Bye bye Mauritânia! Bye bye Saara! E que venham novos desafios!

Meso não me sentindo 100 % depois de alguns dias de repouso, as dores regrediram, e resolvi enfrentar a estrada novamente. Estava inseguro e me sentindo pressionado pela minha própria vontade de seguir em frente, e por Jordi, que já demonstrava inquietude e impaciência por tanto me esperar. Coitado! Quero ressaltar que meu amigo fez de tudo para me deixar confortável, demonstrando solidariedade em todos os momentos que precisei. Até massagem ele me fez! Valeu amigão! Esse momento está sendo muito mais confortável com sua ajuda! Muito obrigado! Continuo contando com você, Jordi! Aliás, quero agradecer também a todos que me mandaram mensagens e ligaram para me dar uma força! Se os recados já são legais quando estou na boa, eles se tornam ainda mais importante quando estou na pior! Obrigado galera!

Entre Nouakchott e Saint-Louis / Senegal (o próximo ponto de apoio caso eu necessitasse), teria que pedalar cerca de 275 km, sendo 50 deles em estrada sem asfalto. Trepidação, areão e pelo menos  3 noites dormindo em barraca. Tudo isso me colocava em check! Mas depois de adiar nossa partida por duas vezes, fiz um teste e senti que poderia ao menos pedalar com uma das mãos. Decidi correr o risco, contrariando as recomendações!

Com o vento sempre ajudando e relevo gentil, pude realmente poupar o lado comprometido, pedalando apenas com a mão direita no guidão na maior parte do tempo. Diferentemente da parte norte do país, o Saara ao sul da Mauritânia é mais povoado, com muitas vilas e mais pontos de apoio. Embora precários, os pequenos comércios foram suficientes para nos abastecer com água, e nos colocar em contato direto com o curioso e amistoso povo local. A vegetação é outra diferença marcante! Árvores e arbustos são abundantes, marcando a zona de transição desértica, e assim, conseguimos sempre uma boa sombra para descansar no meio do dia.

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Pequenas vilas no Saara. Mauritânia.

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Pequenas vilas no Saara. Mauritânia.

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Jordi recebendo o carinho do povo local. Mauritânia.

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Simpáticos Mauritanos

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Ahhh minha rede!!! Saara. Mauritânia.

Quando nos aproximamos do Rio Senegal, também conhecido por Rio do Ouro, que separa a Mauritânia e o país de mesmo nome, como em um passe de mágica, o cerrado se transformou em zona pantaneira. Nesta região do delta, junto a foz, fica o Parque Nacional Diawling, um santuário ecológico que abriga  mais de 200 espécies de aves como pelicanos, flamingos, cegonhas negras e também crocodilos, javalis e diversas espécies de peixes. Também tem muito gado pantaneiro e camelos, que certamente foram introduzidos nesta região pela população ribeirinha, devido a abundante oferta de alimentos. Existe bastante semelhança entre o parque e a região do Pantanal, inclusive com os enxames de pernilongos perto do nascer e pôr do sol. Barbaridade! Vale lembrar que a malária corre solta neste região. Fato que exige cuidado!

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Típica vegetação do deserto. Mauritânia.

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Descanso em Keur Macéne, cidade entre o deserto e o alagado. Mauritânia.

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Keur Macene. Mauritânnia.

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Ribeirinho. Parque Nacional Diawling. Mauritânia.

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Javali. Parque Nacional  Diawling. Mauritânia.

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Parque Nacional Diawling. Mauritânia.

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Parque Nacional Diawling. Mauritânia.

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Parque Nacional Diawling. Mauritânia.

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Parque Nacional Diawling. Mauritânia.

Se por um lado o ecossistema do parque nos distraiu depois de um longo período de seca, por outro, a estrada de chão foi arruinando minha lesão. Já tomei a decisão de parar e descansar assim que tiver oportunidade. Mas não sou apenas eu que estou sofrendo! Alguns dos meus equipamentos também padecem com a ação do tempo! Já se foram 3 anos e 4 meses de estrada meu! E muita coisa já possuía desde antes da viagem! Os equipamentos vão quebrando ou se danificando pelo simples fato de envelhecer! Muito uso! Desgaste natural! Tudo tem validade! A válvula do meu colchonete quebrou de tanto abrir e fechar! Diversos feixes dos alforjes já eram! Os alforjes estão “comendo” o alumínio na zona de contato com os racks. O fixador da bomba no quadro da bike já era! Barraca com problemas como relatei outro dia. Os pneus já muito perto da vida útil! Câmaras de ar ressecadas, muito tempo guardadas sem usar. Uma das conexões da mangueira dos freios ressecou e o óleo vazou. Estou com apenas um funcionando! Preço de viajar com sistema hidráulico! Eu sei! Mas já tinha a bike antes de viajar… e outra… saí de casa para ficar apenas 6 meses na estrada, lembra?  Pois é! Meus equipamentos vão minguando com o tempo e os riscos devem ser avaliados e levados em consideração para o planejamento da minha próxima etapa, que será definida muito em breve!

Infelizmente não consegui a qualidade desejada com relação a gastronomia na Mauritânia. Os pratos típicos são mais ou menos iguais ao Marrocos, como é o caso do cuscuz e tajine. O arroz acompanhado de frango, ou guizado de carne de ovelha ou de camelo também são muito apreciados. O suco da fruta do cactos é bem interessante e o chá com hortelã é a bebida nacional, servida depois de qualquer refeição ou simplesmente fazendo o papel do nosso cafezinho no meio da tarde.

A expectativa agora se volta para a minha recuperação completa, fato complicado que exige paciência, pois estou trabalhando com hipóteses, já que ainda não tenho um diagnóstico fechado; para Senegal, o 47° país visitado pelo Projeto da China para Casa by Bike; e pela aproximação de uma importante meta pessoal, que me orgulha, me fortalece, me motiva a seguir em frente ou me deixa pronto para voltar para casa! Aguardem novidades!

 

 

 

 

 

 

 

Nouakchott – Capital da Mauritânia

Devido a uma forte contratura muscular na região cervical que se estendeu até o ombro, acabei ficando uma semana em Nouakchott. Fui ao hospital, tomei algumas injeções, e comprei uma batelada de remédios. Com fortes dores, não tive ânimo para passear como normalmente faço ao visitar uma cidade pela primeira vez. Fiquei a maioria dos dias dentro do quarto do hotel, descansando, fazendo alongamento e desafiando minhas limitações tecnológicas. Finalmente, baixei o Movie Maker no computador e resolvi, depois de muito relutar, a aprender editar vídeos. Desci dos tamancos da excelência, vesti as sandálias da humildade, e resolvi publicar abaixo, meu primeiro vídeo editado, com imagens que fiz  durante uma tarde e quando estava deixando a cidade.

