Varanasi: A cidade mais sagrada da Índia

Entrei na Índia por Sonauli, divisa com o Nepal. Uma fronteira confusa, com muita gente transitando de um lado para outro sem qualquer fiscalização. É mais rápido receber os carimbos da imigração do que achar onde ela funciona propriamente. A estrutura é simples e empoeirada! Os agentes mau humorados, pessoas me cercando pedindo dinheiro, oferecendo prostitutas, drogas, lembrancinhas ou mesmo prometendo a melhor taxa para trocar dinheiro. Um calor de 38° C já as 8:30h da manhã prometendo piorar… Muito lixo na rua sendo queimado, exalando um cheiro de boas vindas! Eu estava a apenas 10 minutos na Índia e já vinha matutando o tamanho da encrenca que estava para enfrentar.

Fronteira entre o Nepal e Índia.

Fronteira entre o Nepal e Índia.

É praticamente impossível pedalar entre 10h e 16h. A temperatura chega aos 45° C e quase não venta. Os motoristas são tão alucinados quanto no Nepal, porém, como a média da velocidade é mais alta e o trânsito mais intenso o risco aumenta. A buzina continua sendo a única lei de trânsito respeitável! A impressão que tenho é que se o carro não tivesse buzina os indianos não saberiam dirigir… (…aquela mesma história que dizem que se amarrar as mãos dos italianos eles ficam mudos, manja?!), é uma sinfonia do início ao fim do dia! Sinto-me razoavelmente protegido com a quantidade de ciclistas que usam a estrada e como o relevo é incrivelmente plano, consigo pedalar em média 80 km por dia mesmo com horas e horas parado. Aliás, as paradas são um caso a parte!

Estrada na Índia

Estrada na Índia

Eu procuro armar a minha rede debaixo de árvores e distantes dos vilarejos para evitar aglomerações. Mas não tem jeito! As pessoas aparecem do nada e em poucos minutos elas se aglomeram em volta de mim e da bicicleta. Com as crianças eu já estou acostumado! Mas aqui o lance rola com os  adultos também! Curioso é que eles te encaram nos olhos, desconfiados e as vezes a expressão facial chega a ser rude. Quase nunca respondem as saudações de olá, causando uma péssima impressão. São praticamente 6 horas em que eu não consigo nem me mover e nem descansar direito. Em uma ou outra vez foi legal! Juntou pouca gente, falamos sobre o dia-a-dia em inglês, respeitaram a minha privacidade, não apertaram o botão do velocímetro, nem quiseram desgrudar na força o GPS do guidão, ou abrir os alforjes, ou montar na bicicleta. Eles não conseguem controlar a curiosidade! Gostaria de dizer que é engraçado! É, e não é! Na hora chego a ficar puto… mas depois dou risada… É o jeito deles, fazer o quê?

Um dos poucos lugares em que consegui despistar a multidão.  Índia

Um dos poucos lugares em que consegui despistar a multidão. Índia

Parada de descanso em meio aos locais. Índia

Parada de descanso em meio aos locais. Índia

A minha primeira parada na Índia foi em Varanasi, uma cidade de 1.1 milhões de habitantes que segundo a lenda foi fundada a mais de 5000 anos pelo Deus Shiva, sendo uma das cidades mais antigas do mundo e a mais sagrada para os Hindus. Varanasi significa “Porta do Céu”, e por isso é um destino muito cobiçado pelos hindus. Banhada pelo sagrado Rio Ganges, Varanasi é a mais indiana cidade da Índia. Aqui a religião hindu prevalece e nos atinge em cheio, com todo o seu misticismo e magnificência. Em meia a isso, vacas, sujeira, carros, buzinas, motos, bicicletas, muita gente, barulho, cores e aromas! Uma desorganização generalizada com vários acontecimentos, que para mim representa o mais puro retrato da Índia que sempre imaginei.

Varanasi - Índia

Varanasi – Índia

Varanasi - Índia

Varanasi – Índia

A alma da cidade são as escadarias que dão acesso ao rio. Conhecidas como gaths, representam a ligação entre o divino e a terra. São mais de 90 e cada uma tem seu significado e encantamento. Algumas são para reza, prática de ioga e até lavanderia pública. Com o nascer do dia, milhares de indianos com saris coloridas vão brotando das vielas para se banharem no rio sagrado, praticar ioga ou mesmo fazer oferendas, e rezar.

Hindu se refrescando nas águas sagradas do Rio Ganges - Varanasi, Índia

Hindu se refrescando nas águas sagradas do Rio Ganges – Varanasi, Índia

Hindus se banhando no rio Ganges, Varanasi, Índia.

