Capadócia: Mais um sonho realizado!

A chácara onde Eric e eu estamos hospedado fica na cidade de Nar, cerca de 16 km de Goreme, o coração da Capadócia. É um lugar simples, aconchegante, que nos possibilitou um bom descanso, apesar do banho de mangueira de água fria.

Semih, o dono da chácara, liberou a nossa estadia por tempo indeterminado e com isso tivemos tempo para conhecer as principais atrações da região com muita calma. Eric vai esperar a namora e deve ficar por aqui até o final do mês. Eu vou meter o pé na estrada e seguir para o sul da Turquia.

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A simpática cidade de Nar, Capadócia – Turquia.

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Goreme, Capadócia – Turqia

Depois de dois dias usando a bike para conhecer a região, optamos em alugar uma scooter para visitar as atrações mais distantes (17 euros por dia). Entre Nar e Goreme é preciso atravessar uma grande montanha e a região é super ondulada. A atração mais longe que visitamos foi a Cidade Subterrânea de Kaymakli, 28 km distante da nossa chácara. Também visitamos o Castelo de Uçhisar, os museus a céu aberto de Goreme e Zelve, a cidade de Avanos, alguns vales e ainda fiz um belo passeio de balão.

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Eu e Eric explorando a Capadócia. Turquia.

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Goreme, Capadócia – Turquia.

 

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Eric e eu na Scooter em frente a chácara de Semih, em Nar, Capadócia, Turquia.

A dica para economizar é comprar um cartão que permite acesso aos principais museus da região. Com direito a 7 atrações, o passaporte sai por 15 Euros mais ou menos. Sei que existe um outro tipo de cartão que da direito a visitar todos os museus do país. Vale a pena dar uma pesquisada se tiver a intenção de vir para cá. Para economizar com o passeio de balão, caso não esteja incluído no seu pacote, vá direto a uma operadora. Eu consegui 33% de desconto na Anatolian Ballons, e acabou saindo por U$ 100, com direito ao transfer de ida e volta, um lanchinho de desejum, champanhe ao final do passeio e um certificado. O voo dura entre 45 minutos e uma hora, de acordo com as condições do vento. Aliás, fique esperto e não deixe para fazer o passeio no último dia. Meu passeio foi adiado devido aos fortes ventos. Eu não costumo fazer propaganda negativa aqui no meu blog, mas se estiver afim de fazer como eu e Eric, e alugar uma moto ou coisa assim, NÃO vá ao HITCHHIKER TOUR. Além de impessoais, são extremamente mal educados, trapaceiros e mentirosos. Não vou entrar em detalhes… mas fica a dica! Já na Anatolian Ballons, pode ir sem medo!

Se você tiver tempo de conhecer tudo, vale a pena! Mas se estiver com tempo apertado sugiro o seguinte:

Existem mais de 30 cidades subterrâneas na Capadócia. As mais famosas são Derinkuyu e Kaymalkli. Embora a primeira seja mais profunda, a segunda é maior e mais interessante com 8 andares abaixo do nível do solo, sendo 4 abertos ao público. Com passagens estreitas, sinuosas, com longos túneis baixos e inclinados, as cidades subterrâneas foram construídas para servir de abrigo e esconderijo quando exércitos inimigos se aproximavam. Equipada com estábulos, adegas, armazéns, cozinhas, salas de repouso, quartos e igrejas, estima-se que mais de 3000 pessoas habitaram a cidade subterrânea de Kaymakli. O calcário poroso predominante na região da Capadócia é de fácil escavação, e sua superfície exótica é desenhada por formações geológicas únicas, provenientes de atividades vulcânicas e pela erosão da chuva e do vento durantes séculos. Sugere-se que as cavernas remontam a época dos Hititas, 1300 a.C., sendo expandidas ao longo dos séculos. Vale a pena contratar um guia ou fazer como fizemos, seguir um grupo guiado e entender melhor como funcionava o sistema de fuga e proteção, ventilação, e como supostamente as pessoas se organizavam para se alimentar e viver longos períodos lá dentro.