Me atrapalhei bastante nos comandos, teve coisas que não consegui deixar como eu queria, e para ser sincero, me parece que quando subi o vídeo no youtube, o japonesinho que mora dentro do meu computador, mudou algumas configurações. kkkk

Mas agora é tarde demais!!! A internet aqui é muito lenta! Este vídeo levou 6 horas baixando… e não vai rolar baixar de novo! Peço desculpas aos mais exigentes e prometo melhorar nos próximos.  Afinal, a prática é que leva a perfeição! É ou não é! Faça como eu, seja tolerante e confira como Nouakchott é fervilhante, colorida, caótica! Surpreenda-se!

 

Mauritânia é coisa de louco meu amigo!!!

Cultura chocante, a mais estranha oferta sexual que já recebi na vida, cruzar território não reconhecido internacionalmente (terra de ninguém),  deserto e raríssimos pontos de apoio, calor, e uma derrota marcante que me deixou muito triste! São os mais de 3 anos de viagem cobrando seu preço!

Geograficamente localizado no norte da África entre dois países conhecidos pelos brasileiros, Marrocos ao norte e Senegal ao sul, muito pouco se sabe sobre a Mauritânia. O Saara cobre 75% do país e sua economia provém principalmente do minério de ferro (50% das exportações), petróleo, ouro, prata e bronze. A maioria da população vive na pobreza e o fato curioso é que o país aboliu a escravatura apenas em 1981.

Sempre falo aqui sobre culturas diferentes das nossas e coisa e tal… mas a  República Islâmica da Mauritânia (Nome oficial do país) surpreendeu! Ao mesmo tempo em que as mulheres são chefes de família e responsáveis pela casa e crianças, elas são impedidas de ir a escola e trabalhar. Quanto a isso, se entendermos que estamos em um país muçulmano sunita, podemos até considerar “normal”, não é verdade? Todos nós sabemos sobre as diferenças dos direitos entre os sexos em um país regido pelas leis do Islã.

Mas se liga no que acontece por aqui!

Diferente do padrão mundial, na Mauritânia as mulheres magras não tem vez! Isso mesmo! Segundo a tradição Leblouh, são as gordinhas que fazem sucesso por aqui! E a coisa é levada a sério meu chapa! As famílias mandam suas filhas para um Acampamento de Engorda. Um tipo de campo de concentração , onde as crianças entre 5 a 9 anos são forçadas a ingerir até 16.000 kcal por dia! Aos 12 anos já pesam mais de 80 kg. Se vomitarem, ou não seguirem as regras, sofrem castigos e torturas. A obsessão pelos “pneuzinhos”  e estrias é tão grande, que chegam a drogar as crianças para comer mais e mais. Algumas meninas são abandonadas pelas famílias caso não consigam engordar.

De acordo com instituições que defendem os direitos das mulheres, o Leblouh vem perdendo força nas classes média e alta do país,  mas ainda é muito praticado nas classes mais baixas e na zona rural. Segundo a tradição, quanto maior a mulher, mais espaço ela ocupa no coração do marido, não dando espaço para concorrentes. A cultura diz que ser gorda, traz felicidade e estimula o casamento precoce. Assustador, não é mesmo!!! Mas não termina por aqui. Mais abaixo vou relatar um fato curioso que aconteceu comigo.

Posso dizer que minha chegada ao país também foi um pouco sinistra. Entre as fronteiras de Marrocos e Mauritânia existe uma faixa de terra  de 6 km, não reconhecida internacionalmente, ocupada pelas Nações Unidas. Uma terra de ninguém, podemos dizer assim! Sem estrada e muito militarizada.

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Estrada entre as fronteiras entre Marrocos e Mauritânia. Território não reconhecido internacionalmente ocupado pela Nações Unidas..

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Estrada entres as fronteiras de Marrocos e Mauritânia sendo guardada por bases militares e viaturas da ONU. Território não reconhecido internacionalmente ocupado pela Nações Unidas.

Depois de atravessar o território não reconhecido, chegamos, Jordi e eu, na Mauritânia. Eu já estava com o visto em meu passaporte, mas Jordi teve que enfrentar a burocracia e “morrer” com uma grana a mais para receber o carimbo.

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Posto de fronteira da Mauritânia.

Conforme o esperado, nossa dificuldade aumentou no Saara do lado da Mauritânia. O sol, cada dia mais forte, exigiu mais cuidado e os pontos de apoio ficaram ainda mais escassos, nos obrigando a carregar mais água e comida. Para se ter uma ideia, o país é coberto por apenas 4 estradas asfaltadas. Sabendo disso, aproveitamos o vento a favor e paramos, já na boca da noite, em Boulenouar, cerca de 45 km da fronteira. Como já estávamos há alguns dias tomando banho com lenços umedecidos, que nunca conseguem vencer o poeirão do deserto com satisfação, decidimos alugar um quarto no único hotel do vilarejo. E que besteira que fizemos!!! Para começar, o hotel parecia uma prisão e a gororoba que jantamos estava mais para ração do que refeição. Além de pagar caro em relação ao Marrocos, fomos devorados por pulgas, carrapatos e piolhos. Que tristeza meu amigo! Decidimos que a partir de então, passaríamos as noites acampando. A lua cheia e a temperatura agradável durante a noite ofereciam as condições ideais.

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Nome das duas mais importantes cidades da Mauritânia.

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Nunca pare nesse hotel. Boulenouar. Mauritânia.

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Recepção do hotel em Boulenouar. Mauritânia.

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Jordi e eu esperando a nossa “ração” no hotel El Heze. Boulenouar. Mauritânia.

Em algumas pequenas vilas, a precariedade é tão grande que não existe eletricidade e a água é armazenada e barris de plástico. Não existe água mineral para comprar. Durante todo o trajeto é comum encontrar carcaças de carros abandonados, fato que nos remete ao terrorismo. Alguns estão tão contorcidos, com as fuselagens queimadas que parecem terem sidos bombardeados. Vale lembrar que em 2008, a maior prova de Rali do mundo, o Paris-Dakar, sofreu um ataque terrorista por fanáticos religiosos na Mauritânia, obrigando os organizadores mudarem o Rali de lugar.

As paisagens do Saara no lado da Mauritânia continuam muito parecidas com o Saara marroquino. Reparei apenas um pouco mais de verde, com algumas árvores, arbustos e moitas.

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Cidade fantasma. Mauritânia.

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Mauritânia.

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Mauritânia

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Mauritânia.

Quando aparece uma oportunidade, nos protegemos do sol nos pequenos armazéns de beira da estrada onde aproveitamos para cozinhar algo simples, já que ou não existe restaurantes ou a higiene do lugar não convence.  Mas como já disse, são raros. Teve dia que não achamos nada e nos escondemos debaixo de uma carroceria de caminhão abandonada. Os mosquitos azucrinam nossas vidas durante o dia, mas somem durante a noite e com isso, associado ao clima mais ameno, caprichamos mais no rango.

