Cairo e as Pirâmides do Egito

Desde o momento em que fui impedido de pedalar no Egito devido aos riscos de me tornar alvo de ataques terroristas, deixei de ser cicloturista para me tornar um turista convencional. Não queria de forma alguma deixar de ver o que havia planejado em minha viagem ao Egito. Assim, tive que apelar para transporte públicos, táxi, ônibus intermunicipal, albergues e tudo o mais, indo parar direto nas mãos da extorsiva industria do turismo, e meu custo de vida (ou melhor, de viagem) aumentou bastante!

Depois de ser bloqueado na estrada, retornei ao hotel e analisei friamente a situação. Minha vontade era de tentar furar o bloqueio e seguir viagem. Estava com raiva! Nada que havia visto até então no país refletia a preocupação exagerada dos policiais. Mas na verdade nunca sabemos onde está o perigo nesta situação! Bom… decidi comprar uma passagem de ônibus até o Cairo…

A viagem foi péssima! A única coisa que me confortava era que a bike estava muito bem acomodada no bagageiro. Cheguei ao Cairo quase 5 da manhã. Pouco depois, Mr. Wael apareceu para me pegar e me levar para sua casa. Fascinado com a minha viagem de bike, resolveu aceitar o convite feito pelo pessoal que conheci em Sharm el´Sheikh.

A identificação foi imediata e com certeza Sr. Wael é mais um amigo que fiz para a vida toda! Me trouxe para dentro de sua casa mesmo sofrendo reformas, me apresentou sua esposa, filho e sogra, me levou para passear, organizou os passeios, me introduziu a gastronomia local e ainda ajudou a organizar a minha saída do Egito. Aliás, esse foi um assunto complicado!

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Eu e o Sr. Wael em seu restaurante favorito em Alexandria. Egito.

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Alexandria, Egito.

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Alexandria, Egito.

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Alexandria, Egito.

Sem ter como sair do país de navio, como era a minha ideia inicial, tratei de fazer toda aquela correria de sempre quando tenho que voar. E ainda tive que decidir o próximo destino de acordo com os preços das passagens. E garanto que o lugar para onde estou indo vai te surpreender! Passagens, política de bagagem, preço, caixa para a bike, transporte até o aeroporto e tudo o mais… Enquanto me divertia com os passeios organizados pelo Sr. Wael, nos bastidores ele ia deixando tudo pronto ou engatilhado! Ele foi uma mão na roda! Tks Mr. Wael!

Sr. Wael tirou uns dias de folga para ser meu guia. Foi a maneira que encontrou para diminuir a minha frustração de não poder pedalar. Senti que ele também estava triste! Fizemos um day tour em Ismaília, no canal de Suez e Alexandria, já nas margens do mar Mediterrâneo.

Alexandria foi fundada por Alexandre, “O Grande” em 331 a.C., tornando-se uma das cidades mais importantes do mundo. Foi capital do Egito por mais de 1000 anos, até a chegada dos muçulmanos que transferiram a capital para Fustat e depois Cairo. Foi um passeio rápido, e o ponto alto foi conhecer um dos restaurantes favoritos do Sr. Wael, onde abusamos dos frutos do mar.

Em Ismaília, a cereja do bolo foi jantar em uma fazenda de piscicultura em meio aos beduínos. A cidade é o centro administrativo do Canal De Suez.

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Jantar com beduínos em Ismaília. Egito.

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Jantar com beduínos em Ismaília. Egito.

As Pirâmides e o Museu Nacional, foram as duas atrações mais marcantes da minha primeira visita ao Cairo, e era essa a minha prioridade. E também tive tempo de me perder pelo centro da Capital, e relembrar a atmosfera dessa frenética cidade.

Olha só! Vamos combinar… Eu estou na correria no meu último dia de Egito e todo mundo já sabe a história das Pirâmides, não é verdade? Quéops, Quéfren e Miquerinos… estrutura mais antiga e uma das sete maravilhas do mundo antigo… 2600 a.C…. 140 metros de altura… túmulos dos faraós… A única coisa que gostaria de acrescentar é que desde quando decidi dar a volta ao mundo de bike, voltar nas pirâmides passou a ser um grande objetivo! Eu piro com elas!!!!

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A Esfinge de Gizé guardada pelas pirâmides. Cairo, Egito.

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Esfinge de Gizé e a pirâmide de Quéfren. Cairo, Egito.

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Pirâmide de Miquerinos. Cairo, Egito.

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A múmia no Egito!

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Quéops e Miquerinos. Cairo, Egito.

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Quéops, a maior das pirâmides. Cairo, Egito.

