O incrível Rajastão: Jaipur e o Templo dos Ratos (parte 1)

Com bike empacotada, fiz um roteiro de 10 dias para conhecer o Rajastão, o maior estado indiano em área. Exatamente o tempo estipulado pela embaixada do Irã finalizar a primeira parte do processo de visto, para que eu possa dar entrada na segunda e definitiva etapa.

Em um trem noturno para Jaipur, a capital do estado, tive o meu primeiro contato com o sistema ferroviário da Índia. Fiquei surpreso com a pontualidade! Me lembrei dos meus tempos de infância quando viajava de trem de Marília para São Paulo. Nunca partíamos ou chegávamos no horário. Sempre atrasado! Os trens indianos que viajei me pareciam ser contemporâneos aos daquela época. Frota antiga, relativamente sujo, mas com certo conforto. Viajei sempre de segunda classe, com poltronas reversíveis que viram cama. Deu para dormir legal e também matar a saudade… eu gosto de ouvir o TUMTUM TUMTUM… que vai perdendo intensidade… tumtum tumtum… a medida que meu vagão vai se afastando da saliência que emite o barulho… tumtum tumtum… até desaparecer…

Mesmo na enorme estação de Deli, foi fácil encontrar a plataforma, assim como o número do vagão e assento. Cheguei meia hora antes do horário, com tempo suficiente para confirmar o esperado. Ratos passeando entre os trilhos, que também servem de latrina, plataformas imundas, muita gente, mau cheiro, confusão e pessoas das mais diversas etnias.

Usei ônibus também. Os noturnos também oferecem cama. Mas sacode mais do que bunda de destaque de escola de samba! Não dá para dormir nada!

Fámilia dormindo na estação Central de Deli. Índia.

Família dormindo na estação Central de Deli. Índia.

Vendedor ambulante abordando passageiros de ônibus na rodoviária. Rajastão, Índia.

Vendedor ambulante abordando passageiros de ônibus na rodoviária. Rajastão, Índia.

Conhecida como a “cidade rosa”, Jaipur foi a primeira cidade planejada da Índia e recebeu o apelido de Paris Indiana.  Na verdade não lembra a capital francesa nem de longe e o rosa não é rosa, e sim um tom alaranjado ferrugem, “salmão”, para alguns mais criativos. Regularmente pintada desde a visita do Príncipe de Gales em 1876, Jaipur tem como principal atração o Forte Amber, situado no alto de uma colina com uma bela fachada e boa vista para a cidade. Distante 7 km do centro, a construção impressiona! Erguido no século XVI, o forte abriga palácios, jardins e salas com belos mosaicos. Eu preferi subir as escadarias a pé, mas é possível fazer nas costas de um pobre elefante e chegar no castelo como faziam os marajás da época.

O Templo dos Macacos é outro lugar que vale a visita. Não pelos macacos que podem ser encontrados em qualquer esquina na Índia, mas pela beleza arquitetônica. O Galta Ji, como é conhecido, segue o padrão indiano, sujo e fedido. E tome cuidado com os machos alfas. Eles podem ser são bastante intimidadores ao te ver segurando alguma guloseima como frutas ou amendoins, que são comercializados na entrada do complexo. A entrada é franca, mas cobra-se para fotografar. Eu cheguei a ver uma mãe desesperada com o filho cercado por alguns deles.  A dica é fazer esse passeio no final da tarde para fugir do calor e apreciar o bonito pôr do sol.

O Hawa Mahal, ou palácio dos ventos, possui 365 janelinhas que serviam para as mulheres dos marajás e suas concubinas espiarem a cidade, já que não podiam aparecer em público. A fachada é bem interessante e um dos principais cartões postais da cidade. Em estilo Rajput, exagerada em detalhes, assim como a maioria das fachadas da cidade antiga  é ponto obrigatório a serem visitados, assim como o Water Palace e o Minarete. São 3 atrações que não levam mais de 10 minutos para conhecer.

Quando for visitar o City Palace, reserve um tempo para se “perder” no comércio da cidade velha. Você vai se deparar com encantadores de serpente, músicos vestidos à caráter, e com um comércio pulsante e confuso. Claro, é Índia! Cuidado para não ser atropelado, não pisar na merda e tenha paciência com os comerciantes insistentes.  Se ainda sobrar tempo, você pode conhecer o observatório, o berçário de elefante, um mausoléu, o zoológico e muitas outras atrações de acordo com o seu interesse.