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Cozinhando em um armazém de beira de estrada. Mauritânia.

Depois do árabe, o francês é a língua mais falada, seguido pelo espanhol. Com sorte, é possível achar alguém que fala inglês. A população é bastante miscigenada entre mouros e negros. Sempre são muito simpáticos. Em alguns lugares, onde a pobreza e a falta de cultura prevalessem, tivemos dificuldades de comunicação e aborrecidos por pedintes. O lixo ao relento e o fedor também incomodam bastante!

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Jovens curiosos vestidos tipicamente com o Drâa, nos abordando amigavelmente na estrada. Mauritânia

Entre a fronteira e a capital Nouakchott, são 400 km e a única cidade propriamente dita é Chami. A cidade impressiona pela pobreza, sujeira e desorganização. Muita gente na rua, que foram atraídos pela febre do ouro. Quando chegamos a cidade, eu não me sentia bem. Um torcicolo me deixou travado e com fortes dores no ombro e por isso não consegui fazer muitas fotos. Devido a dor, buscamos um hotel, mas o único da cidade estava lotado. Seguimos viagem e paramos para acampar debaixo de um luar maravilhoso.Com a claridade da lua, praticamente não precisamos das lanternas para cozinhar. Mas a dor não me deixava curtir o momento como gostaria. Nem mesmo uma cáfila de camelos que pastava perto de nós me animou. Fui para a cama, ou melhor, para barraca mais cedo que gostaria.

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Chami. Mauritânia.

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Garimpeiros tomando chá em Chami. Mauritânia.

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A lua surgindo com tudo! Mauritânia.

Praticamente não dormi durante a noite. Desmontei acampamento com dores e pedalamos 8 km até um posto de combustível. Ali comemos, descansamos até o sol baixar novamente, compramos água e comida. Quando voltamos a pedalar já não conseguia ficar com a mão esquerda no guidão da bike. Fiz de tudo e a única posição que não me fazia ver estrelas era elevar o braço acima da cabeça. E assim fui, com vento ajudando por mais 20 km. Em uma barreira policial decidi pedir ajuda.

Enquanto Jordi ficou no check point, gentilmente, o comandante escalou um soldado para voltar comigo até Chami, para me levar a um pequeno hospital, que ficou sem energia durante todo o tempo que fiquei lá. O médico que me atendeu teve sensibilidade e mesmo sem falar inglês, conseguiu entender as minhas necessidades. Enquanto o soldado segurava a lanterna, o doutor me injetou um relaxante muscular e anti-inflamatório. Me deu uma caixa de remédio e me desejou boa sorte.

Aí aconteceu mais um momento inusitado da viagem.

Aproveitando a folga, o soldado me convidou para passar em sua casa. Era uma oportunidade para ele visitar a família. A cidade inteira sem energia. Só a rua principal, ou melhor, a estrada, com luminárias abastecidas com painéis solares, ao longe, e a lua é claro, traziam um pouco de luminosidade. Muita gente sentada em frente as casas e crianças correndo e brincando. Em 5 minutos de caminhada chegamos. Como não conseguíamos nos comunicar através de palavras, muita coisa se perdia na mímica, exigindo muito do meu senso de interpretação. Meio sem paciência devido a dor e cansado, fui “levando” o soldado da maneira que deu. Cumprimentei seus familiares homens, que estavam em frente a casa, sentados em uma esteira. A penumbra não permitindo a completa identificação dos rostos.

_ Salamaleico (Salaam Aleikum em árabe)! Soltei a saudação mais comum do mundo árabe com meu sotaque português.

_ Alaikum As-Salaam! Os 5 homens responderam simultaneamente, fazendo sinal para me sentar.

Sentei! Ou melhor, tentei, mas estava impaciente e com dor. Minha cabeça só pensava em descansar e eu já duvidava da minha recuperação para seguir pedalando no outro dia pela manhã. Ainda estava a 200 km da capital.

Me levantei e tentei me distrair com a lua, laranja naquele momento. Enorme! Linda!

Andando para lá e para cá, minha curiosidade me levou até a porta da casa, onde 3 mulheres conversavam em vós alta. A única luz vinha de uma lanterna de pilhas postada bem no meio do único cômodo da casa. Uma delas com uma criança no colo. As outras, se maquilando com um pó branco que as deixavam com uma aparência assustadora. A luz não era forte suficiente para revelar suas feições, que associadas ao rosto branco, parecia um filme de terror!  Nossa! Fantasmas, pensei!

Quando a última mulher terminou a auto maquilagem, senti um movimento diferente entre todos. O soldado me chamou até a porta, e com o dedo indicador, apontou para uma e depois para outra mulher, excluindo a que estava com o bebe. Estranhei, e demorei alguns segundos para entender que ele estava perguntando qual delas eu preferia. Bicho, fiquei sem graça que soltei uma gargalhada. As duas sentadas no chão com os olhos fixos em mim. Aqueles rostos brancos fantasmagóricos me deixavam pilhérico! Onde eles querem chegar? Tentei dar uma de “João sem braço”(expressão usada lá nas bandas de onde venho, que significa: dar uma de desentendido), e sair. Mas o soldado ao mesmo tempo que me segurou com firmeza o braço, fez sinal para uma delas se levantar e se aproximar. Me segurando com uma mão, e com a outra segurando o braço da mulher, ele nos aproximou. Com a cabeça, fez um movimento perguntando o que achei, soltando um: _ Small sister.

Não consegui sacar a idade da moça, que tinha um rosto bonito até, contrastando com os dentes desalinhados quando sorriu. Perfume barato exagerado! Roliça! Ela usava um bonito mulafa, traje típico das mulheres da Mauritânia.

Tentei me desvencilhar  das garras do soldado. Mas ele foi irredutível! Notei a expressão do seu rosto e fiquei um tanto quanto apavorado! O rosto amigável até então, exibia traços sérios, lembrando um soldado em formação. Naquele instante, percebi que o melhor a fazer era dar um sorriso e brincar. Nem me lembro o que falei…

Ao mesmo tempo que soltou o braço de uma,  fez um sinal para a outra moça se aproximar. Percebi a dificuldade que a mulher teve ao se levantar do chão com toda a banha que carregava. O mesmo perfume exagerado! _ Big sister, disse o soldado! Essa não era feia, era lazarenta de feia! Enorme! Essa deu medo! kkkk

De uma maneira mais incisiva e ao mesmo tempo fazendo parecer uma brincadeira, me livrei do soldado, dei um sorriso, e fazendo gestos com a mão imitando umas pedaladas disparei: Você quer pedalar comigo até o Brasil? kkkkk

Ao mesmo tempo em que estava achando engraçado,  sentia que as coisas estavam rolando com seriedade para eles. Não senti medo, mas fiquei inseguro e não entendi direito o que estava acontecendo. Será que o soldado estava tentando arrumar um casamento para as irmãs? Será que estavam apenas fazendo uma brincadeira entre família querendo saber minha opinião sobre qual era a mais bonita?

