Sorte em Brodnica, uma cidade a caminho de Varsóvia.

Com vários quilômetros rodados, tanto as peças como a própria bicicleta, vem sofrendo desgastes naturais de uso ou sobrecarga. Mais uma vez dei sorte e consegui, sem maiores prejuízos, solucionar outra quebra do rack traseiro, com ajuda de um amigo que fiz na estrada.

Viajar com Sapatilhas é a melhor opção? Veja a resposta do “Pai da Matéria” – Walter Magalhães, diretor do Clube de Cicloturismo do Brasil.

Perguntei ao experiente Walter Magalhães, “Pai da Matéria”, diretor do Clube de Cicloturismo do Brasil, sobre o uso de sapatilhas em viagens de bike. Confira a resposta!

Por: Walter Magalhães, Diretor do Clube de Cicloturismo do Brasil

“Em primeiro lugar usar sapatilhas a meu ver é uma questão de gosto pessoal. Explico!

O uso das sapatilhas com o “taquinho” está ligado ao desempenho, onde é possível usar a energia do movimento em todo o ciclo da pedalada. Geralmente usa-se mais em ciclismo de estrada e MTB para trilha ou DownHill, ou seja, para obter melhor performance.

Quem usa diz que outra vantagem é evitar que o pé escape. Porém o solado da sapatilha é muito rígido, justamente para que ela cumpra melhor o seu objetivo que é obter maior desempenho na pedalada. Essa rigidez do solado pode causar dores ao caminhar e como o cicloturista costuma parar várias vezes durante o trajeto da viagem pelos mais diversos motivos, esse desconforto pode ocorrer com maior frequência.

Já li relatos de pessoas que usaram sapatilhas para cicloturismo e a partir do segundo dia de viagem sentiram  dores nos dedos e nas plantas dos pés, tornando a caminhada fora da bicicleta  um sofrimento. Outro detalhe é o fato do “taquinho” da sapatilha ser um pouco ressaltado para fora da sola, fazendo barulho ao caminhar e ocasionar escorregões em determinados tipos de pisos que podem machucar o viajante. Já presenciei diversos desses escorregões.

Apesar dessas ponderações muitas pessoas utilizam sapatilhas no cicloturismo.

Por não se tratar de competição, o ritmo do cicloturismo é bem mais tranquilo, dando maior preferência para o conforto do cicloturista na bicicleta e fora dela. Por esse motivo utilizo uma sandália da Salomon que é fechada com uma espécie de tela com furinhos para melhor arejar os pés, propiciando maior conforto para pedalar e caminhar.

O sistema de “firma-pé” fixados nos pedais dá mais liberdade e facilidade para tirar os pés nos momentos de paradas, sem as surpresas dos tombos ocasionados pelo uso dos pedais com sapatilhas, que muitas vezes não consegue se desprender do pedal.

O importante em minha opinião, é ter um calçado que deixe a pessoa mais confortável possível, e no meu caso, não é com o uso de sapatilhas.”

1385867_703230899687818_1560875624_nWalter Magalhães  é Analista de Sistemas e Fotógrafo. Pratica o cicloturismo desde 1991. Viajou de bicicleta pela França, Argentina, Chile, Espanha (Caminho de Santiago de Compostela), Cuba, Estrada Real, Caminho do Sol, entre outras. Dedica-se a atividades de incentivo ao cicloturismo associado à fotografia e filmagens. Mora em São José dos Campos – SP.

Para falar com ele: www.waltermagalhaes.com

Nem todo dia é dia de flores em uma longa viagem de bike meu amigo!

Nada como um dia atrás do outro.

Uma viagem longa de bicicleta como a minha, não é muito diferente do dia a dia normal das pessoas NORMAIS. (Para muitos o doido sou eu!).