Forte Amber, Jaipur, Rajastão, Índia.

Forte Amber, Jaipur, Rajastão, Índia.

Forte Amber, Jaipur, Rajastão, Índia.

Forte Amber, Jaipur, Rajastão, Índia.

Encantador de serpente em Jaipur, Rajastão, Índia.

Encantador de serpente em Jaipur, Rajastão, Índia.

Hawa Mahal, Jaipur, Rajastão, Índia.

Hawa Mahal, Jaipur, Rajastão, Índia.

Jaipur, a cidade rosa, que na verdade é laranja, vista do alto do minarete. Jaipur, Rajastão, Índia.

Jaipur, a cidade rosa, que na verdade é laranja, vista do alto do minarete. Jaipur, Rajastão, Índia.

Galta Ji, Templo dos Macacos - Jaipur, Rajastão, Índia.

Galta Ji, Templo dos Macacos – Jaipur, Rajastão, Índia.

Galta Ji, Templo dos Macacos - Jaipur, Rajastão, Índia.

Galta Ji, Templo dos Macacos – Jaipur, Rajastão, Índia.

O Templo dos Ratos foi uma das coisas mais bizarras que já vi na vida!

Localizado em Deshnok, próximo a Bikaner, esse santuário também chamado de Karni Mata, foi erguido em homenagem a Deusa Durga, que possui 3 olhos, 8 mãos, e já nasceu adulta. Filha do deus Brahma e Shiva, seria requintadamente bela, com cabelos exuberantes e incrivelmente ornamentada com pérolas, pedras preciosas e ouro. Foi criada como uma guerreira para combater os demônios , É outra história mirabolante da religião hindu, que se você tiver interesse é só “dar um google”. Mas sinceramente é muito para a minha cabeça!

Calcula-se que mais de 20 mil ratos vivem ali, atraindo milhares de turistas de todas as partes do mundo. Fiquei incrédulo ao ver a relação das pessoas com esses animais. Os fiéis, homenageiam a Deusa com oferendas, cânticos, rituais e chegam a beijar o chão, buscando a benção sagrada. Oferecem muita comida para os ratos também. É de embrulhar o estômago! É proibido entrar calçado. Eu calcei sacos plásticos que atraiu vários olhares curiosos como se o estranho fosse eu! kkkk

Templo dos Ratos, Denshnok, Rajastão, Índia.

Templo dos Ratos, Denshnok, Rajastão, Índia.

Templo dos Ratos, Denshnok, Rajastão, Índia.

Templo dos Ratos, Denshnok, Rajastão, Índia.

Templo dos Ratos, Denshnok, Rajastão, Índia.

Templo dos Ratos, Denshnok, Rajastão, Índia.

O vídeo abaixo mostra uma pequena parte de um ritual de uma fiel em homenagem a Deusa Durga no Templo dos Ratos.

Chegada em Nova Deli, a capital da Índia.

Cheguei em Deli debaixo de uma garoa fininha, que derrubou a temperatura para 35°C (cerca de 10°C), que naquela altura soava como uma maravilha. Horas antes cruzei a poluída, suja, confusa, perigosa,Grande Deli debaixo de 46°C. Um baita mormaço! Fiz uma parada estratégica em um restaurante típico, só para ficar debaixo do ventilador. Não tive coragem de comer nada. Devorei 7 bananas que trazia comigo e tomei 3 litros de água. 2h da tarde. Não aguentava mais ficar ali. Uma mosquitaiada de tirar o sossego! Meti o pé!

Na medida em que fui entrando em Deli, a cidade se revelou surpreendentemente organizada, com avenidas largas, semáforos respeitados, muitas praças arborizadas, monumentos e agradavelmente limpa. Estava cruzando Nova Deli, sede do governo indiano e da maioria das embaixadas. A garoa parecia abençoar a minha chegada.

Já nas proximidades do Zostel, hotel onde me hospedei, que fica muito bem localizado ao lado da estação central de trens, com ótimos preços, quartos confortáveis e equipe de trabalho super prestativos, o caos já tomava conta do pedaço. Tuk-tuk cruzando de um lado para o outro na contra-mão disputando espaço com automóveis, rikshas, pedestre, vacas, cachorros, bicicletas. Muita sujeira… e é claro um buzinaço incessante.   No entanto, com a overdose de Uttar Pradesh, tudo me parecia normal. Foi eu encostar a bike debaixo da marquise do hotel e o aguaceiro caiu! Parecei que a minha sorte estava mudando… mas não foi bem assim!

