Hobart: meu último destino na Austrália e mais um amigo que fiz para a vida toda!

Meus últimos dias de Austrália não poderia ser melhor! Posso dizer que serviram para fechar com chave de ouro!

Apesar de achar que fiquei tempo suficiente na Austrália, estou partindo com uma sensação estranha… não sei explicar direito, mas é aquele negócio de achar que aqui poderia ser o lugar certo para viver, ou talvez, seria uma mistura de sentimentos de inveja e desejo que nosso país fosse parecido com a Austrália… É jargão brasileiro que mora aqui dizer que a Austrália é o Brasil que deu certo! Mais ou menos com as mesmas dimensões, praias e lugares maravilhosos, clima semelhante… Nem vou me aprofundar nesse assunto… Para o bom entendedor, meia palavra basta, não é verdade?

Com o compromisso de pegar o avião, cheguei em Hobart com alguns dias de antecedência. É sempre um perrengue viajar de avião com bicicleta. É aquele negócio todo de ter que desmontar e empacotar a bike, sair correndo em busca de uma caixa para colocar a bike dentro, distribuir o peso para não pagar excesso de bagagem, organizar o transporte para o aeroporto e tudo mais…

Só que desta vez foi diferente! Fui super bem acolhido por Jivanta, aquele mesmo cara que me falou do eclipse na travessia entre Melbourne e Tasmânia. Jivanta mora em Calrton River, perto de Hobart, a 30 km do aeroporto. Com todas as características de um bom anfitrião, me deixou super á vontade, fez questão de me mostrar as principais  atrações da região, me levou para pescar, e ainda me ajudou com os preparativos pré voo.

Com a ajuda de Jivanta, que até me emprestou seu carro, levei muito menos tempo que de costume para organizar as coisas e com isso sobrou tempo para um giro pela região. Se o vento gelado estragou a nossa pescaria, por outro lado trouxe o frio e a neve, dando um colorido todo especial ao Mount Wellington, uma montanha com 1271 m de altitude que é o principal cartão postal da cidade.

Mount Wellington - Hobart - Tasmània

Mount Wellington – Hobart – Tasmània

Dia gelado em Mount Wellington - Hobart - Tasmània

Dia gelado em Mount Wellington – Hobart – Tasmània

Hobart - Tasmània

Hobart . Ao fundo Mount Wellington – Tasmània

A foto acima foi a última que fiz na Austrália e me ajudará a lembrar por muito tempo o quanto esse lugar é bonito. Foram pouco mais de 4 meses, 3.700 km pedalados, e lugares únicos como a Great Ocean Road, Uluru, Sydney, Tasmânia, Kakadu National Park e muito mais.

Em meio a tudo isso, conheci pessoas e histórias maravilhosas, que vão temperando a minha viagem com muito aprendizado, me oferecendo a possibilidade de enxergar o mundo por diferentes prismas, ajudando na minha eterna busca em ser uma pessoa cada vez melhor.

 

Jivanta com os filhos em Hobart - Tasmània

Jivanta com os filhos em Hobart – Tasmània

 

Um pouco mais sobre a Tasmânia

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Coles Bay – Tasmânia

Na terceira parte da minha viagem pela Tasmânia segui de St. Helens em direção ao sul para percorrer o litoral leste da ilha. Um verdadeiro presente da natureza! Um lugar fantástico, com povo hospitaleiro e uma semana toda de tempo bom e muito sol. É verdade que ocasionalmente choveu, mas não o bastante para atrapalhar.

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Acampamento em Coles Bay – Tasmânia

Entre muitas curvas e ondulações, montanhas e vales, a costa leste da ilha é a parte predileta dos turistas que começam a chegar com a proximidade do verão. A instabilidade climática, devido a alta latitude e por estar relativamente próximo do continente Antártico, é latente nesta época do ano e o clima pode mudar em minutos. Enquanto nestes dias eu me esbaldei com temperaturas entre 12 e 22° C no litoral, nevou nas montanhas acima de 600 m de altitude.

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Costa leste da Tasmânia.

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Vista de Coles bay – Tasmânia

A densidade populacional na Tasmânia é de apenas 7,24 hab/ km² e a ilha ainda ostenta forte influência rural, com fazendas de gado, ovelha e frutas como maça, pera, nectarina, damasco. A ilha é abundante em ferro, cobre, zinco e estanho que seguido pelo turismo formam a base da economia.