O Castelo de Uçhisar é o ponto mais alto da Capadócia, pelo menos turisticamente falando. De origem vulcânica, lembra um cenário de ficção científica, ou simplesmente um enorme formigueiro. O castelo oferece a melhor vista do pôr-do-sol e a entrada sai por 2,5 euros. Não está incluído no passaporte que mencionei acima.

O museu de Goreme faz parte do Patrimônio Mundial da Unesco desde 1984. O acervo é formado basicamente por igrejas escavadas nas rochas, com destaque para a Igreja Escura, a mais conservada e colorida, com painéis que ilustram acontecimentos bíblicos. Eu curti mais o Museu de Zelve. Lar de uma das maiores comunidades da região, o Museu a céu aberto de Zelve só foi desocupado na década de 50, devido ao risco de desabamento causado por erosões. O museu está localizado em 3 vales interligados que são protegidos por montanhas íngremes de coloração avermelhadas. As montanhas foram escavadas e transformadas em aldeia. É o melhor exemplo da verdadeira arquitetura local.
Todos os vales possuem formações geológicas bem interessantes. Mas a melhor maneira de apreciá-los é fazendo um passeio de balão! E é isso que a Capadócia oferece de melhor. É claro que as vistas de outros pontos são realmente bastante interessante e se vê tudo que é visto de cima do balão. Inclusive existe alguns cafés na beira da estrada com excelentes vistas. Mas de balão a perspectiva muda! O balão chega por cima, bem pertinho das formações, passa devagar, oferecendo tempo para apreciar os detalhes. Sem falar na vista do sol nascendo! Uma energia boa! Eu fiz o passeio na noite de lua cheia! Sensacional! Depois o sol veio com tudo, ajudando a espantar um pouco do frio que fez a noite. Aliás um frio inesperado onde a geada pegou os agricultores da região de surpresa, queimando os brotos da parreiras e de diversas árvores frutíferas que eclodem nesta época do ano.
O passeio de balão é caro! Mas posso dizer que vale apena! Assim como valeu cada quilômetro pedalado para chegar na Capadócia!
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Vista de Goreme a partir de Uçhisar, Capadácia. Turquia.

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Castelo de Uçhisar, Capadócia. Turquia.

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Éric e eu desbravando a região da Capadócia. Turquia.

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Formações geológicas típicas da Capadócia. Turquia. 

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Museu a céu aberto de Goreme, Capadócia. Turquia.

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Capela no museu de Goreme, Capadócia. Turquia.

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Afresco do Museu de Goreme, Capadócia. Turquia.

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Museu a céu aberto de Zelve, Capadócia. Turquia.

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Aldeia que faz parte do acervo do museu de Zelve. Capadócia. Turquia.

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Formações geológicas do Vale de Zelve, Capadócia. Turquia.

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Um dos melhores exemplo da arquitetura de Capadócia. Museu de Zelve. Turquia.

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Passeio de balão em noite de lua cheia. Capadócia. Turquia.

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Sol nascendo. Capadócia, Turquia.

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Balão entre as formações geológicas típicas da Capadócia. Turquia.

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Mais um sonho realizado! Passeio de balão na Capadócia. Turquia.

 

 

Pedal entre Istambul e Capadócia

Depois de 18 noites em Istambul, já era tempo de voltar para estrada. O desafio agora seria percorrer cerca de 670 km até a Capadócia, o último trecho em que Eric e eu percorreríamos juntos, totalizando mais de 1500 km desde que deixamos Tessalônica (Grécia). Fizemos uma bela parceria que vai deixar saudade! Eric é mais um amigo que fiz para a vida toda! Tenho certeza que o verei por mais vezes, e fico na esperança de um dia podermos pedalar mais uns quilômetros juntos. Agora teremos alguns dias para aproveitar juntos a Capadócia. Queria deixar um abraço também para Marc, outro ótimo companheiro e amigo, que percorreu boa parte desse percurso com a gente! Valeu Marc! Valeu Eric! Muito obrigado! Nos vemos na Alemanha!