Riksha atravessando a rua alagada em frente ao Hotel Zostel. Deli, Índia

Riksha atravessando a rua alagada em frente ao Hotel Zostel. Deli, Índia

No dia seguinte fui a embaixada do Brasil buscar algumas encomendas que a Pedal Power me enviou. Corrente, cassete, luvas, capacete. Uma parte para repor as peças gastas e outra para repor o prejuízo do acidente. Aproveitei para pegar uma carta de indicação para entrar com o pedido de visto para o Paquistão. Seria meu próximo país, mas fui barrado no baile mais uma vez. No guichê da embaixada, o atendente não quis pegar meu formulário e nem a carta, pois só é permitido aplicar o visto em seu país de origem. Me disse que a única maneira de aplicar seria através de um pedido formal, via telefone, do setor consular brasileiro para o setor consular do Paquistão. Depois de muito insistir, consegui o telefone e nome do responsável. Passei para o pessoal da embaixada do Brasil e eles me disseram que o pedido foi negado. Foi estranho! Pois o atendente paquistanês foi bem claro, dizendo que bastaria alguém ligar que o processo seria encaminhado. É um procedimento de praxe e já rolou várias vezes com turistas de diversos países. A mesma ladainha do Japão!!

Sendo assim, fiz uma correria para encontrar uma caixa para colocar a bike e poder voar. Mais uma vez meu planejamento foi por água abaixo! Refiz rapidamente os planos e a solução que encontrei foi sair da Índia em um voo para o Irã, que seria o país a ser visitado depois do Paquistão. O processo é longo e complicado. Estou apreensivo já que meu visto indiano vence logo! Já bolei um plano B caso não consiga o visto em tempo.

Deli é a mais importante e a segunda maior cidade do país com aproximadamente 12 milhões de habitante. Esse número dobra se falarmos do complexo metropolitano que engloba a região. Capital de vários impérios, a cidade pode ser comparada a Roma, com ruínas e achados arqueológicos que datam de 300 a. C.. Todos os impérios deixaram suas marcas. Monumentos, palácios, templos, mercados… Atrações é que não faltam em Deli. No entanto são espalhadas e requer um certo planejamento para não desperdiçar tempo e grana.

No primeiro dia de visita fui conhecer a Mesquita Jama Masjid, a maior e mais importante do país, concluída em 1656. A entrada é grátis, paga-se apenas para entrar com máquina fotográfica e não pode entrar de bermuda. Depois fui para o Red Fort, construído no século XVII. A cor das pedras sugerem o nome do forte que é muito parecido com o forte de Agra. E no final do dia, fiz um delicioso passeio em Chandni Chowk, um dos mais velhos e movimentados mercados da cidade. Aqui, vale a pena pegar um riksha. Além de te poupar dos ataques dos vendedores que não dão sossego, eles te levam em lugares secretos que dificilmente você chegaria sozinho. É o grande diferencial do passeio que também pode ser feito a pé. Por 2,5 horas, e depois de barganhar um pouco, o preço fica entre 2 e 5 dólares. É claro que ele também vai te levar nas lojinhas para receber comissão, mas no geral são lugares agradáveis e pode interessar se não estiver viajando de bike, é claro!

Uma das entradas da Mesquita Jama Masjid, New Deli, Índia.

Uma das entradas da Mesquita Jama Masjid, New Deli, Índia.

Mesquita Jama Masjid, New Deli, Índia.

Mesquita Jama Masjid, New Deli, Índia.

Red Fort, New Deli, Índia.

Red Fort, New Deli, Índia.

Red Fort, New Deli, Índia.

Red Fort, New Deli, Índia.

Loja no mercado em Chandni Chowk, New Deli, Índia.

Loja no mercado em Chandni Chowk, New Deli, Índia.

Carregador no mercado em Chandni Chowk, New Deli, Índia.

Carregador no mercado em Chandni Chowk, New Deli, Índia.

Vendedor no mercado de Chandni Chowk, New Deli, Índia.

Vendedor no mercado de Chandni Chowk, New Deli, Índia.

Mercado de rua de Chandni Chowk, New Deli, Índia.

Mercado de rua de Chandni Chowk, New Deli, Índia.

No segundo dia visitei Humayun’s Tomb, erguida no século XVI pala viúva do Imperador Humaium, é o mais antigo mausoléu da dinastia mongol, sendo sua belíssima arquitetura declarada Patrimônio Mundial da Unesco. Depois visitei as ruínas e o complexo de Purana Qila, o sexto império criado pelo imperador Himaium. O passeio vale, mas não espere muito. A arquitetura é legal e tudo o mais, mas nada fora do comum.