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Muito sobe e desce e vistas maravilhosas da estrada – Tasmânia

Muitos trechos da estrada não oferecem acostamento, o que não é nenhum drama, pois o fluxo de veículos é pequeno. O maior problema que encontrei pedalando foi com a água. Embora de excelente qualidade na maioria dos lugares, alguns vilarejos são abastecidos com água sem tratamento trazidas diretamente dos rios, e a própria população local não recomenda o seu consumo antes de ferver. Minhas caramanholas sempre foram abastecidas com água da torneira e não tive nenhum problema. O fato curioso é que 1 litro de água custa mais que 1,5 litros de suco de maça devido ao transporte… Nem precisa falar com o que me hidratei, né?!

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O campo – Tasmânia

 

Se você estiver procurando agitação, baladas, festas, nem pense em vir para cá. A minha impressão é que a Tasmânia é um ótimo lugar para envelhecer com saúde, segurança e tranquilidade e curtindo a natureza.

 

Que saudade do conforto lá de casa!

De Miena, que fica bem no centro da Tasmânia, pedalei para o norte até Deloraine me deliciando com o vento me empurrando e uma espetacular descida de 30 minutos com lindos visuais. O sol ajudou a espantar um pouco o frio.

Lago em Miena ( 1000m de altitude).

Lago em Miena ( 1000m de altitude).

De Deloraine segui para leste, passando por Launceston e Sccotsdale até chegar ao litoral em St. Helen. Neste trecho o vento soprou contra, enfrentei duras colinas e poucos pontos de apoio, me forçando a aumentar a carga com suprimentos e dormir em barraca.

Eu não vejo problemas em dormir em barraca, para falar a verdade eu até gosto. Contato direto com a natureza… Sabe como é?! Mas e o banho? Os lenços umedecidos quebram um galhão… O duro mesmo é sair da barraca de madrugado com um frio de rachar para ir ao banheiro… Quando é para fazer o n° 1 tudo bem… Agente só treme um pouco de frio e depois volta correndo para o saco de dormir (no meu livro Noruega by Bike, conto um episódio em que desmaiei e despenquei de um barranco  quando fechava o zíper das calças logo depois de fazer xixi)… Mas para fazer o n° 2… Putz!! Aí incomoda! Pega a lanterna e sai à procura de papel higiênico no meio da bagunça dentro da barraca… ufa, achei! Veste um casaco mais forte (nunca sabe o tempo que isso vai durar), gorro, calças, coloca o tênis e sai com a lanterna procurando um lugar razoável… Na maioria das vezes uma pequena inclinação no terreno já ajuda a se manter equilibrado e um pouco mais confortável na posição agachado. Se o terreno for plano, lá vai eu com a lanterna na mão procurar duas pedras para colocar nos calcanhares ( isso ajuda a se manter equilibrado e é muito mais confortável)… Aí pronto! Abaixa as calças, afasta os pés ao máximo para não “melar” o tênis, lembrando que o rolo de papel está no bolso da jaqueta e a lanterna na mão ou presa na testa (dependendo da urgência você pega a primeira que encontra). Nesta hora o frio já começa a incomodar e a única coisa que agente pensa é terminar logo! Aí a coisa vai indo… e depois de pouco tempo as articulações de joelho, tornozelo e quadril começam a fadigar ( não se esqueça que pedalei o dia inteiro)… aí tentamos acelerar o processo… Pronto, terminou a primeira parte! Com cuidado, para evitar surpresas e melecas, o ideal é mudar de posição para se limpar… não muito longe, já que vou usar a “obra prima” como cola para o papel higiênico usado não voar. Pronto… já estou limpo e o desafio agora é buscar uma pedra grande para esconder a sujeira. Dependendo das condições, boto fogo no papel higiênico…

De volta ao saco de dormir… pego mais um lencinho umedecido para limpar as mãos, tiro as roupas, apago a lanterna, ajeito o travesseiro feito com o restante das roupas que carrego, e pego no sono, feliz da vida, pensando que não tem MERDA nenhuma nesse mundo que vai me fazer parar de pedalar em busca do confortável banheiro lá de casa!

 

 

 

 

 

 

 

Resumo dos meus primeiros dias de Tasmânia… E o frio está pegando!

Última foto de feita de Melbourne já do navio Spirit of Tasmania.

Última foto de feita de Melbourne já do navio Spirit of Tasmania.

Minha viagem de Melbourne até a Tasmânia durou a noite toda e por pura sorte acompanhei o mais belo eclipse da minha vida. Eu não sabia do eclipse até encontrar com Jiva, um morador local que veio até mim curioso com a minha bicicleta cheia de alforjes e puxou conversa. Infelizmente não estava com uma lente potente o suficiente para fazer uma boa foto do eclipse… vou ficar devendo.

Navio Spirit of Tasmania já atracado em Devoport - Tasmânia

Navio Spirit of Tasmania já atracado em Devoport – Tasmânia

De Devonport (Tasmânia), segui viagem para uma pequena cidade chamada Lorinna, um pedal difícil de 70 km entre as montanhas com temperatura entre 3 e 11° C para chegar na casa de Elyse e Wauther que aceitaram me hospedar via warmshower.

