandu Nepal - Durbar Square - maior patrimônio histórico e cultural do país.

Ruínas após terremoto em Kathmandu Nepal – Durbar Square – maior patrimônio histórico e cultural do país.