Humayun's Tomb - Mausoléu do imperador mongol Humaium, New Deli, Índia.

Humayun’s Tomb – Mausoléu do imperador mongol Humaium, New Deli, Índia.

Isa Khan Niazi tomb. Complexo de Humayun's tomb, New Deli, Índia.

Isa Khan Niazi tomb. Complexo de Humayun’s tomb, New Deli, Índia.

Mesquita de Purana Qila, New Deli, Índia.

Mesquita de Purana Qila, New Deli, Índia.

Detalhes da Mesquita de Purana Qila, New Deli, Índia.

Detalhes da Mesquita de Purana Qila, New Deli, Índia.

Comecei o terceiro dia conhecendo o complexo arquitetônico de Qutub Minar, que inicialmente (1192 a. C.) alojava 27 templos hindus e jainistas, que foram destruídos e seus materiais foram usados na construção de uma mesquita muçulmana (739 a.C.), e o complexo continuou crescendo na mãos de muitos diferentes governantes, e se modificando de acordo com a religião de cada um. A história é rica, ou complicada como queiram… Vale uma pesquisa mais detalhada antes de conhecer o complexo.

Qutub Minar complex, New deli, Índia.

Qutub Minar complex, New deli, Índia.

A atração mais visitada do país em 2006. Qutub Minar complex, New deli, Índia.

A atração mais visitada do país em 2006. Qutub Minar complex, New deli, Índia.

Qutub Minar complex, New deli, Índia.

Qutub Minar complex, New deli, Índia.

Qutub Minar complex, New deli, Índia.

Qutub Minar complex, New deli, Índia.

 

Depois foi a vez de conhecer o maior templo hindu do planeta. Akshardham foi construído por 7.000 artesões e 3.000 voluntários sendo concluído em 2005. Com entrada franca, Akshardham é cercado por um forte esquema de segurança, e é estritamente proibido fotografar seu interior. Mais do que um templo tradicional, o conjunto arquitetônico abriga jardins luxuosos, exibições tecnológicas e cinema Imax, parecendo um centro de propaganda e divulgação religiosa. As paredes são ricamente esculpidas e merecem destaque especial, assim como os adornos que cercam a cúpula principal.

Akshardham - O maior templo Hindu do mundo. New Deli, Índia

Akshardham – O maior templo Hindu do mundo. New Deli, Índia

Deixo aqui um beijo para Cynthia, minha irmã, por estar sempre me ajudando a desenrolar o que preciso; um abraço para o pessoal da Pedal Power pelo carinho que cuidam do meu projeto; e para meu amigo Allex Ferreia, pela indicação do Zostel e por sempre estar disposto a ajudar com informações preciosíssimas! Obrigado pessoal!

Uttar Pradesh, um estado entre o amor e ódio!

Estado de Uttar Pradesh, Índia.

Estado de Uttar Pradesh, Índia.

Com o repouso forçado devido ao acidente, tive tempo para pesquisar e pude entender um pouco mais sobre o Estado de Uttar Pradesh, até então, o único que conhecia na Índia, e fazer as minhas reflexões para entender o porquê que as informações que recebi das pessoas que viajaram pela Índia de bike, não estavam batendo com aquilo que eu estava vendo e vivendo.

Apenas Gio e Marco, uma dupla de italianos que conheci na Austrália, onde pedalamos juntos por alguns dias, disseram que nunca mais voltariam para Índia. Era a mesma impressão que eu vinha tendo! Mas apenas eles cruzaram o estado de Uttar Pradesh. Todos os outros com quem conversei passaram por rotas diferentes. Abaixo, vou tentar explicar um pouco o porquê. Fiquei impressionado com os números que encontrei na internet.

Uttar Pradesh é o estado mais populoso do mundo e o mais pobre da Índia, com uma população quase igual a do Brasil. Isso mesmo! Mais de 210 milhões de habitantes com um crescimento populacional de 26% em 10 anos! A população dobra em menos de 40 anos! Densidade populacional de 850 pessoas por km²! É mole?! Um dos estados mais sagrados e o mais místico da Índia, é berço da religião Hindu, onde 80% da população são alinhados em uma fé, que é no mínimo muito longe da minha realidade. Muita gente vive na miséria, enfrentando sérios problemas de moradia, saneamento básico, educação e saúde.