Fui me afastando da porta e o soldado tentando me segurar. Quando parei, com uma postura mais austera, pude ler os sinais que ele fazia com as mãos. O indicador de uma das mãos entrando no buraco que fazia com a outra, deixando claro que era sobre sexo o negócio.

Inacreditável! O soldado estava oferecendo as suas irmãs. E o pior, com o consentimento dos familiares e das próprias meninas. Ele ficou inconformado com a minha negativa. Batia a mão direita no peito suavemente, sobre o coração, como se estivesse dizendo: Vai lá cara, é de coração! Pode comer! Sinceramente não consegui interpretar sua intensão. O gesto que fazia parecia se tratar de uma cortesia, mas eu sentia que no fundo eles queriam dinheiro. Será que aqui rola o se comer tem que casar? Será que isso também faz parte da tradição Leblouh?

Joguei a culpa da minha negativa em minha dor e consegui fazer com que ele me levasse de volta ao acampamento. Jordi me ajudou a montar a barraca. As dores só aumentando! Quase não consegui dormir com meus pensamentos oscilando entre a experiência que acabara de viver e o quanto tudo aquilo me chocou, e a preocupação com as dores e ter que sair dali pedalando.

Pela manhã, tive a impressão que a dor não retrocedeu uma vírgula e uma angustia ainda maior, tomou conta de mim. Enquanto desmontava acampamento fui tentando me convencer que o melhor a fazer seria não pedalar. Aliás, com aquelas dores, não seria possível. Nenhum ponto de apoio, vento contra, forte calor, bicicleta ainda mais pesada com o estoque de água e comida e muitas outra coisas mais…

Chamei Jordi e lhe informei que não conseguiria chegar pedalando em Nouakchott. Foi difícil ver meu amigo se aprontando para partir sozinho! Fiquei com um nó na garganta. Ele partiu depois de um abraço e da promessa de um reencontro breve. Chorei ao ver meu amigo partir…

Os soldados pararam uma caminhonete. E os 200 km que fiz de carro foram os mais difíceis desde que iniciei a empreitada no Saara. Um sentimento de derrota! Fracasso! Angústia! Foram 3 horas e meia onde meu foco passou a ser o problema, e não a solução! A dor me impedindo de buscar uma saída!

Demorei um tempo para me organizar e me energizar novamente. Era preciso mudar minha atitude. A primeira coisa que fiz foi buscar uma explicação sobre isso. E estava fácil! O assunto está diretamente ligado a minha profissão. Tempos atrás, tive que mudar os ajustes da bike para amenizar uma lesão no pé. Desci o banco e a biomecânica do pedal mudo. Inclinação do corpo, ponto de pressão, alavancas e etc… Certamente, isso sobrecarregou outras áreas, que associado a um torcicolo, causou uma forte contratura que comprometeu a musculatura do trapézio, deltoide, manguito rotador, supraespinhal,  subescapular entre outros. A contratura foi tão forte que sobrecarregou a origem de alguns músculos e certamente exigiram mais dos tendões. Sei bem as consequências de fazer exercícios de maneira inadequada. E na verdade estava tentando administrar os problemas para seguir em frente. Mas chega uma hora que não dá mais! Nesses mais de 3 anos, sinto que, enquanto consigo manter a massa muscular dos músculos da perna, venho definhando na parte superior, principalmente braços e ombros. Estou certamente mais fraco nessas áreas e a bomba estourou.

Estou em fase de tratamento agora. Repouso forçado! Na capital Nouakchott, fui a um ortopedista, tomei mais uma injeção de anti-inflamatório, acionei minha irmã e cunhado que são fisioterapeutas e associado a um repouso, estou me recuperando.

Já me sinto melhor, embora ainda sinto dores neste momento e tento me livrar da sensação de fracasso. O que me consola é um velho ditado chinês que diz:

_  Para se dar um grande salto á frente, é necessário dar uns passos para trás…

 

 

 

 

 

 

Deserto do Saara – Marrocos

Naquele altura, não sabia direito se era um sonho ou um pesadelo! No dia seguinte a inesquecível experiência de passar uma noite com os nômades, eu vencia a última pirambeira da Cordilheira Atlas, para entrar definitivamente, no maior e mais desafiador deserto do mundo, o Saara. Mais uma vez, meu sonho de dar a volta ao mundo de bicicleta, me colocava frente a frente com um grande desafio.

A cordilheira é um dos limites do deserto, já que as nuvens pesadas vindas do oceano não conseguem transpô-la. Ainda lá em cima da montanha, onde o verde predomina, a vista era apavorante. O forte vento varria a areia formando uma enorme nuvem de poeira sobre o monocromático ocre do deserto. Era possível sentir o bafo quente do vento! Excitado pela longa descida, onde a velocidade ultrapassava 60 km⁄h, me lembrava das dificuldades que enfrentei nos desertos da Mongólia, Israel e Jordânia, quando a temperatura ultrapassou 50⁰ C. Sem falar nos escassos pontos de apoio, recapitulando em meus pensamentos, todos cuidados a serem tomados. Um pitada de sofrimento antecipado! E aquela velha pergunta me atormentando: O que estou fazendo aqui?

Mas por outro lado, cruzar o maior, mais quente e temido deserto do mundo, é um desafio que excita qualquer aventureiro! Eu gosto de testar os meus limites, (de vez em quando… kkkk), pois sei que cada obstáculo ultrapassado, me deixa mais forte! A experiência ajuda nessas horas! E tudo aquilo que já enfrentei, associado ao fato de não estar só, me trazia confiança.

É… mas bastou um pequeno acidente na descida para me lembrar que toda experiência do mundo não é garantia de sucesso. Vários tipos de imprevistos podem aparecer, e estava certo que apareceriam… é a rotina de uma viagem de bike! Atropelei um abelha que me ferroou na cabeça, em uma das aberturas do capacete.  Nada grave! Mas isso foi o alerta que precisava para não baixar a guarda! Presta atenção moleque! Foco! Dizia para mim mesmo, lembrando do meu cunhado que sempre me alerta com essa palavra!

Em Guelmim, cidade apelidada de “A porta do deserto”, Jordi e eu fizemos uma bela refeição, ajustamos nosso estoque de água e comida e seguimos, com vento em popa, até a boca da noite, onde acampamos em uma escola.