Como todo mundo, tem dia que acordo com preguiça, sem vontade de faze nada! Tem dia que acordo disposto e parece que vou pedalar 400 mil km. Tem dia que meu ânimo desaparece por um único fato não esperado. Tem dia que o desânimo vai embora apenas por um breve raio de sol. Meu humor muda várias vezes ao dia! As notícias vindas do Brasil, por exemplo, são um termômetro que pode me encher de felicidade como também despejar toda a minha indignação nos ouvidos de quem está no outro lado da linha, né Cynthia?

É comum eu vir cantarolando uma música, todo radiante, e quando o caminhão tira uma fina, sem perceber, xingo o motorista de tudo quanto é nome! FDP! Só eu e você na estrada!!! Tá querendo me matar de susto, pô! ( O pô na verdade continua com mais 3 letras… mas ando soltando muito palavrões ultimamente.. resolvi pegar leve neste post!).

Outro dia, eu estava todo animado com a possibilidade de cumprir o planejado, aí, minha corrente quebrou e me bateu uma depre! Tudo bem que veio junto a frustração, uma certa culpa e tudo mais… Eu que sou tão minucioso, deixei minha corrente quebrar… eu sabia do risco! Deveria ter  trocado antes, pô! (estou falando do outro pô).

Aí, quebra meu bagageiro traseiro no meio do nada! Fato que é difícil prever! Eu fiquei tão tranquilo, que tinha hora que eu mesmo me questionava! O meu… você tá ferrado (entenda outra palavra que começa com F e termina com dido), e está aí nessa tranquilidade! Cara, tá escurecendo! Mas algo me dizia que tudo sairia bem,como de fato saiu!

E muitas outras coisas mais… mas como post grande ninguém lê, vou resumir.

Depois de um dia sensacional, onde pedalei com tranquilidade, em uma estradinha maravilhosa, colhendo, preparando e comendo o que a estrada me ofereceu, do jeitinho que eu adoro fazer, fui dormir todo realizado! Acordei disposto e nem mesmo o frio de 8° C atrapalhava. Pelo menos não esta ventando, dizia enquanto o meu fogareiro esquentava a água do café.

Preparei um sanduba com queijo e o restinho do presunto parma que havia sobrado do dia anterior, tomate, pepino em um delicioso pão integral. Separei castanhas e uvas passas para complementar o desejum.  Tudo lindo! Rapaz! Quando tomei o primeiro gole de café, quentinho e cheiroso, uma pontada no meu dente me fez ver estrela em plena luz do dia! Uma puta dor(dessa vez não da para pegar leve! Doeu pra caralho!)!

Tô “F dido…”! E agora?

Enquanto cumpria a obrigação de pedalar até Kaliningrado, fui pensando no preço de viajar por muito tempo, da maneira que estou viajando. Não é todo dia que encontro as condições ideais para manter uma boa higiene. Privadas imundas e muitas vezes não encontro lugar para tomar banho, apelando para os lenços umedecidos, e vez ou outra durmo sem escovar os dentes. Como?

É assim! Paro perto de escurecer, e depois de fazer todas as obrigações, entro no saco de dormir, e geralmente tem um docinho ou chocolatinho para relaxar enquanto leio um livro. O último foi: Projeto Homem Livre – Volta ao mundo de bike de Danilo Perrotti, e agora estou lendo o Transpatagônia do Guilherme Cavalari.

Livro Projeto Homem Livre - Danilo Perrotti. Eu recomendo!

Livro Projeto Homem Livre – Danilo Perrotti. Recomendo!

Livro Transpatagônia - Guilherme Cavalari - Também recomendo!

Livro Transpatagônia – Guilherme Cavalari – Também recomendo!

Aí meu amigo, pego no sono e quem falou que tenho coragem de sair da barraca com um frio de lascar “só para escovar os dentes”. Muitas vezes acordo no outro dia!

