Deserto de Israel rumo ao Egito

Entre Jerusalém e Eilat, cidade localizada às margens do Mar Vermelho em Israel, bem próximo ao Egito, enfrentei mais uma vez a hostilidade de um deserto, com temperaturas superiores a 40°C, muitas montanhas, e longos trechos sem apoio. No entanto, diferentemente da empreitada no deserto da Jordânia, recebi ajuda em todas as cidades que pernoitei, que além de deixar a minha vida um pouco mais confortável com cama, banho e comida, me proporcionou um contato direto com a cultura local.

Como relatei no post anterior, minha ideia era fazer parte deste trecho pela Palestina, me poupando pelo menos, 45 km de pedal, ou meio dia de sofrimento no calor escaldante. Mas um atentado deixou a região em estado de alerta, e pensando e minimizar o risco, dei uma volta maior e fiz o percurso todo por Israel.

Antes de deixar Jerusalém, estudei a rota, cataloguei os quilômetros entre as cidades e/ou pontos de apoio e organizei meu estoque de comida e água. Não corri riscos com meus suprimentos, mas trabalhei sempre no limite para pedalar com o menor esforço possível. Gastar energia desnecessária neste tipo de clima é muito perigoso. Em geral, não me importo em pedalar mais carregado para dar qualidade as minhas refeições. Mas desta vez fui econômico, e só carreguei o básico. Estava tudo certinho e organizado na minha cabeça! Gastaria cinco dias de pedal (4 noites na estrada) e teria hospedagem na casa de um membro do Warmshowers (o velho e bom site de hospedagem para quem viaja de bike) na segunda noite.

Mas meu amigo! Todo planejamento fura! Por mais que tudo esteja certinho na cachola, em uma viagem de bike sempre rola surpresas! E quando o planejamento fura, é preciso contar com Deus e Nossa Sra. Aparecida! kkkk … Tô zoando!  Não… quer dizer… isso também, se você acredita… Mas quando o planejamento fura, o negócio é manter a calma e focar no problema, isso, além de um pouco de intuição e experiência, geralmente resolvem o problema.

Ao final do meu primeiro dia, estava pedalando em uma estradinha bem no meio da fronteira entre Israel e Palestina. Zona de alto risco! A estrada toda ladeada com cerca de arames farpados, blocos e muros de concretos e sinais de acesso proibido. Os únicos carros que trafegavam ali eram do exército de Israel. Guaritas e brigadas militar a cada poucos quilômetros. Ficou claro que mesmo se eu achasse meio metro quadrado entras as cercas para armar a minha barraca, não me deixariam acampar ali. Não me restou alternativa e o jeito foi continuar pedalando até que a estrada se afastasse da divisa. A noite caiu, ascendi as lanternas da bike e segui, num sobe e desce desgraçado!

Seguindo a rota no meu GPS, notei a estrada se afastando da zona de risco e lá na frente, um conjunto de luzes anunciava civilização. Era a minha chance de achar um lugar para montar a barraca ou armar minha rede. Meu GPS, apesar de mostrar um conjunto de meia duzia de ruas, não dava nome a localidade, o que me fez suspeitar ser uma base militar, e se fosse, teria que pedalar um pouco mais, pois não me deixariam ficar ali.

Já se passava das 22h, e meu velocímetro já apontava 101 km quando me deparei com uma cerca e um portão fechado na entrada do lugar. Não me pareceu base militar, o que me encorajou dar uns berros para chamar a atenção do segurança que estava dentro da guarita a uns 30 metros do portão. Demorou um pouco, tempo suficiente para eu ficar apreensivo… Mas o sujeito abriu!

Para a minha surpresa estava em  Lahav Kibutz! Kibutz é uma fazenda comunitária israelense que oferece trabalho, moradia, estudo e iguais condições aos seus integrantes. Já vinha ouvindo falar deles, e queria muito conhecer! Na minha cabeça, era uma comunidade fechada, com vida simples e pessoas alternativas ou religiosas… Mas que nada! Carros sofisticados nas garagens, internet, equipamento agrícola de última geração, salas de aula equipadas e todas as modernidades que as cidades oferecem. O legal em viver em um Kibutz é que todos os recursos são compartilhados, com uma estrutura similar ao socialismo. O que para muitos é tida como utopia, aqui rola legal!

Os caras me ofereceram banho, comida e um quartinho bagunçado com ventilador para eu passar a noite!