Alí, conforme minhas pesquisas, tive a certeza que o vento seria um aliado na grande maioria dos dias, e assim se fez! Nunca andei tão rápido! Nossa média até agora no deserto foi de 98 km por dia. Bárbaro!

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Primeira noite no Saara em uma escola religiosa para meninos. Deserto do Saara. Marrocos.

Nos primeiros 12 dias no Saara, não fez muito calor! Mas em uma incrível coincidência, assim que cruzamos o Trópico de Câncer, o bicho pegou! E a partir de então, se esconder do sol na parte mais quente do dia passou a ser inevitável!

Basicamente, o deserto é monótomo, com paisagens cansativas até. Isso muda um pouco quando a estrada ganha um pouco de sinuosidade e ondulação ou quando beira o Atlântico.

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Saara. Marrocos

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Saara. Marrocos.

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Saara. Marrocos.

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Saara. Marrocos.

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Litoral no Saara. Marrocos.

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Litoral no Saara. Marrocos.

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Litoral no Saara. Marrocos.

O Saara marroquino, diferente dos outros desertos que atravessei, é mais habitado e o movimento na estrada é maior. Fomos parados algumas vezes por turistas curiosos que sempre contribuem com nosso estoque de água. Basicamente são europeus de férias com motor-home ou motoqueiros que são atraídos pela rota Paris ⁄ Dakar.

Teve um dia que ficamos sem água. O posto que contávamos para nos reabastecer estava abandonado. Aí, fiz sinal para um caminhoneiro com minha caramanhola em mãos. Pumba! O motorista parou na hora! Em uma das raras montanhas desse trecho, ao alcançar o topo, outro caminhoneiro com seus ajudantes nos convidaram para almoçar e tomar e chá! Para quem me segue aqui no blog, lembra do polvo que ganhei em uma vila de pescadores. Se viajar de bike inspira solidariedade,  em lugares remotos como o Saara, a ajuda é ainda mais presente.

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Motoqueiro inglês que nos brindou com pastilhas isotônicas. Saara. Marrocos.

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Almoçando na beira da estrada com locais. Saara. Marrocos.

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Vila de pescadores. Saara. Marrocos.

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Meu polvo, ainda na mão de um local. Saara. Marrocos.

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Jordi e eu cozinhando dentro da barraca para fugir dos fortes ventos. Saara. Marrocos.

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Polvo com ovo cru. Iguaria caiçara do litoral do Saara. Marrocos.

Em outro vilarejo de pescadores, onde a estrada passa bem ao lado, fiz sinal para duas mulheres, perguntando onde poderia achar comida. Ela fez sinal com as mão para que eu esperasse um minuto e foi chamar o marido. Ele veio, com um sorriso aberto, falando que poderíamos almoçar com eles. Nos levou para dentro de casa, nos deu comida, abrigo do sol e ainda compartilhou um pouco de sua história de vida com a gente. Um momento emocionante onde pudemos buscar em uma simples conversa, momentos de sua vida passada. Uma das mulheres era sua irmã. Que arranhava bem o espanhol… as lembraças culminaram no momento que acharam uma foto dos tempos de criança. Vi emoção nos olhos deles! Me emocionei também… De barriga cheia, voltei ao pedal feliz, sabendo que ao relembrar uma emoção esquecida no passado, pudemos retribuir o favor que nos fizeram.

E talvez seja esse o grande barato da vida! As lembranças… colecionar emoções!

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Vila de pescadores. Saara. Marrocos.

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Momento único! Na parede um trecho do Alcorão. Saara. Marrocos.

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Jordi e eu entre família no Saara. Marrocos.

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Boas lembranças… fortes emoções! Saara. Marrocos.

Devido a monotonia da estrada, fui procurar distração nas pequenas sutilezas do enorme deserto. Abaixo, segue um pouco da fauna e flora do Saara. Imagens que fiz nas pequenas parada para o xixi! A primeira vista, o deserto é inóspito, mas olhando com mais cuidado, encontra-se muita vida! Basta a umidade trazida pelo oceano ou pequenas cuhvas para a vida florescer. O chão é forrado de pequenos insetos como aranhas, formigas, carrapatos e besouros, e meu amigo…. os mosquitos são um inferno! Milhões! Em todos os lugares!!!

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3 camelos… Saara. Marrocos.

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Flores do deserto. Saara. Marrocos.

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Flores do deserto. Saara. Marrocos.

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Flores do deserto. Saara. Marrocos.

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Flores do deserto. Saara. Marrocos.

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Saara. Marrocos.

O vento que ajuda muito quando estamos pedalando, atormenta a nossa vida em todos os outros momentos, nos obrigando a cozinhar dentro da barraca, correr atrás de coisas que ele carrega e prestar atenção para não se molhar na hora de fazer xixi. Em uma vacilada, quando estava desmontando a barraca, cometi um erro grave que resultou em uma vareta quebrada! Mas você não disse que é experiente e coisa e tal? É irmão.. eu disse sim!!! Essa barraca me acompanha desde o Projeto Noruega by Bike (2011). Já montei e desmontei-a, chutando baixo, 350 vezes! (O Projeto da Noruega by Bike durou 100 dias, e o Da China Para Casa By Bike já ultrapassou 1200 dias). Mas também cometo erros infantis, mesmo com toda e experiência do mundo! Fiz uma besteira!!! (Entende-se por cagada!). Pô! Quantas vezes já armei e desarmei a barraca? Onde vou conseguir repor a minha vareta, se nem loja para comprar outra barraca existe por aqui? Bom, dei uma remendada e vou seguir viagem… acho que o remendo aguenta por mais um tempo! Esse são os “imprevistos e erros” que comprovam que a experiência ajuda, mas não garante nada, e que não somos infalíveis! Mas que fiquei puto com meu erro… ahhhh se fiquei!

O que me consolou um pouco, foi ter encontrado um pobre chinês que vinha na direção contrária, se “esfarfando”, para vencer o vento. Daí pensei… poderia ser pior… boraaa!!!!!

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Jordi, o pobre chinês e eu. Saara. Marrocos.

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Jordi e eu comemorando os bons ventos. Saara. Marrocos.