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Eric, eu e Marc, no nosso primeiro dia de pedal. Tessalônica, Grécia

A viagem começou com uma travessia de balsa no Mar de Mármara entre Istambul e Mudanya. Foi a maneira que encontramos para evitar o trânsito carregado das estradas na saída de Istambul. Por 1 minuto, perdemos a balsa das 12:30h e só embarcamos ás 15:30h. De Mudanya seguimos para a região metropolitana de Bursa. Com aproximadamente 2 milhões de habitantes, Bursa tem um entroncamento rodoviário bastante movimentado, nada agradável de se pedalar. A coisa piorou um pouco por que chegamos já escurecendo, no horário do rush, com os carros em alta velocidade tirando finas, nos obrigando a pedalar junto ao meio fio. Neste pedaço não havia acostamento. Foi o trecho mais perigoso de todo o percurso.

No outro dia, depois de dormir na área externa de um Café, debaixo de uma cobertura ao lado de uma rua barulhenta, deixamos Bursa. Em poucos quilômetros entramos em uma estradinha secundária e começamos a escalar. A vista de um pico nevado de uma montanha ao longe e o dia lindo amenizavam o sofrimento. Embora a estradinha fosse menos movimentada que a autoestrada, o tráfego de caminhões pesados exigia atenção. Apenas um ou outro dia percorremos estradinhas mais tranquilas. Não posso dizer que este trecho entre Istambul e a Capadócia foi um pedal super agradável. Depois de pequenos trechos em estradinhas secundárias, caímos novamente na autoestrada. Ainda bem que na maioria das vezes o acostamento era suficientemente largo, limpo e de boa qualidade.

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O lindo visual amenizou um pouco o sofrimento da nossa grande primeira escalada logo após deixarmos a região metropolitana de Bursa, Turquia.

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Um dos poucos dias de total tranquilidade nas vias secundárias da Turquia.

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O devagar e o quase parando! Grande encontro nas estradas da Turquia.

 

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Eric pedalando no acostamento de uma autoestrada nas proximidades de Aksaray, Turquia.

Entre Istambul e a Capadócia, saímos do nível do mar e chegamos a 1350 metros de altitude.  Sempre com ondulações. Sobe até 500, desce até 300 metros, no outro dia, vai a 1000 e volta aos 500 metros. E assim foi… Sempre escalando uma ou duas grandes montanhas por dia. Foram quase 5500 metros de subida total neste trecho. Para piorar, a paisagem foi super monótona, com raríssimas exceções! Um vasto campo desmatado, hora com plantações de trigo, hora com um poeirão danado causado pela extração de areia e pedras pelas fábricas de cerâmica ou cimento. Praticamente sem florestas nem árvores. Só no penúltimo dia de viagem, nas proximidades de Akasaray, a paisagem voltou a ficar agradável com montanhas altas, cheias de neve. Mas a estrada continuou na mesma! Ondulada, e um tanto quanto perigosa para ciclistas. Ahhh! Teve alguns dias que o pôr-do-sol foi bem legal!

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Eric e eu comemorando o final de uma grande subida logo após Polatli, Turquia.

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Sobe e desce dos diabos nas estradas da Turquia.

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Visual típico do interior da Turquia. Morros e áreas desmatadas para o cultivo predominante de trigo.

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Pôr-do-sol em Aksaray, Turquia.

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Nas estradas da Turquia.

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Último dia de pedal antes de chegar na Capadócia, Turquia.