Elyse e Wauther, casal que conheci através do warmshower.

Elyse e Wauther, casal que conheci através do warmshower.

O jovem casal vive em uma fazenda entre as montanhas e estão começando uma espécie de cooperativa para fornecer legumes frescos para os moradores da região. Eles são vegetarianos e o jantar foi colhido minutos antes de ir para a mesa. Foi um refeição farta de legumes, vegetais e uma cerveja produzida por eles.

Estradinha chegando em Lorinna - Tasmânia.

Estradinha chegando em Lorinna – Tasmânia.

Estradinha chegando em Lorinna - Tasmânia.

Estradinha chegando em Lorinna – Tasmânia.

No jantar conheci Chris, um amigo do casal que estava indo para uma parte da ilha que não estava em meu roteiro. Ele viaja de motor-home e depois de uma boa conversa aceitei o convite de viajar com ele durante dois dias por uma região que não teria oportunidade de conhecer de bicicleta.  Em dois dias percorremos cerca de 280 km entre as montanhas do lado oeste da Tasmânia para conhecer Cradle Valley, Rosebery, Zeehan, Queenstown entre outros pontos turísticos.

Cradle Valley

Cradle Valley

Chris em nosso acampamento no primeiro dia de viagem.

Chris em nosso acampamento no primeiro dia de viagem.

Chris me deixou em Bronte Park, cerca de 100 km entre as gélidas montanhas da Tasmânia até Deloraine, onde vou retomar meu roteiro inicial e seguir para o lado leste da ilha até Hobart que fica no sul. Estou em Miena, cidade que fica a 1000 metros de altitude e a temperatura esta noite vai chegar a – 4 ° C… e no caminho até aqui, entre uma chuva de granizo e vento frio, pela primeira vez em minha vida, pedalei debaixo de neve. Esta foi a única foto que consegui antes da máquina parar de funcionar devido ao frio.

Juro que é neve! Nas montanhas da Tasmânia

Juro que é neve! Nas montanhas da Tasmânia

 

Great Ocean Road e 12 Apostles

Antes de deixar a parte continental do território australiano e seguir para a Tasmânia pedalei na Great Ocean Road, uma estrada de 243 km  a beira-mar  entre as cidades de Torquay e Warmambool no estado de Victória no sul da Austrália.  A Great Ocean Road é uma estrada que exige preparo físico e muita atenção dos ciclistas, já que é muito sinuosa, montanhosa, exposta a fortes ventos e em grande parte não existe acostamento. Em contrapartida, é uma estrada belíssima, que a cada quilômetro percorrido oferece vistas incríveis.

Parada para repor as energias na Great ocean Road. Victória Austrália.

Parada para repor as energias na Great ocean Road. Victória Austrália.

 

Great Ocean Road. Victória Austrália.

Great Ocean Road. Victória Austrália.

 

Eita ladeira!!!

Eita ladeira!!!

Parada para repor as energias na Great ocean Road. Victória Austrália.

Parada para repor as energias na Great ocean Road. Victória Austrália.

Great Ocean Road. Victória Austrália.

Great Ocean Road. Victória Austrália.

Vista da  Great Ocean Road. Victória Austrália.

Vista da Great Ocean Road. Victória Austrália.

Sem dúvida os 12 Apostles ( Doze apóstolos) é o ponto alto da estrada. Essa incrível formação de arenito esculpida pelas ondas e ventos destacam-se do continente como torres que chegam a 45 m de altura. Hoje, devido a erosão de longos anos, restam apenas 8 colunas, mas o governo australiano insiste em chama-las de 12 Apostles, um nome um tanto quanto turísticos que continua atraindo milhares de turistas todos os anos.

Por-do-sol em 12 Apostles

Por-do-sol em 12 Apostles

Por-do-sol em 12 Apostles

Por-do-sol em 12 Apostles

 

Melbourne: Vai de bike!

Vista do Rio Yarra com o estádio e a cidade de Melbourne ao fundo.

Vista do Rio Yarra com o estádio e a cidade de Melbourne ao fundo.

Cheguei em Melbourne em um dos finais de semana mais movimentados do ano. Dia da Grand Final da Liga de futebol Australiano, o esporte mais popular do país que é uma mistura de rugby, futebol americano, e futebol. Os vermelhos de Sydnei X Os amarelos de Melbourne. A cidade estava toda colorida e o clima colaborou para deixar o final de semana ainda mais agradável.

Estação Central - Melbourne

Estação Central – Melbourne

Torcedores vão as ruas para saldar os jogadores de futebol australiano na véspera da Grand Final.