A polícia e o exército nos para em todas as barreiras. São os chamados check points! Diferente de outras áreas militarizadas que atravessei, pelo menos por aqui eles não pedem para tirar tudo dos alforjes. Apenas registram dados do passaporte e fazem interrogatório sobre destino, procedência, profissão e tudo mais… No geral são amigáveis. Para chegar em Dakla, uma importante cidade situada em uma península já no sul do país, seria necessário fazer um desvio de 40 km, que ida e volta se transformariam em 80 km. Sendo assim, metade contra o vento. Então, decidimos seguir viagem até o vilarejo seguinte e de lá, pegamos um táxi coletivo para voltar e visitar a cidade. Tivemos dificuldades em achar um lugar seguro para deixar as bicicletas, mas no final tudo deu certo. Deixamos as bicicletas em um posto. No dia seguinte, depois de dar a visita em Dakla por encerrada, fomos ao mesmo ponto que o táxi nos deixou com a esperança de achar um outro, para voltar ao posto onde estavam as bikes. Acontece que o preço da corrida  triplicou, pois não havia mais ninguém para dividir os custos. Então, lembrei do policial que fez questão de deixar seu numero de telefone dizendo para eu ligar se houvesse algum problema. E ele resolveu nosso problema de maneira incrível! Foi nos buscar com a viatura policial, nos levou até o posto onde deixamos as bicicletas e ainda nos ofereceu o almoço.

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Jordi esperando nossos passaportes em um check point. Saara. Marrocos.

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De carona com os policiais. Saara. Marrocos.

Nas pequenas vilas, tive oportunidade de fazer algumas fotos mostrando a simplicidade e o cotidiano dos habitantes.

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Ciclista marroquino. Saara.

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Feira no Saara. Marrocos.

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Criança marroquina. Saara.

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Simplicidade. Saara. Marrocos.

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Típica vila de beira de estrada. Marrocos. 

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Cidade marroquina. Saara.

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Saara. Marrocos.

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Saara. Marrocos.

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Saara. Marrocos.

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Mulheres marroquinas em Dakla. Saara.

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Feira livre em Dakla. Saara. Marrocos.

Quando deixamos Dakla, nosso objetivo passou a ser alcançar a fronteira entre Marrocos e Mauritânia. E quando chegamos lá, embora soubesse que o pior trecho do Saara estava do outro lado, fiquei feliz com o nosso desempenho até agora.

Atravessar a Mauritânia em duas rodas será sem dúvida alguma, um grande desafio. As dificuldades que enfrentamos até aqui se somam a extrema pobreza, falta de saneamento básico, ainda menos pontos de apoio e todos os mistérios que um dos países mais pobres do mundo, com uma cultura completamente diferente da nossa pode oferecer.

Sobe na garupa e vamos juntos!

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A caminho da Mauritânie. Saara. Marrocos.

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O guerreiro Jordi e a estrada sendo varridos pelo vento. Saara. Marrocos

 

A magia da bicicleta

Hoje vou escrever sobre a mágica que é viajar de bicicleta! Como o fato de estar viajando de bike comove e gera um sentimento de solidariedade nas pessoas na maioria dos lugares onde eu chego! O valor de atos que passariam despercebidos ou sem o devido valor em muitas outras ocasiões, a simplicidade e expectativas mais modestas … Os altos e baixos que mexem com meu humor! E como tudo isso interfere no meu dia a dia e me coloca em contato direto com os locais por onde passo!

Para contar como foi um dos dias mais especiais da viagem, onde tive a oportunidade de mergulhar na cultura nômade, preciso voltar ao almoço do dia anterior…

Paramos para almoçar em uma cidade chamada Mirfelt, no litoral, na parte central do Marrocos. Pacata, ou melhor, quase fantasma, com alguns cafés e restaurantes ao longo da estrada que ao mesmo tempo ceifa e dá vida ao lugar. Os cafés que não estavam fechados tinham um ou outro gatos pingados. Já era bem tarde para almoçar, mais de 15h. E eu estava com uma fome dos diabos!

Enquanto Jordi foi para um lado da estrada, com cara de avenida naqueles poucos quarteirões, eu fui para o outro. Não conseguimos encontrar nenhum restaurante que servisse almoço aquela hora. Seguimos empurrando as bicicletas e um pouco mais a frente, vimos um grupo de estrangeiros comendo em uma mesa na calçada em frente a um restaurante. De longe até parecia movimentado! Fiquei feliz ao vê-los, pois aquilo significava comida! E o morto de fome estava faminto! Aliás, não só eu, Jordi demostrava uma certa irritação. Estava nítido em seus gestos e feições que a fome também o atacava!

Mas… a sorte não queria ajudar de jeito nenhum! Um simples prato de comida! Era tudo que queríamos e buscávamos naquela hora! Era o combustível que ao mesmo tempo nos daria força e aquietação! Éramos como um carro na reserva em frente a bomba de combustível! Prontos para encher o tanque!

“_Só servimos Tajine e nesta época do ano só fazemos por encomenda. Podemos preparar mas levara mais de uma hora!” Ao ouvir isso fiquei puto! Não pelo fato de não ter comida no restaurante aquela hora! Isso é compreensível! Povoado extremamente pobre, baixíssimo movimento e mais de 15h da tarde! Mas eu estava com fome… e nessas horas meu, você vira um animal! Chegar no único vilarejo do percurso com fome e ter a expectativa frustrada é de deixar qualquer faminto ainda mais nervoso! Saí praguejando o dono, o filho do dono, a mãe o pai e fui até a última geração! Em meus pensamentos é claro! Não disse uma palavra, apenas baixei a cabeça e já estava me conformando em comer um pão com polenguinho (único queijo, se é que se pode chamar isso de queijo, capaz de ser encontrado por essas bandas).

Nessa hora as bicicletas entraram e ação! Entre o tempo de chegar, tirar luva, capacete e tudo o mais, os estrangeiros tiveram tempo de nos bombardear de perguntas e ficaram encantados com a nossa história. Quando me viram chateado e frustrado com o fato de não haver mais comida no restaurante, se comoveram e nos convidaram a compartilhar um Tajine de peixe que haviam encomendado pela manhã. A generosidade, como em um passe de mágica, transformou o Tajine de 4 para 6 pessoas. O dono também se solidarizou trazendo uma salada extra, tipo vinagrete, que assim como no Brasil, é muito apreciada por aqui.

Meu humor mudou! Na hora! A raiva se transformou em consolo e um sentimento diferente surgiu! Era a gratidão agora que reinava! Um prato de comida! Mais do que isso! Era o gesto dos novos amigos que me comoveu!

Durante o almoço não tive tempo de pensar no assunto! Fomos bombardeados de perguntas. Aquelas de sempre! Trazendo brilho nos olhos dos nossos novos amigos a cada resposta. Eles estavam a trabalho. Estavam criando juntamente com o governo local, uma estratégia para desenvolver o turismo da região. Na verdade, isso foi tudo que soube deles, um casal canadense, uma jordaniana e um local. O almoço acabou sendo bem divertido! Ficamos com as frutas que sobraram da sobremesa, água e não nos deixaram pagar a conta.

Nos despedimos com abraços calorosos e seguimos a nossa rota.