Kaliningrado - Rússia

Kaliningrado – Rússia

 

Catedral de Cristo Salvador, Kaliningrado, Rússia

Catedral de Cristo Salvador, Kaliningrado, Rússia

 

Lena e Marcha, família que me hospedou em Kaliningrado, Rússia

Lena e Marcha, família que me hospedou em Kaliningrado, Rússia

 

Tratamento odontológico em Kaliningrado, Rússia. Obs: O dentista usa a bike para ir ao trabalho e a identificação com o Projeto da China Para Casa by Bike me rendeu um ótimo desconto no tratamento.

Tratamento odontológico em Kaliningrado, Rússia. Obs: O dentista usa a bike para ir ao trabalho e a identificação com o Projeto da China Para Casa by Bike me rendeu um ótimo desconto no tratamento.

Como a sorte costuma me acompanhar. Parei no lugar certo em Kaliningrado. Valery e sua esposa Lena são membros do warmshowers. Me receberam com todo o carinho e foram meus anjos da guarda no tratamento dentário. Lena e Marcha me levaram para um tour na cidade e Valery me deu aulas de arco e flecha e me levou para um delicioso passeio de veleiro no final do dia.

Aulas de Arco e flecha com Valery, Kaliningrado, Rússia.

Aulas de Arco e flecha com Valery, Kaliningrado, Rússia.

 

Passeio de veleiro com Valery e Sergey (amigo de Valery) em Kaliningrado, Rússia.

Passeio de veleiro com Valery e Sergey (amigo de Valery) em Kaliningrado, Rússia.

Atrasei um pouco a minha viagem devido a isso, mas a satisfação de conhecer o casal e suas filhas Alina e Marcha recompensou. Crianças adoráveis que matou, ou aumentou, a saudade dos MEUS! Filha, Sobrinhos e todos da família…

Mas ter saudade até que é bom… Melhor do que pedalar sozinho!

É muita sorte para um dia só! Viva!

Eu já vinha pelejando contra o vento de 9 m/s ou 32 km/h por mais de 7o km. Usando a mesma estratégia de sempre, pedalei até as 18:00h e então comecei a procurar um lugar para montar acampamento. Ainda teria 2 horas e pouco de luz natural, tempo suficiente para agilizar tudo que eu precisava antes do merecido descanso. Neste trecho, a ciclovia do Mar Báltico compartilha a estrada estreita de muito pouco movimento. Floresta e fazendas dos dois lados da estrada. Minha ideia era achar um lugar protegido do vento que vinha do mar, mas não muito longe dele, para arriscar uma pescaria. Aproximei o zoom do GPS para apenas 120 m, e assim poder visualizar qualquer estradinha que me levasse em direção a praia, cerda de 1 km distante da estrada. Pumba! Achei!

A estradinha chegou até a beira da praia, no entanto, o lado da floresta estava cercado por uma propriedade particular, e o outro lado, o campo aberto ou mesmo a areia da praia estavam fora de cogitação devido ao forte vento. Mesmo em cima do barranco, as gotículas das ondas que se quebravam me alcançavam…

Decidi arriscar seguindo o lado desmatado até um conjunto de arbustos aproximadamente 500 m de onde estava! Pumba de novo! Achei um campinho de grama perfeito, protegido pelos arbustos e um pequeno morro. Encostei a bike em uma macieira carregada, escolhi uma fruta que me pareceu apetitosa, e cravando os dentes no azedinho doce, fui fazer o levantamento da área para escolher o melhor lugar para colocar a barraca. Quando contornei o morrinho, avistei uma casa e me dei conta que o gramadinho fazia parte da entrada da propriedade. Só aí reparei um rastro de pneus já quase restabelecido pela grama, me fazendo concluir que a muito tempo um carro não passava por ali… fui entrando para conferi e e notei que a porta de entrada estava aberta, com um balde cheio de pepinos escorando-a. Opa! Tem gente na casa! Fui me aproximando e avistei na janela uma Sra. que parecei fazer palavras cruzadas, com uma revista e uma caneta na mão. Ela estava meio de lado, meio de costas e não me viu.

