O antes…

Na trilha do Everest em um dia de adaptação a altitude.

Já estava namorando essa idéia desde 2004, quando um aluno voltou dessa viagem cheia de relatos interessantíssimos. A sua empolgação era tanta que passamos a falar sobre isso quase que diariamente nas aulas. Nem podia ser diferente. O cara tinha feito uma viagem que pouquíssimas pessoas no mundo tinham coragem de fazer. E tinha tudo a ver com que eu procurava. Aventura, desafio, superação, diversão.

Cliente desde novembro de 2001, Luciano Nunes Balbim é meu aluno até hoje. Um dos caras mais inteligentes e interessantes que conheci. Leitor voraz e viajado, Luciano passou a ser a enciclopédia do meu dia a dia. Aos poucos, esse meu cliente exigente e ranzinza, foi entrando no seleto salão nobre das minhas amizades.

Hesitei por vários dias e só consegui tomar a decisão de viajar no final de janeiro. O sonho agora era realidade! Ao mesmo tempo em que minha auto estima crescia, com uma sensação maravilhosa de fazer uma viagem dessas, minhas preocupações aumentavam á medida que analisava mais friamente minhas responsabilidades profissionais e como pai. Uma série de problemas surgiu. Fui demitido depois de dez anos do cargo de fisiologista da maior academia do país. Isso teria uma implicação importantíssima na minha carreira profissional daqui para frente. Fiquei muito chateado pelo fato de como essa demissão ocorreu. Aos poucos fui contornando alguns problemas e outros, simplesmente, continuam sem resolver até hoje. Tentei continuar a minha vida. Meus alunos tomaram conhecimento da viagem somente no final de maio. Todos, sem exceção, compreenderam e me apoiaram. Deixo aqui meu agradecimento. Muito obrigado de coração!

O Luciano cuidou de tudo! Fazendo a viagem pela segunda vez, ele tinha todos os canais.  Entrou em contato com a Mountain Madness, empresa especializada em levar pessoas até o acampamento base do Everest, e ainda reservou os bilhetes aéreos e os hotéis.

Aumentando o interesse na mesma velocidade em que o tempo passava, li e reli alguns livros de pessoas que fizeram esta viagem. Aos poucos, acampamento base, Kalapatar, Khumbu Ice Fall, sherpas, iaques, etc, foram fazendo parte cada vez mais do meu vocabulário.

Foi interessante perceber a reação das pessoas ao ficar sabendo que iria para o Nepal, visitar uma das regiões mais inóspitas da terra. Muitos não tinham a menor idéia de onde era o Nepal, e quando tomavam conhecimento de que era um lugar pobre, frio, e que teria que caminhar de 6 á 8 horas por dia, ficavam ainda mais perplexos. O que você vai fazer lá então? Essa era um pergunta que não era fácil responder. Envolvia tantas coisas que era difícil até para minha compreensão. As idéias não me pareciam claras para poder explicar. Ou pelo menos, não tinham um raciocínio lógico. Tipo! Sabe quando você sabe e não consegue explicar?! Parecia que eu estava querendo esconder até de mim, as motivações principais que me levaram á essa viagem. Que na verdade, nem eu sabia direito. Louco!

Já há muito tempo, Luciano e eu, treinamos cinco vezes por semana. Aos poucos fomos direcionando o treinamento para ficar cada vez mais fortes. Luciano muito determinado começou a correr pela primeira vez na vida. Aumentou sua força de maneira significante. Fez dieta. Motivado! Perdeu quase 9 Kg. Chegou á correr 10 Km em uma hora.

Eu tive alguns problemas e não consegui treinar da maneira que gostaria. Neste período tive uma lesão na panturrilha que me incomodou até durante a viagem. Mesmo assim, mantive meus níveis de força e emagreci cerca de 4 Kg. Sabia, contudo, que antes mesmo de decidir ir, já possuía preparo físico mais do que suficiente para cumprir a caminhada. Li relatos de pessoas muito menos preparadas do que eu, que não tiveram problemas em completar o trek. Melhorar a capacidade aeróbica era a meta para acelerar uma recuperação muscular causada pelo cansaço diário e pela altitude. Isso foi planejado como prioridade, já que todas as outras variáveis do ponto de vista do treinamento, importantes não só para o trek, mas também para qualidade de vida, já ultrapassava em muito o “bom”. Eu já tinha um condicionamento aeróbico bom, e tentei aumentá-lo ao máximo. O Luciano apenas caminhava. Expliquei a importância de ter uma capacidade aeróbica boa e não foi difícil convencê-lo a aumentar o ritmo. Sempre disse a ele que era isso que faltava em seus treinamentos. Parece que agora ele pegou gosto pela coisa.

Comprei as roupas e os objetos que me faltavam nestes dez meses. São caros, fui comprando mês a mês. Tivemos tempo de fazer tudo com tranqüilidade. Fotos, formulários, seguro viagem, vacina de febre amarela. Na última semana faltavam apenas alguns detalhes.

Por outro lado a ansiedade estava incontrolável. Começamos a contar faltando 200 dias. As duas últimas semanas foi um martírio. Está perto o suficiente para a ansiedade tomar conta de você e ao mesmo tempo ainda faltam quinze dias. Acho que foi a fase mais difícil. De repente 10, 9, 8,… 3, 2…

Já tinha conversando com minha filha sobre a minha ida ao Everest inúmeras vezes. Meu último jantar no Brasil foi com ela. Ficaria um mês sem vê-la. Tentei pela última vez, justificar essa viagem que ela mal compreendia. Tivemos uma conversa interessante e agradável por mais ou menos duas horas. Conversando de uma forma lúdica, consegui prender sua atenção, e nos aprofundamos em vários assuntos. Não apenas nos meus sonhos, mas também nos sonhos dela. Relembramos fatos vividos em nossa última viagem e rimos muito. Foi uma noite que ela falou feito gente grande. Decidir ou não sobre essa viagem tinha muito a ver com ela. Com sete anos, Ana Laura é uma menina de sorriso fácil, muito inteligente, dócil e amorosa. Com perguntas pertinentes, ela me deixava em situações difíceis perguntando mais de uma vez porque fazer uma viagem á um lugar tão frio, tão longe e tão alto. Acho que me saí bem com as explicações, e ainda tenho cada sorriso daquela noite bem guardado comigo. Com certeza, a saudade que sentiria da minha filha, seria uma das maiores dificuldades desta viagem.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s