Varanasi: A cidade mais sagrada da Índia

Entrei na Índia por Sonauli, divisa com o Nepal. Uma fronteira confusa, com muita gente transitando de um lado para outro sem qualquer fiscalização. É mais rápido receber os carimbos da imigração do que achar onde ela funciona propriamente. A estrutura é simples e empoeirada! Os agentes mau humorados, pessoas me cercando pedindo dinheiro, oferecendo prostitutas, drogas, lembrancinhas ou mesmo prometendo a melhor taxa para trocar dinheiro. Um calor de 38° C já as 8:30h da manhã prometendo piorar… Muito lixo na rua sendo queimado, exalando um cheiro de boas vindas! Eu estava a apenas 10 minutos na Índia e já vinha matutando o tamanho da encrenca que estava para enfrentar.

Fronteira entre o Nepal e Índia.

Fronteira entre o Nepal e Índia.

É praticamente impossível pedalar entre 10h e 16h. A temperatura chega aos 45° C e quase não venta. Os motoristas são tão alucinados quanto no Nepal, porém, como a média da velocidade é mais alta e o trânsito mais intenso o risco aumenta. A buzina continua sendo a única lei de trânsito respeitável! A impressão que tenho é que se o carro não tivesse buzina os indianos não saberiam dirigir… (…aquela mesma história que dizem que se amarrar as mãos dos italianos eles ficam mudos, manja?!), é uma sinfonia do início ao fim do dia! Sinto-me razoavelmente protegido com a quantidade de ciclistas que usam a estrada e como o relevo é incrivelmente plano, consigo pedalar em média 80 km por dia mesmo com horas e horas parado. Aliás, as paradas são um caso a parte!

Estrada na Índia

Estrada na Índia

Eu procuro armar a minha rede debaixo de árvores e distantes dos vilarejos para evitar aglomerações. Mas não tem jeito! As pessoas aparecem do nada e em poucos minutos elas se aglomeram em volta de mim e da bicicleta. Com as crianças eu já estou acostumado! Mas aqui o lance rola com os  adultos também! Curioso é que eles te encaram nos olhos, desconfiados e as vezes a expressão facial chega a ser rude. Quase nunca respondem as saudações de olá, causando uma péssima impressão. São praticamente 6 horas em que eu não consigo nem me mover e nem descansar direito. Em uma ou outra vez foi legal! Juntou pouca gente, falamos sobre o dia-a-dia em inglês, respeitaram a minha privacidade, não apertaram o botão do velocímetro, nem quiseram desgrudar na força o GPS do guidão, ou abrir os alforjes, ou montar na bicicleta. Eles não conseguem controlar a curiosidade! Gostaria de dizer que é engraçado! É, e não é! Na hora chego a ficar puto… mas depois dou risada… É o jeito deles, fazer o quê?

Um dos poucos lugares em que consegui despistar a multidão.  Índia

Um dos poucos lugares em que consegui despistar a multidão. Índia

Parada de descanso em meio aos locais. Índia

Parada de descanso em meio aos locais. Índia

A minha primeira parada na Índia foi em Varanasi, uma cidade de 1.1 milhões de habitantes que segundo a lenda foi fundada a mais de 5000 anos pelo Deus Shiva, sendo uma das cidades mais antigas do mundo e a mais sagrada para os Hindus. Varanasi significa “Porta do Céu”, e por isso é um destino muito cobiçado pelos hindus. Banhada pelo sagrado Rio Ganges, Varanasi é a mais indiana cidade da Índia. Aqui a religião hindu prevalece e nos atinge em cheio, com todo o seu misticismo e magnificência. Em meia a isso, vacas, sujeira, carros, buzinas, motos, bicicletas, muita gente, barulho, cores e aromas! Uma desorganização generalizada com vários acontecimentos, que para mim representa o mais puro retrato da Índia que sempre imaginei.

Varanasi - Índia

Varanasi – Índia

Varanasi - Índia

Varanasi – Índia

A alma da cidade são as escadarias que dão acesso ao rio. Conhecidas como gaths, representam a ligação entre o divino e a terra. São mais de 90 e cada uma tem seu significado e encantamento. Algumas são para reza, prática de ioga e até lavanderia pública. Com o nascer do dia, milhares de indianos com saris coloridas vão brotando das vielas para se banharem no rio sagrado, praticar ioga ou mesmo fazer oferendas, e rezar.