Em Sereflikoçhisar, após dormimos em uma mesquita, o pneu de Eric amanheceu murcho. Não tivemos problema em remendar o furo. O problema foi recolocar o pneu na roda. Extremamente apertado (justo, quase sem folga para encaixar o pneu), que até quebrei uma espátula (ferramenta para deslocar o pneu do aro), toda vez, na parte final do processo, acontecia o que o mundo do ciclismo conhece como “snake bite”, ou “picada de cobra”. Isso acontece quando a câmara de ar sofre uma “mordida” do pneu e do aro, causando dois furos, muito parecidos com as marcar de uma picada de cobra. Mesmo tomando cuidado, tivemos que refazer o processo por 8 vezes! É mole? Tudo bem que 4 furos foram feitos por um mecânico de motocicletas que surgiu do nada e se propôs a ajudar. Como já havíamos tentado por quatro vezes, resolvemos apostar na experiência do sujeito! Resultado: O cara deixou mais 4 furos na câmara. Foi um dia cansativo! Estávamos no pátio de uma mesquita, era sexta-feira, o dia mais importante da semana para os muçulmanos. Todos que chegavam para a cerimônia religiosa faziam as mesmas perguntas, mesmo sabendo das respostas, pois já estávamos ali tempo suficiente para todos saberem tudo ao nosso respeito. Estávamos irritados com os insucessos nos reparos do pneu… muita gente colocando a mão na bike… falando alto… dando palpites em turco… como se o volume da voz fosse a chave para que entendêssemos o idioma. É igualzinho quando um brasileiro encontra um gringo! Já viu? O cara manda o português pausado, falando auto pra burro, como se resolvesse! Kkkk

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Um dia para ficar para a história! 8 furos em uma só câmara de ar… Haja incompetência! Sereflikoçhisar, Turquia.

Só por questão de curiosidade, já estou perto de pedalar 30.000 km e meu pneu furou apenas uma vez… Nem gosto de falar muito… Sorte né?! Insha’Allah (“se Deus quiser” ou “se Alá quiser” em turco), continue assim! Sai pra lá olho gordo! Pé de pato, mangalô, três veis! Saravá meu pai!

O dia foi tão cansativo psicologicamente que resolvemos ficar e dormir no confortável carpete da mesquita por mais uma noite. A parte boa desse perrengue foi conhecer Mesut, o Imame da mesquita. O Imame é o pregador das cerimônias religiosas do Islã. O Imame está para os muçulmanos assim como o padre está para os católicos.  Além de nos abrigar na mesquita, Mesut nos ofereceu apoio em tudo que precisamos. Foi um encontro muito especial. As crianças também foram um caso à parte! Passaram o tempo todo conosco, tentando um diálogo, fazendo perguntas usando o tradutor do celular e brincamos de bola.

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As crianças de Sereflikoçhisar com a minha bicicleta no pátio da mesquita durante a cerimônia religiosa. Turquia.

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Café da manhã com a família de Mesut (camisa branca). Sereflikoçhisar, Turquia.

De volta a estrada, finalmente alcançamos o lago Tuz Golu, um lago salgado que fica entre a capital Ancara e Aksaray. Já cansado da monótona paisagem, apostávamos em um visual mais atraente quando percorrêssemos a extensão do segundo maior lago do país, responsável por produzir 70% do sal consumido na Turquia. No entanto, acabou sendo uma decepção. Com cor opaca e sem vegetação nas margens,  o lago é muito pouco atraente. Feio que dói, coitadinho!!!

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Lago salgado Tuz Golu, o segundo maior do país, responsável por produzir 70% do sal consumido na Turquia.

Se por um lado a estrada desmotivava, a  população foi um fator motivacional importante. Seja em encontros casuais ou via sites de hospedagens, sempre encontramos pessoas hospitaleiras e dispostas a ajudar. Foi assim que conseguimos ter qualidade gastronômica neste trecho da viagem. Demos sorte em encontrar um ou outro restaurante de beira de estrada onde também comemos bem! Conseguimos hospedagem quase todas as noites. Só um dia, em Sivrihisar, tivemos que nos virar sozinhos. Além de chegarmos na boca da noite, a chuva atrapalhou na procura de ajuda e acabamos dormindo em um parque, dentro de uma casinha. Dormimos em salão de posto de gasolina, debaixo de uma cobertura de um café, dentro de mesquitas, em um posto de plantão 24h de resgate de autoestrada, e nas casas dos locais. Não pagamos por hospedagem e usamos a barraca apenas uma vez, mesmo assim, em um espaço cedido pelo dono de um restaurante. Fomos sempre recebidos com muito carinho!