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Coloquei o colchonete aí no meio e dormi sem problemas depois de pedalar mais de 100 km. Lahav Kibutz. Israel

No segundo dia, segui o meu plano! Levantei bem cedinho, pedalei com o vento nas costas ajudando, fiz uma longa parada na parte mais quente do dia em um pequeno bosque com árvores na beira da estrada, e cheguei no final da tarde, na casa de Tamir do Warmershowers. Ele, a esposa Adi e a filhinha Zivi, vivem em Midreshet Ben Gurion, uma cidade no meio do deserto de Negev, a beira de um vale maravilhoso. A cidade é um centro avançado de estudos sobre o deserto. Quase todos que vivem na cidade são professores, mestres, doutores ou pesquisadores, com projetos de pesquisas que buscam tirar o máximo que um deserto pode oferecer. Acabei ficando por 3 noites com a família, e foi super legal! Me fazendo sentir em casa, o casal me proporcionou viver a cultura local e conhecer de perto seu tranquilo e simples estilo de vida. Tive tempo para curtir o Vale Zin, descansar e repor as energias e o melhor, comi bem e consegui mais uma receita para o meu futuro livro. A família vive em forma de cooperativa, fazendo trabalhos em conjuntos. Um deles, eu achei bem interessante. Seis famílias cuidam de algumas cabras, e um dia por semana cada família fica responsável em tratar e ordenhar os animais. Com isso, dividem os gastos, trabalham apenas um dia na semana e se abastecem de leite até a semana seguinte. Genial! Fui com eles ordenhar e fizemos um queijo com a produção. Fiquei surpreso com a simplicidade do processo e com o sabor! E o melhor, rola com qualquer tipo de leite! Segura aí que no livro vai rolar a receita!

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Tamir, Adi e Zivi trabalhando na ordenha das cabras. Midreshet Ben Gurion, Israel.

 

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Vale Zin, deserto de Negev, Midreshet Ben Gurion. Israel

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Cervos selvagens no Vale Zin, deserto de Negev, Medreshet Ben Gurion, Israel.

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Cervos no desfiladeiro do Vale Zin, deserto de Negev, Israel.

Tamir conseguiu através de um amigo, um lugar para eu passar a noite em Mitzpe Ramon, cerca de 35 km da casa dele. O proprietário estava viajando. A namorada do cara foi me buscar na entrada da cidade e me deixou na boa, passar a noite sozinho no apto. do namorado com ar condicionado e tudo o mais! Neste dia, pedalei apenas no período da tarde. Apesar da curta distância, levei quatro horas para cumprir o percurso… subidas longas e váaaarias paradas para curtir o visual.

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Pedal no deserto de Negev em Israel.

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Vale Zin, deserto de Negev, Israel

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Deserto de Negev, Israel.

Meu penúltimo dia foi o mais bonito. Cruzei paisagens incríveis…

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Deserto de Negev, Israel

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Deserto de Negev, Israel.

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Deserto de Negev, Israel

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Chegando em Eliat, às margens do Mar Vermelho, Israel

E no meu último dia, depois de passar a noite na rede, na bifurcação entre as estradas 40 e 12, em frente a um restaurante, segui para o mais difícil dia desta perna da viagem. O sobe e desce continuou exigindo, só que desta vez, para piorar, o vento soprou forte e contra, e não encontrei uma sombra para descansar no meio do dia, me obrigando a pedalar debaixo de um baita solzão! Cheguei em Eilat 13:45h. Fervendo! Transpirando mais do que tampa de marmita, como diria meu pai.

Eilat fica no extremo sul de Israel bem perto da fronteira com o Egito. Com cerca de 60 mil habitantes, a cidade chega quadruplicar a população em alta temporada. Extremamente turística devido suas belezas naturais como o mar vermelho e seus recifes de corais e as altas montanhas adjacentes, a cidade é um dos points preferidos de famílias em busca de um mergulho relaxante no mar e jovens em busca de badalação. A cidade ferve! Lembra um pouco o Guarujá, para nós de São Paulo. Manja o esquemão?!

Já estou com o visto do Egito pronto. Apliquei em um dia e busquei no ouro.Neste tempo, encontrei Fabiana, uma brasileira gente fina que trabalha no hotel que me hospedei. Ela fez as honras de anfitriã, me descolando desconto na hospedagem, e ainda me levou para um rolê pela cidade depois do trabalho! Muito obrigado pelo carinho Fabiana! Você é mais uma amiga que fiz na estrada, para a vida toda!

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Agora estou indo para o Sinai, no Egito. Uma área conturbada, com forte presença de terrorista. Estou estudando a melhor opção de cruzar a região. Minha ideia é levantar algumas informações na fronteira e tomar a decisão de pedalar ou usar um meio de transporte mais rápido. Todo cuidado é pouco! Depois de atravessar o Mar Vermelho as coisas tendem a se acalmarem novamente.

Apesar de continuar pedalando no deserto, estou super ansioso para desvendar o Egito com a minha bicicleta! Templos, museus, pirâmides!! Vamos juntos para a terra dos Faraós! Sobe na garupa, se segura, e vem comigo! O bicho vai pegar!!!

 

 

 

 

 

 

6 comentários em “Deserto de Israel rumo ao Egito

  1. maria silvia cabrini disse:

    Muito lindas as paisagens que passou. Histórias muito marcantes as que tem vivido, né!!! Pegue todo o cuidado que já costuma ter e multiplique por 10 hein!!!! Beijo, tô rezando pra N. S. Aparecida e todos os Santos por aqui!!!rsrsr

  2. Cynthia disse:

    Demais Tato!
    Seguimos na garupa!
    Borá pro Egito!
    Beijos

  3. leonor tanuri magalhaes disse:

    tamo junto Tato na garupa

    legal bjhs saudade

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