Hindu se refrescando nas águas sagradas do Rio Ganges - Varanasi, Índia

Hindu se refrescando nas águas sagradas do Rio Ganges – Varanasi, Índia

Hindus se banhando no rio Ganges, Varanasi, Índia.

Hindus se banhando no rio Ganges, Varanasi, Índia.

Hindus aguardando a cerimônia diária nos gaths em Varanasi, Índia

Hindus aguardando a cerimônia diária nos gaths em Varanasi, Índia

Em Dasaswamedh Ghat, todos os dias logo após o por do sol, milhares de pessoas se reúnem para a Cerimônia em Homenagem ao Ganges, Shiva e outros Deuses. Esta cerimônia é uma das principais atrações da cidade. Entoando mantras, milhares de indianos agradecem as graças alcançadas, enquanto eu, contemplando todo aquele misticismo, ia me embrenhando cada vez mais em um mundo completamente diferente e desconhecido do meu. Difícil fazer uma conexão daquilo que estava assistindo com o verdadeiro significado. De qualquer modo, acaba sendo um espetáculo bem bonito!

Cerimônia religiosa em Varanasi - Índia

Cerimônia religiosa em Varanasi – Índia

Cerimônia religiosa em homenagem ao deus Shiva. Varanasi, Índia

Cerimônia religiosa em homenagem ao deus Shiva. Varanasi, Índia

O Templo Shri Kashi Vishwanath, onde são feitas as cremações é outro Gath bastante visitado. É um lugar tão sagrado para os Hindus que não é permitido fotografar. E isso aguçou a minha curiosidade. Sempre acompanhados pelas famílias, centenas de corpos são cremados todos os dias. Um último banho de purificação é dado pelos familiares. A qualidade da madeira é escolhida e o preço é acertado na hora, podendo variar de 50 a 5000 dólares, segundo um guia local. O corpo molhado é colocado em cima da pilha de madeira e as flores que enfeitavam a maca do cadáver é oferecida as vacas, animal sagrado, que perambulam soltas e livres pelo lugar espalhando merda para todo lado. Apenas os homens da família participam da cerimônia, segundo o guia, as mulheres choram, impedindo a purificação da alma. Os hindus acreditam na reencarnação e que seu comportamento nesta vida vai determinar a acensão ou declínio de casta na próxima vida. É muito difícil a acensão social na Índia, quem nasce em uma casta, sempre viverá nela. A reencarnação é o único meio de mudar essa sina.   O ritual termina com as cinzas sendo jogadas nas águas do rio.

Templo das cremações em Varanasi, Índia

Templo das cremações em Varanasi, Índia

Outro lugar bastante interessante é o bairro velho com suas ruelas apertadas que hora exalam o perfume de incensos vindos dos templos, hora de frituras vindos dos pequenos restaurantes e hora de lixo. Existe praticamente um templo em cada beco, tornando o lugar profundamente místico, com milhares de peregrinos transitando de um lado para o outro em busca de souvenirs e oferendas para serem deixadas nos templos. Todos os dias, milhares de fanáticos religiosos fazem uma grande fila para entrar no Golden Temple, que é completamente cercado por policiais com armas e portas com detectores de metal. É proibido fotografar e entrar com celulares. Com entrada permitida somente para os hindus, uma forte revista é feita, com um policial metendo a mão, sem nenhum constrangimento nos órgãos genitais. Dedicado ao deus Shiva, o Golden Temple ou Kashi Vishwanath Temple é um dos mais famosos e sagrados templos hindus com mais de 3500 anos.

Ruelas do bairro antigo em Varanasi, Índia.

Ruelas do bairro antigo em Varanasi, Índia.

Comércio em Varanasi, Índia.

Comércio em Varanasi, Índia.

 

Lumbini – Local onde Buda nasceu.

Mesmo sem ter muito o que fazer em Pokhara, pois grande parte das atrações (cavernas e cachoeiras) estavam interditados devido ao terremoto, estiquei a minha estada em dois dias para poder recuperar a saúde.