 

 

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Dono de um Café muito simples que Eric e eu usamos para descansar depois de uma longa subida. Turquia.

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Eric e eu brindando a vida com um chay em uma de nossas paradas de descanso. Turquia.

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Beyti Kebab – Carne fatiada enrolada em uma massa de parecida com pão sírio, regado com molho de tomates. Arroz, pimenta assada e coalhada de acompanhamento. restaurante em Polatli, Turquia.

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Eric e eu devorando um extra big “pide”, bem parecido com nossa esfiha, em um restaurante de Haymana, Turquia. 

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Feijão branco, salada e coalhada preparados pela mãe de Nazim. Eskeshir, Turquia.

Para fechar com chave de ouro, a hospitalidade turca nos brindou com uma chácara, onde Eric e eu estamos hospedados. Nazim, um amigo que nos recebeu em Eskisehir por duas noites, cunhado de Burak, do warmshowers, que nos hospedou em Bozuyuk, conseguiu desenrolar uma chácara na cidade de Nar, já na Capadócia. Nazim cuidou de tudo e quando chegamos, duas famílias estavam nos esperando com um delicioso jantar. O dono da chácara, Semih é professor de música na mesma escola em que Segvi da aulas de inglês. Os dois já trabalharam com a mãe de Nazim, que também deu aulas neste mesmo colégio. E assim, estamos instalados e prontos para explorar uma das regiões mais visitadas da Turquia, a Capadócia.

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Chácara em que Eric e eu estamos hospedados na região da Capadócia. Nar, Turquia.

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Semih preparando o jantar no dia de nossa chegada em Nar, Turquia.

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Mesa farta para recepcionar a nossa chegada! Obrigado Segvi, Semih e família. Nar, Turquia.

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Clássica foto com as famílias de Segvi e Semih no jantar de boas vindas. Nar, Turquia.

 

 

Em Istambul: Na sombra dos atentados

Cheguei a Istambul na noite anterior ao atentado que matou 4 pessoas e deixou mais de 30 feridos em uma das ruas mais importantes da cidade. Ainda trazia na bagagem a pesada notícia de outro atentado, ocorrido dias antes na capital Ancara, que deixou mais de 125 feridos e 34 mortos depois que um carro bomba explodiu. Para piorar a situação, no final de semana, os Curdos comemorariam a chegada da primavera, um evento que gerou uma tensão enorme nos habitantes da cidade. O “Noruz” é uma festa tradicional Curda que acontece a mais de 3000 anos em comemoração ao Ano Novo no calendário Persa. Por ser uma festa originalmente iraniana, histórico adversário político dos turcos, e por muitos outros motivos, o governo turco proíbe essa comemoração. Considerados a maior nação sem estado do mundo, os Curdos são um grupo étnico nativo do Curdistão, que inclui partes dos territórios do Irã, Síria, Turquia, Armênia e Geórgia, onde 14 milhões deles vivem no momento. O grupo terrorista separatista Curdo (PKK),que reivindicam a criação do seu Estado próprio, responsabilizados pelos atentados, prometiam revidar a represália do governo com mais ataques.

Essa ameaça gerou forte tensão na população que praticamente não saiu de casa no final de semana. E foi assim, intocado na casa de Oz Gun, do warmshowers, que Eric e eu passamos os primeiros dias em Istambul. Depois, ainda com medo, fomos conhecer alguns lugares fora do roteiro turístico e longe das zonas de risco, sempre evitando o transporte público, obrigando-nos caminhar muito.

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Istambul, Turquia.

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Fortaleza Rumelihisari, Estreito de Bósforo, Istambul, Turquia.

 

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Estreito de Bósforo, Istambul, Turquia.

 

IMG_1800Em primeiro plano a Mesquita Nova, ao fundo a Hagia Sophia. Istambul, Turquia.