Lixo serve de pasto para as vacas entre a estrada e o comércio. Uttar Pradesh - Índia

Lixo serve de pasto para as vacas entre a estrada e o comércio. Uttar Pradesh – Índia

Está apertado? Qualquer lugar é lugar! Homem defecando e urinando á beira da estrada. Uttar Pradesh - Índia

Está apertado? Qualquer lugar é lugar! Homem defecando e urinando á beira da estrada. Uttar Pradesh – Índia

Ahhh... com toda privacidade....

Ahhh… com toda privacidade…. só os búfalos estão vendo!

Posso afirmar que viajar de bicicleta neste estado nesta época do ano é super complicado! Foram mais de 1.100 km entre a divisa com o Nepal até Nova Deli! Incrivelmente plano, sem uma única subida (apenas leve inclinação das pontes e viadutos), Uttar Pradesh testou os meus limites com vários tipos de perrengues acontecendo ao mesmo tempo! No começo foi difícil aceitar, gerando uma grande batalha entre eu e meus tabus. Depois de algum tempo, e com a ajuda de Juyti e Aman, meus anjos da guarda depois do acidente, fui me familiarizando com as coisas e aceitando mais. Nos dois últimos dias antes de chegar em Deli, o cenário teve uma ligeira melhora.

Uma névoa de poeira cobre o estado, que associado ao calor de 52° C, chega a sufocar! A estratégia é pedalar bem cedo e de tardinha! No entanto, muitas vezes foi melhor continuar pedalando do que parar! Isso mesmo! Ao parar, o ventinho cessa, e a transpiração aumenta muito! Mina água pela cabeça, principalmente, e se não encontrar um ventilador para ficar embaixo está danado! No início cheguei a me irritar com as pessoas também! Ao estacionar a bike, dezenas se aproximam e não dão 5 centímetros de espaço! Eles colam de uma maneira que também sufoca! Muito perto! Puta calor, sedento, e os caras ali, quase encostando o nariz no meu! Quando tentei cozinhar para me livrar dos riscos de comer nos restaurantes de beira de estrada, quase perdi a paciência! Se vou pegar as panelas na bike, 30 me seguem! Se agacho para ascender o fogareiro, 30 agacham junto comigo! Se corto cebola, 50 querem ajudar, com mãos imundas! E aqui vale um comentário! Não existe papel higiênico na Índia! E os caras colocam a mão em tudo! Dá para imaginar? Os caras defecam com a consistência de um mingau ( ou seja, infectados por bactérias), bem ali… ao lado da estrada, da casa ou do restaurante… tem lugares que é um verdadeiro campo minado…  limpam a bunda com um copo de água, e na hora de  servir, metem a mão na sua comida! Rapaz! Cada refeição é um Deus nos acuda! E eu fico pensando… Caramba! O garçom também caga! Igual a todo mundo! E eu lá! Na porrada com os meus tabus!!

 Ambulantes preparando o almoço em Alahabad, Uttar Pradesh, Índia.

Ambulantes preparando o almoço em Alahabad, Uttar Pradesh, Índia.

Outro ponto que dificultou bastante foi achar um lugar para passar a noite. Embora seja um dos estados indiano que mais recebe turistas, tanto locais como estrangeiros, Uttar Pradesh é incrivelmente carente de hotéis e restaurantes longe dos pontos turísticos. Tentei por duas vezes dormir na barraca, mas o calor, associado a falta de vento tornaram essas noites em um inferno! Além de não conseguir descansar, passei a noite toda transpirando, melado! Manja?! Isso sem falar nos mosquitos e pernilongos! Demais! Já acordava cansado! Como voltava a pedalar apenas no final da tarde, muitas vezes forcei o ritmo para chegar em algum lugar. Alguns dias desencanei e corri o risco de pedalar no escuro. Com a falta de regras no trânsito, passei momentos de muita tensão, chegando a ficar com os músculos doloridos, rígidos! Bom, já falei do trânsito! E já falei sobre o atropelamento também!

Os vendedores ambulantes, motoristas de tuque-tuques e riquixás, são insistentes ao extremo! Os caras não dão sossego! Vários ao mesmo tempo! Brigam entre eles! E cobram pelo menos o dobro do preço justo, apenas por eu ser estrangeiro. Aliás, seguem o exemplo do governo! Para entrar no Taj Mahal por exemplo, estrangeiros desembolsam 750 rúpias indianas, enquanto os locais pagam 20 rúpias! A impressão é que estava sendo extorquido a todo momento! Um saco!