Voltei para a bike pensando que teria que pedir autorização para acampar ou procurar outro lugar. Putz! O lugar é perfeito! Peço ou não peço? Colhi mais uma maça enquanto pensava e reparei no lindo senário que o sol, mar e nuvens exibia…

Fim do dia no mar Báltico, Letônia.

Fim do dia no mar Báltico, Letônia.

… vou lá, decidi!

Com um “hi” em tom forte o suficiente para vencer a barreira do vidro e do vento, e ao mesmo tempo não assusta-la, consegui chamar a atenção. Certamente ao me ver, com o capacete na cabeça, luvas, gorro e com as duas mãos no guidão da bike, ela deve ter pensado: O Que esse louco esta fazendo aqui? E abriu um sorriso, me enchendo de esperança enquanto contornava os cômodos da casa até a porta.

Ela veio até mim com um sorriso simpático falando o idioma local… deixei ela terminar a sentença e disse que não entendia seu idioma. Inglês? Perguntei… Neim! Respondeu… fazendo um sinal negativo com a cabeça e soltando uma risada curta e mais alta.

Quanto tentava explicar o que queria com mímicas, lembrei da cartinha que carrego comigo em russo, com um pequeno resumo do que estou fazendo e solicitando um lugar para acampar… e soltei em tom de pergunta: Russian? Yeeessss… ela respondeu desconfiada e animada, mudando o idioma. Deixei que ela terminasse de novo a frase e fiz um sinal negativo explicando que eu não falava russo, e entreguei a cartinha para ela.

D. Agita, lendo meu pedido para acampar escrito em Russo. Letônia

D. Agita, lendo meu pedido para acampar escrito em Russo. Letônia

Ela foi lendo e sorrindo! Sorrindo e me olhando! Me olhando e consentindo…. Me convidou para dormir dentro de casa, me oferecendo uma cama com lençóis limpos e coberta. Me ofereceu comida, banho quente de balde, já que suas instalações eram modestas e teve paciência para conversar comigo fazendo desenhos e mímicas. Demos muitas risadas na tentativa de entendimento enquanto o sol continuava com o show lá fora.

Pôr do sol, Mar Báltico, Letônia.

Pôr do sol, Mar Báltico, Letônia.

Dormi bem! Recarreguei fone e GPS e depois de um café da manhã reforçado, ela me ofereceu um pote grande de geleia de maças, pepinos, maças vermelhas e verdes e um pacote de bolacha. Ela demonstrou tanto carinho que fui incapaz de dizer que aquilo tudo era muito peso para a minha bicicleta. Mesmo assim, deixei metade das maças, um vidro de pepinos em conserva e outro pacote de bolachas para trás.

Era antes da 8:00 h quando cai na estrada e por um bom tempo fui pensando na vida solitária que a Sra. Agita leva. Aí, um pensamento leva a outro, outro e mais outro… Mas isso é assunto para outro post!

Segui forte com o vento “de ombro”, comendo as maças para me livrar do peso extra. Também devorei o pacote de bolacha com metade do vidro de geleia na única parada que fiz antes de chegar em Liepaja, cerca de 80 km da casa da Sr. Agita. Estava alegre e com o objetivo do dia alcançado, depois de um rápido passeio pela cidade, decidi tocar em frente. Era 14:00h, muito cedo para parar!

Segui descendo o mapa até chegar em uma parte da estrada que está em manutenção, com vários trechos sem asfalto, fazendo a bicicleta pular bastante. Minha meta era achar um lugar para dormir perto da divisa com a Lituânia. Aí, dá uma olhada no que aconteceu com o meu bagageiro traseiro…

O incidente aconteceu na entrada de Rucava, uma cidadezinha com aproximadamente 600 habitantes. No supermercado, encontrei por pura sorte, o único mecânico capaz de soldar alumínio da região. E em pouco mais de 15 minutos a bike estava reparada.

Eta sorte da gota serena!