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Estação de metrô Haliç, ao fundo a Mesquita Suleymaniye. Istambul. Turquia.

 

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Istambul, turquia.

Os dias foram passando e a população começou voltar ao ritmo normal. Com os novos atentados na Bélgica, o foco foi desviado e conseguimos enfim, um pouco de coragem para explorar a cidade. Mas confesso que foi um tanto quanto estranho. No início quase não consegui relaxar. Sempre atento, parecia estar procurando um suspeito, um possível homem-bomba, e todo carro parado sem motorista com piscas ligados parecia pronto para explodir. Tudo era motivo para preocupação. Entre milhares de pessoas, parecia que feições preocupadas sempre cruzavam o meu olhar e a sombra do terrorismo parecia ser uma nuvem negra em minha consciência. Confesso que acabou sendo um sentimento exagerado. Aos poucos fui relaxando… Afinal, como reconhecer um homem-bomba? E mesmo parecendo invasivo, fiz algumas fotos…

Em 2015 Istambul recebeu cerca de 12,5 milhões de visitantes, tornando-se o 5° destino mais visitada do mundo. É claro que a ameaça terrorista derrubou esses números, mesmo assim, ainda se vê muitos visitantes lotando os maiores pontos de visitação, como as mesquitas, mercados, centro histórico e fazendo passeio de barco pelo Estreito de Bósforo, que separa a Europa da Ásia.

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Cúpula da Mesquita Azul, Istambul, Turquia.

 

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Hagia Sophia, Istambul, Turquia.

 

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Mesquita Yeni ou Nova, Istambul, Turquia.

 

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Uma das entradas do Grand Bazaar, um dos maiores e mais antigos bazares cobertos do mundo. Istambul, Turquia.

 

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Grand Bazaar, Istambul, Turquia.

 

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Grand Bazaar, Istambul, Turquia.

Esperando o pai de Eric que chegou para uma visita de 4 dias, tivemos tempo para fazer tudo com calma. Até tempo para arriscar uma pescaria no coração da cidade nós tivemos. Mas a fase continua ruim!!! Acho que o Eric está dando azar!!! kkkkk Mais uma vez não tivemos nenhuma beliscada! Com isso, tivemos que pagar caro para experimentar um pescado local! kkkk

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Pescadores sobre a Ponte de Gálata, Istambul, Turquia.

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Eric e eu arriscando uma pescaria sobre a Ponte Gálata, Istambul, Turquia.

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Como não existe peixe no canal do Bósforo, tivemos que comprar um e preparar um ceviche na casa de Oz Gun, com o Sr. Ralf, Eric e eu. Bairro de Sisli, Istambul, Turquia.

Selecionamos alguns restaurantes recomendados por Oz Gun, e arriscamos em outros, sempre com boas surpresas. Estrategicamente localizada com um”pé” na Ásia e outro na Europa, Istambul possui uma cozinha incrivelmente diversificada. E deliciosa! Dos abundantes kebabs, que são encontrados em todos os cantos da cidade, passando pelos peixes, carnes, vegetais, doces, massas e iogurtes,  nos deliciamos em cada bocada! Temperos, castanhas, frutas secas! Istambul exale cheiro de comida por onde quer que você vá! Vitrines de doces chamam atenção, aguçam o paladar, produzindo saliva só de olhar os baclavas, tahines, e lokuns ( bala de goma a base de amido de milho) variados. É fácil ser hipnotizado pelas riquezas das cores e promessas de sabores. Vi e provei muitas coisas diferentes como o Simit, um delicioso pão em formato de argola com sementes de trigo ou gergelim. O surpreendente Manti, uma espécie de ravióli recheado geralmente com carne bovina ou carneiro servida ao molho de iogurte. O incrível Hunkar begendi, que leva um ensopado de carne com purê de berinjela. O Ayran, uma bebida de iogurte levemente salgada que acompanha as refeições.  O estranho kokorec, um churrasquinho feito com tripa de cordeiro. O Boza, outra bebida original feita com grão-de-bico, açúcar e  canela. A exótica cabeça de cordeiro que me recordou a que comi na Mongólia (Veja aqui a cabeça de cordeiro que comi no interior da Mongólia). E muitas outras guloseimas mais.