Hindus se banhando no rio Ganges, Varanasi, Índia.

Hindus aguardando a cerimônia diária nos gaths em Varanasi, Índia

Hindus aguardando a cerimônia diária nos gaths em Varanasi, Índia

Em Dasaswamedh Ghat, todos os dias logo após o por do sol, milhares de pessoas se reúnem para a Cerimônia em Homenagem ao Ganges, Shiva e outros Deuses. Esta cerimônia é uma das principais atrações da cidade. Entoando mantras, milhares de indianos agradecem as graças alcançadas, enquanto eu, contemplando todo aquele misticismo, ia me embrenhando cada vez mais em um mundo completamente diferente e desconhecido do meu. Difícil fazer uma conexão daquilo que estava assistindo com o verdadeiro significado. De qualquer modo, acaba sendo um espetáculo bem bonito!

Cerimônia religiosa em Varanasi - Índia

Cerimônia religiosa em Varanasi – Índia

Cerimônia religiosa em homenagem ao deus Shiva. Varanasi, Índia

Cerimônia religiosa em homenagem ao deus Shiva. Varanasi, Índia

O Templo Shri Kashi Vishwanath, onde são feitas as cremações é outro Gath bastante visitado. É um lugar tão sagrado para os Hindus que não é permitido fotografar. E isso aguçou a minha curiosidade. Sempre acompanhados pelas famílias, centenas de corpos são cremados todos os dias. Um último banho de purificação é dado pelos familiares. A qualidade da madeira é escolhida e o preço é acertado na hora, podendo variar de 50 a 5000 dólares, segundo um guia local. O corpo molhado é colocado em cima da pilha de madeira e as flores que enfeitavam a maca do cadáver é oferecida as vacas, animal sagrado, que perambulam soltas e livres pelo lugar espalhando merda para todo lado. Apenas os homens da família participam da cerimônia, segundo o guia, as mulheres choram, impedindo a purificação da alma. Os hindus acreditam na reencarnação e que seu comportamento nesta vida vai determinar a acensão ou declínio de casta na próxima vida. É muito difícil a acensão social na Índia, quem nasce em uma casta, sempre viverá nela. A reencarnação é o único meio de mudar essa sina.   O ritual termina com as cinzas sendo jogadas nas águas do rio.

Templo das cremações em Varanasi, Índia

Templo das cremações em Varanasi, Índia

Outro lugar bastante interessante é o bairro velho com suas ruelas apertadas que hora exalam o perfume de incensos vindos dos templos, hora de frituras vindos dos pequenos restaurantes e hora de lixo. Existe praticamente um templo em cada beco, tornando o lugar profundamente místico, com milhares de peregrinos transitando de um lado para o outro em busca de souvenirs e oferendas para serem deixadas nos templos. Todos os dias, milhares de fanáticos religiosos fazem uma grande fila para entrar no Golden Temple, que é completamente cercado por policiais com armas e portas com detectores de metal. É proibido fotografar e entrar com celulares. Com entrada permitida somente para os hindus, uma forte revista é feita, com um policial metendo a mão, sem nenhum constrangimento nos órgãos genitais. Dedicado ao deus Shiva, o Golden Temple ou Kashi Vishwanath Temple é um dos mais famosos e sagrados templos hindus com mais de 3500 anos.

Ruelas do bairro antigo em Varanasi, Índia.

Ruelas do bairro antigo em Varanasi, Índia.

Comércio em Varanasi, Índia.

Comércio em Varanasi, Índia.

 

9 comentários em “Varanasi: A cidade mais sagrada da Índia

  1. Cynthia disse:

    Uau! Essa Índia promete!!! Estamos na garupa!!! Bjs

  2. Sueli disse:

    Eu, do jeito que sou, já estaria procurando um ótimo guru, para ouvi-lo um pouquinho kkkk! Continuo na garupa, bjssss

  3. Claudia disse:

    Que beleza Aurelio!!qta riqueza de detalhes!!!
    Esta incrível!!
    Estamos na garupa !!!
    Bj

  4. nonatanuri@hotmail.com disse:

    RELATO PERFEITO PARABENS PELA EXPLICAÇAO
    SAUDADE MAMIS

  5. […] uma conexão direta com Varanasi, a cidade mais sagrada da Índia, berço da religião hindu.  Click aqui para saber mais sobre Varanasi.  Click aqui para ver mais fotos de Varanasi. Me sentindo hora perplexo e hora encantado (os […]

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