Quando visitei o Museu Nacional do Cairo pela primeira vez fiquei muito impressionado. Primeiro pelo seu incrível acervo de 120 mil peças, que tem como principal destaque a mascara Mortuária de Tutankhamon (1324 a.C.), um dos faraós mais famosos do Egito que morreu ainda na adolescência. Tutankhamon casou aos 8 anos com sua meia irmã, assumiu o reinado com 9 e morreu 10 anos depois sem herdeiros. Com um reinado curto, seu túmulo é relativamente simples se comparado a outros faraós, no entanto é o mais fascinante de todos! Ao ser descoberto em 1922, além de muitas peças de tecidos, textos sagrados, armas e roupas, seu processo de mumificação revelou uma máscara maciça feita em ouro e adornada por pedras preciosas. Thutankhamon é considerado um dos maiores tesouros da humanidade. Infelizmente não é permitido fotografar.

O outro ponto que me chamou atenção naquela época foi a incrível desorganização e falta de cuidado com o acervo. Em 1997, vi peças amontoadas, pessoas subindo nas estátuas para tirar fotos, visitantes manuseando o acervo, sujeira. Agora tudo está mais organizado e limpo. Valeu a pena voltar!

A primeira foto a esquerda é de Tutankhamon (arquivo internet), as outras são minhas.

Não posso dizer que o balanço da minha viagem de bike no Egito tenha sido satisfatório, afinal, dos mais de 1000 km planejados, só consegui pedalar pouco mais de 30%. No entanto, conhecer a região do Deserto de Sinai e Alexandria e voltar a Luxor e Cairo me trouxeram imensa satisfação.

Ufa! Achei que não iria dar tempo de postar. A internet aqui é péssima! Agora já estou com tudo praticamente pronto para deixar o Egito. Vou desligar o computador e na sequência finalizar os preparativos para deixar o país amanhã bem cedo.

O destino? Deixa seu comentário e dê o seu palpite! Sefor o primeiro a acertar ganha o direito de pedalar 15 dias comigo em qualquer lugar desse mundão de meu Deus! Mas não se esqueça, as despesas serão custeadas pelo vencedor! KKKK

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O incrível deserto do Sinai no Egito.

Logo ao cruzar a fronteira entre Israel e Egito, e pagar tudo quanto são taxas… deparei me ao longo da estrada com dezenas de hotéis abandonados, o que aumentou ainda mais o meu alerta com relação aos terroristas. A estrada é linda, com visuais incríveis!  No entanto possui pouco movimento, longas subidas e alguns longos trechos sem asfalto. O sol cozinhava meus miolos… e eu só pensava em achar um lugar para me proteger da parte mais quente do dia! Ufa! Depois de uma curva em aclive, achei! Um posto de gasolina praticamente abandonado! Apenas dois funcionários que não falavam inglês. Foram simpáticos, me ofereceram um sofá onde pude descansar e comer com tranquilidade.

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Fronteira entre Israel e Egito ainda de madrugada. Taba border, Egito.

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Castelo egípcio no Mar Vermelho. Egito.

O primeiro contato com o Egito me deixou preocupado! Aqueles hotéis as moscas representavam um lugar que já havia sido próspero em turismo, mas que com as incidências de terrorismo, sofreu uma enorme debandada! Com a debandada, além dos grandes hotéis, pequenos comerciantes e pousadas também fecharam as portas. E com isso, cada vez mais, menos pessoas visitam o Sinai, e é claro, menos estrutura para um pobre ciclista mortal! Durante as 5 horas que fiquei no posto, apenas 5 carros vieram abastecer, sendo que 4 deles de uma empreiteira local.

Os conflitos abalaram significativamente a economia não apenas do Sinai, mas de todo o Egito. A maioria da população do Sinai é composta por beduínos, que deslumbraram por um tempo, todos os benefícios que o turismo traz a uma região, deixando de lado suas origens. Agora, os beduínos encontram bastante dificuldade em voltar a difícil labuta do dia-a-dia de outrora, e se agarram a esperança de que tudo vai voltar ao normal um dia! Quem viver verá!

Bom, mas a minha impressão começou a mudar logo em seguida, quando cheguei ao meu primeiro destino no Egito. Na cidade de Nuweiba, cerca de 70 km de distância da fronteira, encontrei o Sr. Maged (warmshowers), proprietário do Habiba Camp e de uma fazenda orgânica que possui um programa voluntário extra curricular para as crianças locais. Tudo é muito simples mas extremamente agradável! Além de usufruir de um dos quartos da pousada, tive a oportunidade de ministrar uma mini palestra para as crianças, onde mostrei minha rota e meus equipamentos de viagem, visitei a fazenda e aprendi muito sobre a região. Para saber um pouco mais do projeto que busca voluntários, click:  http://www.habibaorganicfarm.com/

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Habiba Camp. Nuweiba, Sinai – Egito

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Habiba Camp. Nuweiba, Sinai – Egito.

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Sr. Maged orgulhoso da sua plantação de tâmaras. Habiba Farm. Nuweiba. Sinai – Egito.