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Doner de cordeiro. Istambul, Turquia.

 

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O Sr. Ralf e eu com muito apetite. Istambul, Turquia.

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Balcão de especiarias, chás, castanhas e frutas secas  no Egypt Bazaar. Istambul, Turquia.

 

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Figos secos. Mercado de Especiarias, (Egypt Bazaar). Istambul, Turquia.

 

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Boza – bebida típica feita com grão-de-bico. Istambul, Turquia.

 

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“Pide de sucuk”, um tipo de pizza com linguiça local que lembra um pouco o nosso chouriço. Istambul, Turquia.

 

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Kebab. Istambul, Turquia.

 

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Pescado grelhado que serve para rechear um delicioso sanduíche.  Istambul, Turquia.

Também encontrei alguns pratos trazidos como herança para o Brasil muito comum na minha casa e nas casas de famílias árabes brasileiras. Abobrinhas ou beringelas recheadas, charuto de folhas de uva, cafta, pão sírio, homus, babaganuche, labneh (coalhada seca) doces e molhos de tahine. Aí deu uma saudade danada da minha mãe! O charuto e a coalhada dela são incomparáveis! Assim como o quibe cru, um prato que ainda não vi por aqui! Cuida da mão aí em mãe! Quando eu voltar quero me esbaldar!!! kkkk

Istambul que já foi capital de 4 impérios ( Romano, Bizantino, Latino e Otomano) também deve ser a capital mundial dos gatos de rua! Nunca vi tantos! Eles dominam a cidade e estão presentes em todos os lugares. Nas estações de metrô, nas poltronas dos cafés, nas janelas das casas, nos tetos dos carros, nas escadarias que conectam os bairros altos com os baixos, em meio aos passos apressados dos locais ou dos passos relaxados dos curiosos turistas, muuuiiitttooosss nas caçambas de lixos. A quantidade é realmente de impressionar!

Istambul possui diversos bares tradicionais que são famosos pela dupla café e tabaco. O café é bastante forte e servido sem coar, enquanto o tabaco é aromatizado e fumado em uma espécie de cachimbo com reservatório de água, que me lembra um abajur, chamado narguilé. O café eu gosto bastante, mas o narguilé eu “passei”! Já havia experimentado antes e não gostei! O troço me deixa zonzo! Este hábito turco me pareceu um tanto quanto deprimente. Os homens, que são maioria absoluta, ficam sentados lado a lado, tragando e baforando fumaça, quase sem conversar. Olhando para o nada! Sei lá! Gostei mais do banho turco! Conhecido como Haman, as casas de banho turca também é uma tradição no país. Uma sauna a vapor com espaço para relaxar, que oferece massagem, banho de espuma, barbeiro e camas.

O último lugar que visitei foi a Ilha de Adalar, que faz parte de um arquipélago de 9 ilhas no Mar de Mármara, apelidado de Ilhas dos Príncipes, à 2 horas de barco de Istambul. Oz Gun tem uns amigos que moram lá. Enquanto ela ficou de bate-papo com os amigos, Eric e eu aproveitamos para caminhar e curtir os lindos visuais que a ilha oferece. Seja pelos visuais, por um passeio de charrete, para conhecer uma capelinha no alto do morro, ou mesmo para almoçar e tomar um sorvete no frenético centrinho da cidade, vale a pena fazer um passeio de um dia caso sua estada em Istambul for longa como a minha.

Minha temporada em Istambul chegou ao fim. Foram 18 dias! Mas ainda tenho muito a explorar na Turquia! Convido você para pegar uma garupa comigo e irmos juntos até a Capadócia, cerca de 800 km distante. Afinal, em uma viagem de bicicleta, não é apenas o destino que importa! O caminho é tão excitante quanto!