Um prato que me fez chorar!

O Líbano continua me emocionando muito! Me conectando com um passado distante que fazem meus olhos transbordarem.

Quem me conhece de longa data sabe da relação que eu tive com meu Vô Luis. Mais que um Avô, era um grande amigo e confidente. Ahh!!! Quantos segredos e quanta cumplicidade! Eu sempre soube o lugar onde ele escondia a pinguinha santa de cada dia dos olhos atentos da minha avó, e quando estava com sede, ele me pedia para buscar água! ” _ Ô Fião, busca uma água lá pro Vô! kkkk

Nascido em 1922, o Vô, como era carinhosamente chamado por todos, herdou muitos hábitos, como não podia ser diferente, de seus antepassados libaneses. Muitos desses costumes, eu e minha família herdamos também. Carne crua, mal passada e com gordura. Nosso churrasco é assim… e hoje fico feliz em ver minha filha e meus sobrinhos se esbaldando na picanha mal passada… tipo boi berrando, manja? kkk É claro que nos padrões de hoje, reduzimos a gordura e a carne crua, mas essas delícias continuam nos tentando, seja no quibe cru ou na suculenta gordurinha da picanha, contra-filé ou costelinhas…

Na minha infância e adolescência, meus avós moravam em um sítio que abastecia a minha casa com frutas e verduras, leite e queijo fresco, ovos e tudo mais que uma pequena propriedade podia produzir. No final do ano, era comum abater animais para a nossa ceia de natal e ano novo. Peru, frango, porco, carneiro!

Eu devia ter uns 16 ou 17 anos. Me lembro daquele dia como se fosse ontem! Foi meu primeiro pileque em família… Guardado em segredo por longa data!

Enquanto minha avó caprichava nos assados e preparativos para a farta mesa de natal, o Vô era responsável pelo abate e dissecação dos animais com seu fiel companheiro Domingo Rita. E naquele ano, eu fui promovido a auxiliar de ajudante. Depois de abatido, o animal era pendurado em uma mangueira e o trabalho era iniciado, sempre com uma garrafa de cachaça ao lado (para dar sabor e maciez a carne kkk). Atento, enquanto acompanhava o aço da navalha destrinchando a carne fresca, era responsável por encher o copo dos dois parceiros. Ali, aprendi a lição que os trabalhadores devem ser bem tratados! kkk. Cada etapa cumprida, uma golada! O animal que ele mais gostava de trabalhar era o carneiro. Simplesmente por um motivo! O fígado!

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Libanês abatendo um animal da mesma forma que meu avô fazia debaixo da mangueira do Sítio Progresso, na cidade de Oriente-SP. Líbano 

Eu sempre conto para meus amigos que meu avô gostava de comer fígado de carneiro cru, e todos ficam perplexos ou não acreditam muito na história. Reconheço que é exótico! Sofisticado e requintado, este prato não está ao alcance de todos, pois exige um paladar apurado e muita coragem! kkk. Nunca vi isso em lugar nenhum, a não ser debaixo da mangueira do Sítio Progresso, tornando difícil comprovar a história. E muitas vezes passei por mentiroso.

Embalado com os goles de cachaça, criei coragem e experimentei! Meio que querendo dar uma de bom, impressionar meu Vô e gostando da iguaria, abusei da cachaça e do aperitivo, que resultaram em ressaca e diarreia brava no dia seguinte. Nunca vou esquecer essa história!

Bom, enquanto esperava pelo encontro com a minha família libanesa no final de semana, fiz um passeio de 3 dias pelo interior visitando as principais atrações turísticas do país com meu anfitrião Micho Saliba. Sabendo do meu interesse por gastronomia, Micho também me levou a restaurantes ótimos, com vários pratos típicos da cozinha libanesa que todos conhecem… Quibe cru, tabule, homus, esfiha, falafel, fattoush, labine (coalhada), cafta, charuto e muitas outras delícias, como pão, azeitonas e azeites. No entanto, em um típico restaurante nas montanhas perto de Baskinta, terra natal dos meus bisavós, fui surpreendido com fígado e gordura de carneiro crus!

Quando vi a iguaria, me emocionei, e mesmo antes de provar, pude sentir o gosto característico do fígado se desmanchando na boca! Gelado, o fígado combina com a textura macia e suculenta da gordura, que possui um sabor particular, que a princípio me lembrou um bom azeite de olivas. É uma gordura específica, da parte traseira perto das genitais.

Reencontrar essa iguaria, me lembrou histórias que foram puxando outras histórias. Minha memória reativou sentidos e sentimentos e a saudade dos meus avós! E como costumo plagiar de algum lugar, lá vai uma frase que acabei de inventar (kkk): Ter saudade é muito melhor que caminhar sozinho!

Feliz por estar no Líbano, feliz por reconectar minha família depois de 100 anos, feliz pela oportunidade de ver, viver, sentir e se emocionar!

Para aqueles que não acreditavam, ou que só acreditam vendo! O São Tomé e Cicloturista Aurélio Magalhães, mostra para você! Bom apetite!

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Fígado e gordura de carneiro crus. Iguaria típica do Líbano.

 

 

8 comentários em “Um prato que me fez chorar!

  1. Claudia torres disse:

    Que maravilha!!!
    Esta viagem está encantadora!!!
    Sei muito bem o que vc sente, Qdo fala de seus antepassados libaneses !!!
    Eles são especiais , tb lembro do meu avô comendo kibe cru, com cebola e azeitinho……
    MaRavilha!!!
    Deixavam o leite coalhando do lado de fora da casa para preparar uma coalhada deliciosa ( não sei como chama direito).mas lembro de minha avó, cuidando desse leite !!Enfim, só lembranças doces, e sempre associadas à mesa farta e família reunida, assim como é na sua família!!!
    Um gde Ab e venha com muitas receitas novas que queremos provar!!!
    Claudia

  2. Will Rocha disse:

    Putz… Que texto.
    Emocionei lembrando do Vô!!!

  3. leonor tanuri magalhaes disse:

    OLALA !!!!!!! QUE SAUDADE BATEU QD VC ME FEZ LEMBRAR DAS DELICIOSAS GULOZEIMAS ARABES QUE MAMAE FAZIA PARA AGRADAR PRINCIPALMENTE A VC AURELIO TANURI QUE SEMPRE FOI PUXA SACO DE SEUS AVÓS
    TB ME EMOCIONEI BJS

  4. Cynthia disse:

    Que texto demais! Que saudade do vô!

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