Meu preconceito também atrapalhou! No início foi inevitável fazer a comparação do povo indiano com a distante realidade do povo brasileiro, da qual é a minha referência. O povo indiano é pobre, se veste com simplicidade e vive repleto de carências. No Brasil, muitas pessoas que vivem nessas condições, abandonados à própria sorte, vivem cometendo pequenos delitos, se aproveitando de qualquer oportunidade com a esperteza que só tem quem esta cansado de apanhar.  Era impossível não comparar os nossos meninos de rua com os locais. São aparentemente semelhantes. Com o tempo, percebi que os indianos são extremamente curiosos, mas não tem o hábito de querer o que é dos outros… mexem.. quebram… mas não roubam! Minha reação ao chegar causava antipatia. Eu ficava preocupado com a bicicleta e principalmente com os equipamentos expostos na bike. Quando entendi, passei a “chegar” mais manso.

E por fim, o que mais me marcou! E esse ainda é um tabu que não consigo me livrar! O convívio com a sujeira! Eu não consigo entender que em pleno século XXI a higiene seja tão negligenciada. Eu sei que no Brasil existe muitos lugares imundos, de dar pena, mas em Uttar Pradesh é praticamente em todo lugar. O limpo é que destoa! Pessoas não se incomodam com  nuvens de mosquitos nos alimentos, montanhas de lixos na porta de casa e mesmo fezes de pessoas e animais. O nível de higiene é tão baixo que vendedores passam o dia todo trabalhando em meio á poeira e forte calor, suados, imundos, com as mãos em contato direto com os alimentos. E as pessoas compram! E a Índia está entre as maiores economias do mundo, com previsão de ultrapassar o Brasil no 7° lugar! Como pode? As pessoas simplesmente não acreditam que mosquitos e lixo transmitem doenças. É bizarro! Aqui vale outro comentário. Eu não sei os números, mas tenho certeza que a informalidade na Índia é enorme! Quando o governo indiano conseguir trazer essa massa para a formalidade, certamente irão ganhar várias posições no ranking econômico. Milhões de indianos sobrevivem de pequenos comércios sem pagar um centavo para o governo.

Pois é! É claro que eu sabia que a Índia era uma loucura! Mas Uttar Pradesh foi muito mais do que eu supunha! Para mim foi um choque cultural que nunca havia experimentado com tamanha intensidade. E olhe que passei por países bem distintos do nosso!

Saio de Uttar Bradesh com a sensação de quem amou e odiou ao mesmo tempo! Varanasi e Agra são os pontos altos desse estado. Nunca esquecerei a espiritualidade e o fervor religioso da primeira e toda beleza imperial da segunda. Também será difícil esquecer o caos, a desordem, a sujeira… É mais ou menos assim:  De repente você se depara com algo impressionante, fora do comum, fica de queixo caído, perplexo, admirando… aí, hipnotizado para achar o melhor ângulo para fazer a foto, da um passo para o lado e enche o pé na merda! De vaca, de cachorro, de GENTE! Só para citar um exemplo.

A Índia se caracteriza por ser um país muito distinto culturalmente. Cada estado tem seu povo, cultura e particularidades. Eu apenas conheci Uttar Pradesh e Nova Deli, a capital do país até agora. Tenho planos para visitar os estados do Rajasthan, Haryana, Uttarakhand, Himchal Pradesh e quem sabe Jammu e Kashmir. Isso se tudo der certo com os processos de solicitação de visto para meus dois próximos países. Para isso, terei que deixar a bike um pouco de lado e viajar de trem. Meu visto vence em poucas semanas e seria impossível fazer tudo de bike… Achei que valeria a pena sacrificar um pouco a viagem de bicicleta e ganhar diversidade cultural e conhecer outros sabores. Minha impressão já está um pouco melhor, mas espero conhecer uma outra Índia nesses lugares e como muitos países em que passei, ter o gostinho de querer voltar um dia!

Terreno tomado pelo lixo ao lado do hospital em Etawah, Uttar Pradesh, Índia.

Terreno tomado pelo lixo ao lado do hospital em Etawah, Uttar Pradesh, Índia.

A convivência com o lixo na porta de casa. Uttar Pradesh, Índia.

A convivência com o lixo na porta de casa. Uttar Pradesh, Índia.