Estrada no Nepal.

Estrada no Nepal.

Estrada no Nepal.

Estrada no Nepal.

Sabia que teria que escalar grandes desfiladeiros, afinal, estava ladeando os Himalaias, a temperatura iria beirar os 40°C e os pontos de apoio confiáveis para fazer refeições seriam cada vez mais escassos. Com isso, redefini minha estratégia, levantando por volta das 4h, pedalando até as 10h, e voltando a pedalar somente depois das 16h. Evitar o meio do dia é prioritário agora! Também diminui a quantidade de suprimentos, e apostei em várias pequenas paradas para comprar água. Assim, é uma forma de descansar, refrescar e conseguir beber um pouco de água gelada. E o plano deu certo! A única coisa que não gosto neste esquema é o fato de buscar um bom local para acampar pressionado com a sombra da noite chegando. Por outro lado, é no começo e no final do dia que existe mais vida nas estradas, me oferecendo mais motivos para fotografar.

A bicicleta no cotidiano dos nepaleses.

A bicicleta no cotidiano dos nepaleses.

Mulheres carregando estrume de búfalos para secar e usar como lenha para cozinhar. Beira da estrada, Nepal.

Mulheres carregando estrume de búfalos para secar e usar como lenha para cozinhar. Beira da estrada, Nepal.

Menina na fonte na beira da estrada no Nepal

Menina na fonte na beira da estrada no Nepal

Namastê na beira da estrada no Nepal.

Namastê na beira da estrada no Nepal.

Muita vida na beira das estradas no Nepal.

Muita vida na beira das estradas no Nepal.

Quando o sol vai ficando insuportável, começo a procurar uma boa sombra onde eu possa esticar a minha rede e ter um pouco de sossego para fazer comida. Nas pequenas vilas é impossível descansar. Toda hora chega um para perguntar exatamente a mesma coisa que o anterior… tem hora que cansa! Agora, chego, finjo estar muito cansado para dar tempo de todos chegarem, e só depois abro espaço para o diálogo! Tem funcionado razoavelmente bem!

Em Butwal, como em um passe de mágica, a estrada ficou incrivelmente plana e foi fácil chegar em Lumbini, meu último destino no Nepal.

Chegando em Lumbini - Nepal

Chegando em Lumbini – Nepal

Lumbini - Nepal

Lumbini – Nepal

Lumbini é famoso por ter sido o local onde a rainha Mayadevi deu a luz à Sidarta Gautama (623 a.C.), o fundador do Budismo. Com vários templos, monumentos, mosteiros e um museu, o local sagrado é um importante centro de peregrinação, tornando-se Patrimônio Mundial da Unesco em 1997. Uma atmosfera de paz, espiritualidade, fraternidade, e não-violência tomam conta do lugar.

Templo Mayadevi, lugar do nascimento de Buda. Lumbini. - Nepal

Templo Mayadevi e o Lago Puskarine, lugar do nascimento de Buda. Lumbini. – Nepal

As ruínas onde Buda nasceu ficam protegidas pelo templo sagrado Maya Devi, ao lado da lagoa Puskarini, lugar sagrado onde a rainha banhou-se antes de dar a luz e também onde a criança tomou o seu primeiro banho de purificação. Em 1996, arqueólogos descobriram os restos de uma estrutura de madeira e tijolos com um espaço aberto no centro, como um santuário, indicando o lugar exato do nascimento. O Pilar Ashoka erguido na parte ocidental de Mayadevi prova que Buda nasceu em Lumbini. O pilar foi erguido pelo governante indiano Ashoka, em 249 a.C.. Acredita-se que o imperador Ashoka, que matou muitas pessoas como parte de sua expansão territorial, adotou o budismo depois de visitar Lumbini. É considerado o monumento mais autêntica que comprova que Buda nasceu em Lumbini.

Santuário de Lumbini: Lugar onde nasceu Buda. Nepal.

Santuário de Lumbini: Lugar onde nasceu Buda. Nepal.