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A amiga Nour em meio a plantação de quinoa. Habiba Farm. Sinai – Egito.

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Centro de aprendizado Habiba Farm. Nuweiba, Sinai – Egito

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Centro de aprendizado Habiba Farm, Nuweiba, Sinai – Egito.

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Centro de aprendizado Habiba Farm, Nuweiba, Sinai – Egito.

O Sr. Maged também organizou algumas excursões na região. Em uma delas, fui visitar um oásis em um desfiladeiro no meio do deserto do Sinai. Depois de uma caminhada de meia hora no leito de um rio seco, uma piscina natural faz a alegria dos beduínos e de turistas também…

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Oásis. Deserto de Sinai – Egito.

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Oásis. Deserto de Sinai – Egito.

Também visitei a cidade de Santa Catarina, seu famoso mosteiro ortodoxo, e fiz uma linda caminhada ao pico do Monte Sinai. A cidade fica em meio as montanhas e possui um clima muito mais ameno se comparado ao “caldeirão” ao nível do mar. Através do Sr. Maged, conheci Dr. Ahrmed, um entusiasta das ervas medicinais. Além de produzir e comercializar, o Sr. Ahrmed trata muitos pacientes com as plantas, que vem de longe para serem consultados. Ele me disse que primeiro herdou o conhecimento do pai e dos beduínos e depois, através de livros, se tornou autodidata e fez vários cursos em vários países do mundo. Na sua pequena propriedade, além das plantações e consultório, funciona um pequena pousada e foi lá que pernoitei. É um lugar que vale a pena conhecer! No final do dia, tomar um chá com Dr. Ahrmed é uma opção bastante interessante para mergulhar na cultura local e vivenciar a sua rotina de consultas.

O Mosteiro Ortodoxo de Santa Catarina foi construído em 565 d.C. aos pés do Monte Sinai, em homenagem a Transfiguração de Jesus, que consiste em um episódio do Novo Testamento no qual Jesus é transfigurado (metamorfoseado) e se torna radiante do alto de uma montanha,. É um lugar sagrado para os judeus, cristãos e muçulmanos. Com 2285 metros de altitude, foi lá que Moisés recebeu os 10 mandamentos, e o local é visitado por milhares de peregrinos todos os anos.

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Mosteiro de Santa Catarina, Egito.

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Mosteiro de Santa Catarina. Egito

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Trilha ao Monte Sinai, Egito

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Caminhada rumo ao Monte Sinai. Egito.

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Igrejinha no alto do monte Sinai. Egito

Entre Nuweiba e Sharm El-Sheik, cidade situada no extremo sul do Sinai, foram dois duros dias de pedal e uma noite péssima em um posto de gasolina em Dahab. Forte calor, grandes montanhas e quase nada de apoio. No entanto, quando cheguei a capital egípcia do mergulho, ou Sharm, como a cidade é carinhosamente chamada, os amigos que fiz em Noweiba e Santa Catarina me receberam com a típica hospitalidade egípcia. Entre um mergulho nas águas translúcidas do Mar Vermelho, passeios e boas conversas, pude descansar e organizar a próxima etapa da minha aventura.

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Sharm El-Sheik, Egito

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Sharm El-Sheik, Egito

Minha ideia era cruzar o Mar Vermelho de balsa e seguir para Luxor e depois Cairo pelo Vale do Rio Nilo. No entanto, sem me avisar, cancelaram a balsa e fiquei na mão. kkkkk Acontece que o número de turistas no Egito caiu abruptamente e consequentemente as operadoras de turismo estão sofrendo muito. Aliás, como já mencionei acima!

Com isso restaram duas opções. Seguir pedalando pelo Sinai rumo ao Canal de Suez e de lá seguir para o Cairo, ou pegar um ônibus até Luxor, e de lá seguir o meu plano inicial. Optei pela segunda opção, pois terei a oportunidade de pedalar no Vale do Rio Nilo, um cinturão verde em meio ao deserto do Saara que muito me fascina.

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Minha bike no bagageiro do ônibus rumo a Luxor, Egito.

Ao pedalar em regiões inóspitas como o deserto, a prioridade passa ser conseguir o mínimo de conforto, como uma garrafa de água gelada, um cantinho com ventilador para passar a noite ou mesmo uma sombra na beira da estrada para poder descansar e se proteger do sol escaldante. Com isso, até consigo durante o pedal, fazer uma ou outra boa foto, mas o lado gastronômico passa para o segundo plano, e conseguir uma receita que vale a pena passa a ser questão de sorte! Comi alguns pratos bons e diferentes durante a minha estadia no Sinai, mas nada que valesse a pena registrar ou catalogar para o livro. Espero que na beira do Nilo isso possa mudar.

Gostaria de finalizar esse post agradecendo todos que de alguma forma contribuíram e fizeram dos meus dias no Sinai muita mais agradáveis! Muito obrigado!