De volta ao pedal, me peguei pensando em como o fato de viajar de bike, de uma forma ou de outra, comove as pessoas. Mesmo sabendo que não teriam comida suficiente para todos, não exitaram em nos convidar. Foram generosos, simpáticos e demonstraram respeito e admiração. Quais as chances de isso ter acontecido se Jordi e eu chegássemos de carro? Bom, pode acontecer, mas comigo, de bicicleta, acontece toda hora! O Pelé do cicloturimo do Brasil, Antonio Olinto, diz que a bicicleta tem uma magia especial que atrai as pessoas. É isso! Não só atrai como gera compaixão, respeito, admiração, sei lá! Tudo misturado! Muita gente sente a necessidade de ajudar de alguma forma! Quem ajuda fica tão ou mais feliz que o ajudado. O ato de ser generoso conforta, é bom! Neste caso, foi mais um almoço, mas já ganhei grana, GPS, roupas e muito mais. Sobretudo, não é pelo valor… é pelo ato! Cada um ajuda com o que pode ou tem no momento. Eu estou comprovando no meu dia a dia que o mundo é generoso, as pessoas são boas em sua esmagadora maioria. E elas gostam de ser assim! E isso me deixa feliz pacas!

Quem não se sente bem depois de ter ajudado alguém? É ou não é?

Outro dia recebi uma ajuda que mexeu comigo! Era véspera de Natal. Já estava no Marrocos, me aproximando da capital Rabat.

Eu vinha pedalando pensando na minha família. Todos reunidos e é claro que a melancolia apareceu. Eu queria estar lá de alguma forma! Saudade… pensamentos de ternura. Estava ali concentrado no pedal e ao mesmo tempo conversando com meu “inquilino”. Uma música veio a minha cabeça… comecei cantarolar, até que minhas narinas arderam e as lágrimas rolaram.Para estar juntos não é preciso estar perto, e sim do lado de dentro! Me agarrei na frase de Leonardo da Vinci, e segui. Toda aquela melancolia, o tempo nublado o vento contra! Tudo isso deixava o caminho mais difícil. Vinha em meus devaneios meio triste até, aí… em poucos segundos a página virou! Ao mesmo tempo em que o sol venceu as nuvens, estava sendo ultrapassado por uma moto, daquelas que tem carroceria. Um homem sentado, ao me ver, me deu um sorriso e acenou com a cabeça. Li claramente seu gesto de incentivo e respeito. Imediatamente retribui, tirando a mão direita do guidão, batendo a mão serrada no peito! Tum! O cara tão rápido como eu, fez o mesmo movimento, batendo duas vez no peito! Tum tum!

Rapaz! Aquele simples gesto mudou meu ritmo! Um significado imenso! A sensibilidade em ajudar de alguma forma, na única forma que o momento permitiu. Foi o estopim que precisava para me animar. E de alguma forma a minha melancolia foi se transformando em uma saudade gostosa… daquelas que aquece… que eu gosto de ter e sentir!

Jordi e eu, já na boca da noite, escolhemos um bom lugar com vista para o mar para armar as barracas. Cozinhamos e batemos um bom papo durante o jantar. Também discutimos sobre o dia seguinte, como sempre fazemos. A única baixa foi que não tínhamos sinal de internet e não conseguimos prever as pegadinhas meteriológicas causadas pela combinação do inverno, litoral, montanhas e a proximidade do deserto.

Fui dormir contente, com pensamentos confortantes… embora a saudade naquela noite, me deu umas espetadas!

A chuva nos pegou de madrugada! Minha brava barraca resistiu a penca d’água e ao vento forte. Mas meu humor não resistiu! Já estava bravo por ter que guardar a barraca molhada e mesmo não chovendo enquanto desmontávamos acampamento, as nuvens carregadas e escuras, denunciavam a eminência da precipitação. Era possível ver a cortina d’água ao longe… cada vez mais perto!

Bomba! Foi o tempo de desmontar a barraca, e fechar os alforges. Ela chegou! Forte! Gelada! Já estava completamente molhado quando terminei de equipar a bicicleta. Detesto começar o dia molhado! Aceito na boa a chuva me pegar no meio do caminho, mas começar molhado eu detesto! Meu humor ia de mau a pior.

Quando chegamos a praia de Legzira para visitar os arcos, o sol já havia saído, causando alívio e prometendo um dia melhor. A bela paisagem desanuviaram meus pensamentos e rapidamente voltamos a pedalar com alegria. A estrada era bem bonita!

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Paramos para almoçar em Sidi Ifni. Penduramos as barracas para secar e com isso gastamos mais tempo no amoço, comprometendo nosso cronograma. Mas a males que vem pra bem! Ainda meio puto com o tempo “desperdiçado” para secar as tendas, recebemos uma notícia que me deixou ao mesmo tempo feliz e desanimado. Vejam vocês a intensidade e variações dos sentimentos!

Uma das barragens do rio Lkrayama não conseguiu segurar o volume de água da chuva e a ponte na saída da cidade ficou submersa. Embora no primeiro  momento fiquei feliz em saber, já que a ponte fica a mais ou menos 6 km de onde estávamos, o que na verdade se transformariam em 12 km ida e volta (cerca de uma hora e meia devido ao relevo), a decepção veio ao constatar que não conseguiríamos cumprir o planejamento estabelecido para o dia, pois nosso trajeto aumentaria 30 km. Mesmo assim, decidimos por seguir viagem pela rota secundária, mais longa e com relevo muito mais acentuado.

Se as barracas não estivessem molhadas certamente daríamos com a tropa n’água, e teríamos que voltar. E ficar sabendo disso apenas quando nos deparássemos com a ponte, certamente aumentaria a frustração.

Embora o fato de ter que fazer mais força para escalar azucrinou a minha cachola por algum tempo, o dia bonito e a linda estrada entre as montanhas e o mar dissiparam a minha frustração. Resolvi esquecer o fato e me contentar em dormir onde desse, afinal, cicloviagem é assim… improviso e flexibilidade são quesitos indispensáveis!

É! É fácil falar né?! Mas quando fizemos uma curva de 90⁰ para a esquerda, dando as costas para o mar, nos deparamos com as montanhas bem a nossa frente! Quer queira ou não, bate um martírio! Se estivéssemos na outra estrada a essa hora, as grandes montanhas já estariam para trás, e estaríamos chegando ao nosso objetivo do dia… Essa era a nossa zona de conforto! Nossa meta! Não é que me sentia inseguro, mas o imprevisto trouxe algumas incertezas, acentuadas pelas nuvem se formando novamente.

Antes de iniciar a escalada, bem próximo a bifurcação, turistas belgas nos pararam na estrada. Eles vinham no sentido oposto.  Fizeram questão de nos alertar sobre uma nova ponte inundada. Já sabíamos e por isso encararíamos as montanhas. Mesmo assim agradecemos e recarregamos nosso estoque de água, mesmo sem precisar. Fizeram questão! Mas uma vez pude sentir o carinho e o cuidado com a gente.