Água mineral não tem... mas pode se servir ali na mesa... é grátis... e os mosquitos vem de brinde...  Típico restaurante de beira de estrada em Uttar Pradesh, Índia.

Água mineral não tem… mas pode se servir ali na mesa… é grátis… e os mosquitos vem de brinde… Típico restaurante de beira de estrada em Uttar Pradesh, Índia.

Taj Mahal – Uma das 7 maravilhas do mundo!

De Etawah até Agra são 120 km. 4 horas de viagem em um ônibus barulhento, quente e muito desconfortável. Mas para quem está viajando de bicicleta, aquilo parecia muito bom! Foi a alternativa que achei para ganhar um pouco de tempo. Com os punhos bem doloridos e as feridas abertas era praticamente impossível pedalar. Viajei tomando antibióticos e anti-inflamatórios, e fui melhorando sensivelmente dia após dia.

A minha expectativa em conhecer o Taj Mahal era grande! Classificado como a mais bela construção do planeta, o Taj Mahal foi eleito uma das 7 Maravilhas do Mundo Moderno e é considerado a maior prova de amor do mundo!

 

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Taj Mahal de longe… Agra,, Índia

Este incrível mausoléu foi construído por mais de 20.000 homens  entre 1632 e 1653, sob o comando de Shah Jahan, Imperador Mongol, em homenagem a sua terceira esposa, Aryumand Banu Begam ou Mumtaz Mahal ( “A joia do palácio”), que morreu ao dar a luz ao seu 14° filho. Todo em mármore branco, contem inscrições retiradas do Corão talhados com pedras semi-preciosas, e a incrível cúpula principal é costurada com fios de ouro. Eu já estou viajando por um ano e sete meses e tive a oportunidade de conhecer vários templos, palácios e construções belíssimas, mas nada me impressionou tanto como o Taj Mahal. Mesmo com milhares de pessoas visitando o mausoléu, o lugar é envolvido por uma atmosfera de paz e serenidade e sua arquitetura é deslumbrante, delicada e imponente. Passei cerca de 4 horas visitando o complexo e saí de lá com vontade de ficar apreciando por mais tempo. À medida em que o sol ia baixando, o monumento era tingido por diferentes tonalidades de cores. Do branco mármore a tons pastéis de amarelo e laranja. Um verdadeiro espetáculo!

 

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Taj Mahal – Gate north – Agra, Índia

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Uma das 7 maravilhas do Mundo – Taj Mahal – Agra, Índia

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Por do sol em Taj Mahal, Agra, Índia.

Enquanto os locais desembolsam apenas 20 rúpias, turistas estrangeiros pagam 750 rúpias pelo ingresso que lhe dá direito a uma garrafa de 500 ml de água e um par de protetores de calçados. A visita vale cada centavo, mas também vale muito conhecer outros pontos que oferecem lindas vistas do mausoléu.

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Sol nascendo em Taj Mahal, Agra, Índia.

Taj Mahal, Agra, Índia.

Taj Mahal, Agra, Índia.

 

Não há mal que não venha para o bem!

Eu já mencionei a maioria das dificuldades que venho enfrentando na Índia em meus posts anteriores. Mas as coisas poderiam estar piores se não tivesse encontrado Aman e Juyti.