Um difícil recomeço pós terremoto! Kathmandu – Pokhara – 208 km

Eu já estava louco para colocar a bicicleta na estrada! Só não espera que meu recomeço seria tão ruim! Cometi erros, surpresas e a falta de cuidado em alguns detalhes, combinados, resultaram nos dias mais difíceis que enfrentei em cima de uma bike. Peguei carona nos últimos 12 km até Pokhara. A essa altura, não era mais o cronograma que importava, e sim a minha saúde!

Dia 1 –  Um dia depois do segundo grande terremoto. Acordei por volta das 5h da manhã. Dormi ligeiramente mal, temendo novos tremores e com a ansiedade de cair na estrada. Com o raiar do sol já estava na periferia, em uma área bastante atingida pelos tremores. Vi muitas construções demolidas e famílias garimpando os escombros em busca de sobreviventes e pertences.

Periferia de Kathmandu -    família vasculhando os escombros de uma casa ao lado da rodovia.

Periferia de Kathmandu – família vasculhando os escombros de uma casa ao lado da rodovia.

Veio à mente as emoções que vivi durante esses dias… Angústia! Destruição, desolação e medo! Na minha cabeça, flashes da Durbar Square que conheci em 2009 se alternavam com as imagens de destruição de agora. Dois momentos marcantes na minha vida.

Um repente, e sem querer, minha mente vai buscar a lembrança de um olhar de desespero de uma mãe… o pai de família sem esperanças e parecendo não ter forças para recomeçar… a inocência de um sorriso de uma criança que ainda não consegue dimensionar a tragédia… a casa no chão… o sonho destruído… a alma ferida… o apego as divindades… O trabalho voluntário me colocou frente a frente com as verdadeiras cicatrizes que uma tragédia como essa deixa na alma das pessoas e na minha também… Sensibilizado, cheguei a colocar em xeque a minha decisão de partir neste momento. É difícil partir e deixar esse sentimento para trás. Segui o meu instinto!

... buscando consolo na fé.

l … buscando consolo na fé.

Kathmandu fica dentro de um vale que se encontra a 1400 m de altitude, ao contrário do que muitos pensam, faz calor e o ar é seco. Como todo vale tem uma borda, iniciei o pedal escalando cerca 300 metros. Subida longa, não super inclinada, mas que exigiu força o tempo todo. Depois do trabalho árduo, veio a recompensa! Um ladeirão de 30 km aproximadamente, daqueles que todos os ciclistas gostam… Visual show, pedala só na boa, leva no freio, serpenteando o vale…

Um lindo visual na saída de Kathmandu.

Um lindo visual na saída de Kathmandu.

Com o tremor do dia anterior, havia menos movimento na estrada que o esperada, no entanto, motoristas ensandecidos em frota antiga e mal cuidada, sem acostamento, buracos, ondulações, velocidade e peso da bike, exigiam cautela. Um fato bastante curioso foi perceber que a preferência na estrada é de quem vem embalado! Aqui meu irmão, buzinou, sai da frente que vem um motorista doido, aproveitando o embalo da toada que conseguiu engajar. É normal o veículo que esta sendo ultrapassado frear, assim como quem vem do outro lado, para facilitar a ultrapassagem.  Você vê cada fina, meu!!!  Tem que ficar esperto! Com outras “lógicas”, acontecem coisas que não pertencem a vivencia do nosso dia a dia. Nas estradas do Nepal, buzinou… sai da frente! Já entendi!

Olha como são a coisas… No meu post anterior, tracei um paralelo entre os riscos e a preparação necessárias para executar um grande projeto como o meu. Escrevi que a minha experiência em viajar de bicicleta, conhecimento e preparação, não me isentavam dos riscos e de cometer erros. Quem leu lembra! Pois é! Nos 208 km que separam Kathmandu e Pokhara, cometi vários pequenos erros, que associados a imprevistos, falta de atenção e algumas surpresas, me levaram a exaustão! Cheguei em Pokhara esbagaçado! Eu explico!