Enquanto comíamos as frutas que sobraram do almoço, e nos preparávamos psicologicamente para encarar as montanhas, um outro senhor parou para nos dar a mesma informação.

Teríamos uma hora para o pôr do sol! O campo vasto que a primeira vista parece oferecer disponibilidade de sobra para colocar a barraca, ao ser examinado com mais cuidado, revela-se extremamente pedregoso, com arbustos e galhos secos espinhosos, tornando difícil achar um bom lugar para acampar.

Jordi e eu subíamos com determinação! As longas conversas cessaram, e depois de um tempo ligamos o radar para achar um lugar para passar a noite.

No céu as nuvens iam de mal a pior… aumentando o nosso alerta!

Os amigos do almoço do dia anterior, surgiram em um 4×4 no sentido contrário. Pararam e é claro que fizemos uma pequena celebração! Trocávamos abraços quando a chuva veio sem dó! Rapidamente nos despedimos! Eles entraram no carro e partiram. Vi compaixão nos olhos deles. Jordi e eu ficamos debaixo de uma torrencial chuva, sem pai nem mãe!

Jordi avistou uma passagem de água sob a estrada e fomos para lá nos abrigar! Minha preocupação era a chuva parar antes de anoitecer. Ainda era preciso achar um lugar para as barracas.

Para nossa surpresa, um homem com turbante e traje típico também usava a passagem de água para se proteger. Nos recebeu com um sorriso! Logo em seguida chegou Hamsee, um de seus filhos, que conseguia arranhar um pouco o francês.

Enquanto a chuva caía e a enxurrada começava a inundar o nosso abrigo, Hamsee conversava com Jordi, que também arranha o francês. A chuva durou cerca de 15 minutos. Tempo suficiente para eu perceber que ali, com aqueles nômades, tínhamos a chance de dormir abrigados e ainda conhecer de perto um pouco dessa cultura, que aos poucos, vai se extinguindo da face da Terra. Na Mongólia, pude aprender e receber o carinho dos nômades pela primeira vez. Depois foi na Turquia, e tinha certeza que no Marrocos eles não seriam tão diferentes. É um povo hospitaleiro, que mesmo vivendo com simplicidade, sempre compartilham o que possuem.

A experiência ajuda nessas horas. Senti que seríamos bem recebidos! Já tinha passado por alguns momentos semelhantes nesses mais de 3 anos de viagem. Dei um toque para o Jordi perguntar se poderíamos passar a noite com eles. O Catalão se surpreendeu um pouco com meu pedido, mas foi em frente. Hamsee abriu um sorriso e gritou algumas palavras em árabe para seu pai , que examinava as nuvens, com a chuva bem mais amena naquele momento. Com um breve olhar de consentimento e um gesto com a cabeça, o velho deu o sinal afirmativo!

Não demorou muito e nossos anfitriões começaram a demonstrar todo o carinho e generosidade com os viajantes. Eles sabem que como eles, somos também um pouco nômades viajando de bicicleta.

Nos levaram até o acampamento e nos ofereceram leite de cabra que haviam ordenhado a pouco como boas vindas. Eu vi os filhotes sendo soltos quando estávamos a caminho do acampamento. Eles são soltos logo depois da ordenha para mamar e passar a noite ao lado das mães. Assim como na Mongólia, estamos na fase de reprodução. E leite é farto nesta época do ano. Um berreiro angustiante entre filhotes famintos e mães saudosas inundam o acampamento nessa hora! Jordi se mostrava preocupado em saber como pegaria no sono com esse berreiro, enquanto eu ria da sua preocupação! Um jumento, vez ou outra, zurrava, parecendo pedir silêncio, deixando a orquestra ainda mais engraçada e a certo ponto desesperadora para Jordi.

Aos poucos, a medida que mãe e filhote se encontravam, o frenesi ia diminuindo, até que a noite chegou e tudo ficou em silêncio.

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Hamsee, o irmão Petit Garçom (apelido de família) e eu. Acampamento nômade. Marrocos.

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Hamsee ordenhando o nosso leite. Acampamento nômade. Marrocos.

Uma amiga me perguntou como me comunico nessas ocasiões. É claro que se perde muito de detalhes, pois a comunicação é simples, direta! Uma palavra, um gesto, uma mímica, o dedo indicador mostrando algo, dá sentido as perguntas… ao mesmo tempo que dão as respostas. Não é possível se aprofundar! Eu costumo dizer que quando existe o desejo´das duas partes, de alguma forma, a comunicação acontece. Presta-se mais atenção aos detalhes e muitas perguntas torna-se desnecessárias. Neste dia, por sorte, Hamsee e Jordi conseguiram ir mais além, o que deixou o encontro ainda mais rico.

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O anfitrião Hamsee, Jordi e eu. Acampamento nômade. Marrocos.

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Iniciando os preparos para o jantar. Acampamento nômade. Marrocos.

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Os miúdos sendo divididos pelo chefe da família. Ele divide e é o último a se servir. A ideia de ser o mais justo possível. Acampamento nômade. Marrocos.

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A vez do prato principal. Macarrão com cordeiro. Todos comem com as mãos do mesmo prato. Acampamento nômade. Marrocos.

Quando as lamparinas se apagaram, coloquei minha cabeça no travesseiro que fiz com as minhas próprias roupas, e me senti realizado. Foi inevitável pensar nas surpresas da vida! Como um caminho bloqueado, uma decepção momentânea, pode fazer desabrochar um novo horizonte, e se transformar em uma experiência rica e inesquecível! A necessidade de fazer um outro caminho. Um reencontro exatamente no momento em que a chuva caia, que nos obrigou a buscar abrigo. A ponte interditada. O tempo para secar as barracas. Como pequenos acontecimentos vão moldando a história do nossos dias? Se não estivesse chovendo ou se cruzássemos com nossos amigos um quilometro mais a frente, certamente nada disso teria acontecido. Sorte? Universo conspirando? Energia? Sei lá eu! Só sei que a bicicleta é mágica! Como costumo dizer, a bicicleta oferece a velocidade ideal para me colocar em contato com as pessoas, me mostrar e me ensinar muita coisa que ainda preciso aprender ou que me falta para ser uma pessoa cada vez melhor. E dias como esses são a prova disso!

Lá vou eu… colecionando emoções, vivendo um sonho… cada dia mais perto de casa!

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Lugar onde passamos a noite vista da estrada que nos levaria para longe. Acampamento nômade. Marrocos.

No mesmo dia que partimos do acampamento, chegamos ao deserto do Saara. Agora, serão mais de 1000 km para cruzar o maior deserto do mundo.