Juity, Aman e o amigo Dani

Juyti, Aman e o amigo Dani

Era final do dia. O sol já ia se pondo, colorindo o céu de laranja, deixando as poucas nuvens com um lindo tom lilás. Como todos por aqui, ele me ultrapassou devagar, me olhando, fazendo um leve gesto de comprimento com um sorriso de orelha a orelha. Passou calado, só depois olhou para o motorista e comentou alguma coisa… O motorista acelerou e parou metros adiante. De longe pude perceber sua excitação ao sair do carro. À medida que me aproximava, intensificava o gesto de parar com as mãos… Stop! Stop! Eu estava em um ritmo forte para poder alcançar o próximo vilarejo e achar um lugar para passar a noite antes de ficar escuro. Naqueles poucos segundos que nos separava, exitei em parar várias vezes… Vou passar batido! Vou parar… Não! Puts! Vai escurecer! E daí! Tá perto! Parei! Mas meio com vontade de seguir! Em um rápido bate papo, o cara me pareceu legal, entreguei a ele o meu cartão de visita com o número de telefone local. Ele me ofereceu estadia em sua casa, já que sua cidade estava a menos de 100 km dali, na direção que eu seguia. Nos despedimos com a promessa de receber seu telefonema pala noite e ajustar nosso encontro no outro dia. Mas no outro dia eu não acordei bem, e decidi me resguardar. Quando ele ligou, mais ou menos 10:30h da manhã, sugeri adiar o encontro para o dia seguinte, explicando que precisava descanar e tudo mais. Preocupado, ele veio até mim, sem saber onde eu estava hospedado, me achou. Me ligou algumas vezes… meu fone estava no modo silencioso e não percebi as ligações… mas ele veio mesmo assim! Disse que em uma cidade pequena na Índia, é fácil encontrar um estrangeiro viajando de bike. Batemos um bom papo, tomamos um sorvete, comprei algumas frutas e ele se foi, me esperando no dia seguinte. Eu acordei por volta de 4:30h, chupei umas laranjas de café da manhã e meti o pé, animado, sabendo que teria meu primeiro contato íntimo com uma família Indiana. No meio do caminho, aconteceu o atropelamento! Um tratorista me alcançou no topo de uma pequena subida de um pontilhão, e na descida, ele vinha apenas um pouco mais rápido, me ultrapassando lentamente, girando o pescoço para trás me “admirando”, talvez tentando entender “o quê esse maluco está fazendo aqui!?”. Como não existe regras de trânsito na Índia, um carro cruzou a pista e vinha voltando na contra-mão. O trator me impediu de ver essa manobra, e o tratorista se assustou quando viu o carro. Para não colidirem de frente, o tratorista puxou seu veículo com tudo para o meu lado, e o finalzinho da carreta pegou no meu guidão! Se eu tivesse visto o carro no sentido contrário, certamente poderia ter evitado o acidente! Eu não vi! Fui ver o carro quando já estava no chão! Centésimos de segundos depois de bater forte com a cabeça no chão! Meu capacete rachou e fiquei com o lado esquerdo do corpo todo ralado. Levantei e fui empurrando a bicicleta até um pequeno bar na beira da estrada. Com água mineral, lavei os ferimentos com sabonete, peguei meu kit de primeiros socorros, fiz os curativos com paciência, pingando de suor, e segui com dores nos dois punhos, pedalando até a entrada da cidade de Etawah, onde mora Aman. Liguei para ele. Em 10 minutos ele me encontrou tomando um chá com o dono de um boteco, debaixo de um ventilador. Nessa altura eu estava bem dolorido, e ao me ver todo ralado, foi logo demonstrando sua preocupação. Pediu para o amigo Dani ir pedalando a minha bicicleta e me colocou dentro do carro. Aman mora com sua tia Juyti, dentro da sede de um hospital onde ela trabalha como médica. Me instalaram em um quarto com ar condicionado, fizeram curativos, compraram remédios e me deram comida. Quando percebemos que um dos machucados estava infeccionado, fomos ao hospital, me deram duas injeções e mais remédios. Ela também ajudou a tratar uma pequena diarreia que durou um dia e meio. Ao mesmo tempo em que sua tia me tratava, Aman foi demonstrando seu carinho e preocupação, me proporcionando tudo aquilo que eu precisava e mais um pouco. Frutas, cereais, boa comida, sorvete… cada hora era uma boa surpresa! Fez questão de me levar para conhecer os arredores da cidade e foi meu guia em Agra. Fizeram me sentir em casa!

Hora detratar os ferimentos infeccionados. Hospital e Etawah

Hora detratar os ferimentos infeccionados. Hospital e Etawah, Índia.

Durante a minha recuperação, tive tempo para colocar a casa em ordem, organizando anotações, fazendo contatos e pesquisas. Processo lento e difícil com a internet do celular. Fui para Agra de ônibus. Era preciso ganhar tempo! Agora, vou usar a cidade apenas para dormir. Já vi tudo que eu queria por lá! Com Juity e Aman, pude vivenciar e fazer parte de uma maneira mais íntima do dia-a-dia de uma família de classe média indiana, cozinhando, indo ao mercado, ajudando nos pequenos afazeres de casa. Pude entender um pouco mais sobre a “lógica indiana” que rege o dia-a-dia e as interelações das pessoas. Senti os aromas e aprendi um pouco mais da culinária local. Mas sobre tudo, o mais importante desse encontro, foi que fiz dois amigos para a vida toda e serei eternamente grato por tudo que fizeram por mim! Muito obrigado Juyti e Aman! Até um dia!

Aman, orgulhoso, me apresentando o Taj Mahal - Agra, Índia

Aman, orgulhoso, me apresentando o Taj Mahal – Agra, Índia