O descidão me levou direto para uma panela de pressão. Quando parei para comer alguma coisa, meu amigo, a temperatura perto dos 36° C, em meio a umidade da floresta temperada, me causaram a sensação que estava cozinhando… a cabeça fervendo. Quanto mais a temperatura corporal sobe, mais difícil se torna manter a performance. Nestas condições, nosso organismo sofre ajustes metabólicos e fisiológicos tentando proteger a nossa integridade física. Com a alta umidade, a transpiração, que é o principal mecanismo de resfriamento corporal reduz a sua eficácia, pois o ar úmido atrapalha a formação das gotas de suor, que quando evaporadas, reduzem drasticamente a temperatura do corpo. E isso é fatal na prática esportiva! Embalado pela deliciosa descida, cometi mais um erro, bebendo menos água do que deveria. Mais preocupado em achar um lugar seguro para comer, não dei relevância para os fatos naquele momento. Era um alerta que passou despercebido naquele momento!

No período da tarde, a estrada continuou sinuosa, porém, agora com muito sobe e desce. Eu já estava um bom tempo sem pedalar devido as consequências do terremoto, e o fato de estar mais pesado com provisões me fizeram terminar o dia bem cansado. Segundo as informações, havia muitos lugares que passavam por dificuldade de abastecimento. No caminho entre Kathmandu e Pokhara essa informação não procede. Tudo funcionando bem! O problema é encontrar um lugar que passe alguma segurança para comer. A comida exposta ao forte calor, sem proteção ou refrigeração, tornam cada refeição uma roleta russa!

Momo - Prato típico da cozinha nepalesa. Massa recheada com búfalo, frango ou vegetais que lembra o guioza, prato japonês.

Momo – Prato típico da cozinha nepalesa. Massa recheada com búfalo, frango ou vegetais  servida com molhos de diferentes especiarias que lembra o guioza, prato japonês.

Já na boca da noite, enfrentando uma dura subida, fui me aproximando de Shakti, um nepalês carregando água morro acima, para abastecer sua casa lá no alto da vila. O esforço demonstrado na face. Ele também entendeu o meu cansaço. Paramos ao mesmo tempo! Nos apresentamos e ele me explicou as dificuldades que a vila vem enfrentando. Disse que todos estão com medo, dormindo em barracas improvisadas e que algumas casas foram demolidas e outras estão condenadas, mas por sorte ninguém morreu. É o papo do cotidiano por aqui! Acabei dormindo ali!

Meu plano era comer em algum lugar durante o dia e cozinhar no jantar. Mudei! Resolvi cozinhar até ficar com a quantidade normal de suprimentos. Afinal, vou fazer uma longa parada no meio do dia e vai sobrar tempo para isso. O calor está muito forte! Essas são as adaptações e ajustes que vou fazendo em cada país até encontrar o ritmo ideal.

Durante a noite fez um calor tremendo na barraca. Acordei com a boca e a garganta secas e o corpo molhado de suor! Mais uma noite de sono ruim.

E suas irmãs. Nepal

Shakti e suas irmãs. Nepal

Dia 2 – Cai na estrada perto das 8h. Muito tarde! Eu pensando: _ Preciso ir embora, o calor vai me pegar! Mas o papo com Shakti e suas irmãs estava tão agradável que nem vi o tempo passar. Meu café da manha foi apenas um chá e alguns biscoitos.

O sol veio bruto e a temperatura atingiu 36°C! O sobe e desce não teve piedade! Em Mugling, havia chegado no fundo do vale a 250 m de altitude e agora até Pokhara teria que voltar a 850 m. A pior parte estava por vir… Não apenas pela diferença de altitude, mas principalmente devido as ondulações, acumulando quase o triplo de subida total.

Melancia em Mugling... sedento!

Melancia em Mugling… sedento!

Poderia ter ficado ali por mais tempo, mas julguei erroneamente que cumprir o cronograma seria mais importante naquele momento. Cansado, diminuía a velocidade nas descidas para  ficar mais tempo descansando e me refrescando antes da próxima ladeira. E ali fui… perrengando e progredindo como deu. E pela primeira vez em toda a minha vida, praguejei contras os Deuses, pedindo um pouco de vento… em qualquer direção! Ar morto! Batendo pesado, parecendo bafo de “beque de várzea” no cangote! Manja?