Torcedores vão as ruas para saldar os jogadores de futebol australiano na véspera da Grand Final.

Torcedor exibindo as cores dos dois times...

Torcedor exibindo as cores dos dois times… qualquer semelhança com meu amigo Jae é pura conhecidência! 

 

De tudo que vi em Melbourne, uma cidade de 4 milhões de habitantes, foi a relação que a população tem com a bicicleta o que mais me chamou a atenção. É incrível a quantidade de pessoas que usa a bike no dia-a-dia! Tudo bem que o clima é ameno na maior parte do ano, e a cidade é praticamente toda plana, isso contribui bastante! Mas o mais incrível é que se pode chagar a qualquer lugar da cidade por ciclovias ou ciclofaixas. Os ciclistas respeitam as leis de trânsito e são respeitados pelos motoristas, seja de carro, ônibus ou caminhão.  Aqui,  a ordem de preferência é pedestre, ciclista e automóvel… e funciona! Todo mundo cumpre o seu papel! Pedestre só atravessa na faixa e com o sinal verde, ciclista desmonta para cumprir um trecho estreito compartilhado ou quando a via está sofrendo reparos. Motorista usa a ceta, e sempre da preferência na conversão do ciclista que por sua vez da preferência ao pedestre.

Além de tudo isso, as ciclovias são excelentes! Tudo bem que caí em uma valeta e tive um prejuízo com a roda… mas voltei ontem no local para conferir. E confesso que a culpa foi minha! O trecho estava em obras e havia várias placas no local sinalizando… a paisagem me tirou a atenção. Toda vez que é preciso cruzar uma rua, as conexões entre rua e calçada são suaves, e não existe aquele soco ou se quer um pequeno desnível que possa causar danos ou desconforto ao ciclista. Quase não existe remendo no piso e toda vez que a via é compartilhada com carros ou pedestres, tem uma placa alertando.

Como minha bike está esperando uma roda nova, fiz mais de 10 km andando pela ciclovia a beira do Rio Yarra, rio que corta a cidade, que liga o bairro de Hawthon (onde fica a cede e é o nome do time da cidade que venceu a final),  onde estou hospedado, até o centro. Um verdadeiro espetáculo! Foi inevitável fazer a comparação com a ciclovia do Rio Pinheiros em São Paulo.

Ciclista usando a ciclofaixa para passear com os cachorros.

Ciclista usando a ciclofaixa para passear com os cachorros.

Ciclovia em Melbourne ao lado do rio yarra

Ciclovia em Melbourne ao lado do rio yarra

Rio Yarra, ao contrário dos nossos rios de São Paulo, com muita vida e natureza.

Rio Yarra, ao contrário dos nossos rios de São Paulo, com muita vida e natureza.

Ciclovia em Melbourne

Ciclovia em Melbourne

Menino apreciando a vista na ciclovia em Melboune.

Menino apreciando a vista na ciclovia em Melboune.

 

 

 

Passei em uma veleta e a roda empenou… Tooooma cego!

Entre 15 e 20 dias procuro dar uma geral na bike. Um limpeza simples no quadro, câmbios, corrente, roda e etc… Dou uma olhada nas pastilhas de frio, verifico os parafusos de fixação dos bagageiros, dou uma olhada nos aros e outras coisas mais… A lubrificação dos conjuntos e da corrente é mais fácil detectar enquanto estou pedalando e faço sempre que noto algo errado ou algum ruído diferente. É assim que venho fazendo já a muito tempo e tem dado certo. Tudo isso aumenta a confiança e evita problemas mecânicos, e consequentemente ficar parado na estrada.

Meses atrás, ainda na Ásia, notei uma pequena fissura na roda, exatamente no ponto de fixação de um raio. Venho monitorando isso com frequência e ontem, quando passei em uma valeta com certa velocidade, a roda bateu forte e começou a fazer um ruído diferente.

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Cerca de 35 km de Melbourne.

Putz! É muito difícil encontrar uma valeta nas ciclovias na Austrália e bem na hora que eu me distraí com o lindo visual… pumba!!! O terreno declinado acelerou a toada e passei com tudo na valeta! A roda bateu forte duas ou três vezes… e começou aquele ronc ronc intermitente, toda vez que a roda da um giro completo.

Dormi com isso na cabeça e pela manhã fui fazer a geral na bike. Constatei mai 3 fissuras. Esse é o preço de quem pedala com muito peso.

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A roda empenou consideravelmente e achei melhor trocar. Já encomendei uma nova e tudo deve ser resolvido até terça-feira no final do dia. Por sorte, estou em Melbourne, uma cidade com vários pontos de interesse.