Em Anbukhaireni parei novamente, preparei uma salada de feijão, atum, azeite e cebola e comi sem o menor apetite. Descansei na rede por 2h e segui viagem, a duras penas! Pedalei mais um pouco e quase sem forças resolvi parar em uma vila logo depois de Dumre, em meio a outra subida íngreme. Senti eminência de câimbras ao desmontar da bicicleta.

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Acampamento perto de Dumre – Nepal

 

Uma crosta seca na minha testa e na minha roupa me revelaram a quantidade de sal e consequentemente de água que havia perdido. Ali que a minha ficha caiu. Forte calor, umidade, desidratação, noites mal dormidas, carregando mais peso, dias parados, stress com o terremoto, alimentação com baixo teor nutricional. Além do mais, forcei um pouco o ritmo para tentar cumprir o cronograma. Esses fatores somados foram me definhando… Para piorar, eminências de câimbras surgiam em todas as partes do meu corpo. Principalmente pés, mão e costelas. Minha vista embaçava de vez em quando, ligeira dor de cabeça, um leve zumbido no ouvido. Naquele momento nem mesmo as crianças que sempre me cercam conseguiram me animar. Pedi licença, fechei o zíper da barraca e deitei para descansar.

A primeira meia hora na barraca serviu para eu mentalizar os procedimentos que deveriam ser tomados. Comecei um processo de hidratação eficiente bebendo água devagar e constantemente. Logo escureceu, e com isso as crianças se foram. Pude preparar um macarrão com atum que comi mais uma vez sem vontade. Fiz um alongamento leve! Já houve dias muitos mais intensos nas minhas viagens, mas nunca me senti tão cansado em toda a minha vida. Não conhecia esse tipo de fadiga.

A última vez que olhei o relógio já se passava da meia noite e meia. Reservei um hotel em Pokhara apostando que levantaria melhor. Estava dolorido e com calor. Meu relógio despertou as 4h. Definitivamente, evitar o meio do dia passou a ser prioridade. Comi o resto do macarrão que sobrou, mais uma vez sem apetite e com tudo pronto caí na estrada. Me sentia melhor, mas ainda cansado.

Dia 3 – Estava a 70 km de Pokhara. O terceiro dia começou com uma longa subida de 7 km. Em 4 horas e meio de pedal alcancei a metade do caminho. Só consegui comer 3 bananas. Armei a minha rede debaixo de um toldo de zinco, estacionei minha bike ao lado e descansei. Dormi pesado cerca de 3 horas. Quando acordei me senti fervendo novamente. O sol havia contornado as árvores e agora castigava o zinco. Acordei dentro de um forno e não sei por quanto tempo fiquei ali. Me senti fraco! Outra vez a cabeça transpirando muito! Para ficar em frente de um ventilador, arrisquei comer em um pequeno restaurante. De novo sem o menor apetite!

Rio Trisuli serpenteando as montanhas do Nepal

Rio Trisuli serpenteando as montanhas do Nepal

O fato de ter reservado o hotel me forçava a seguir em frente. Fui definhando, passando a ficar cada vez mais complicado progredir. Fiz inúmeras paradas! Difícil manter a concentração.  O GPS mostrava apenas 11,76 km do hotel. Era pouco! Mas para mim deu! Nas condições que eu me encontrava, aquela distância representaria pelo menos uma hora e meia de pedal. Cheguei mais longe que os limites que normalmente estabeleço. Tive alguns sinais de câimbras novamente, e a vista tornou a ficar embaçada. A minha preocupação agora passava ser a minha saúde. E as minhas opções eram: Ou eu monto a barraca aqui em qualquer lugar e arrisco mais uma noite de sono, ou dou um jeito de chegar a Pokhara.

A primeira camionete vazia que passou, parou! Um casal. Me deixaram na porta do hotel! Fiz check-in, tomei um banho, organizei as prioridades. Era preciso descansar, hidratar e nutrir meu corpo. Afinal, o verão se aproxima, podendo piorar as coisas.

Falta de informações confiáveis, pequenos erros, surpresas, menosprezo de alguns sinais e detalhes. Acabo de completar um ano e meio de viagem, e já vivenciei muitas dessas situações de forma isoladas sem grandes danos. Contudo, desta fez, a combinação foi me minando, traiçoeira, aproveitando os meus descuidos, me colocando frente a frente com os meus piores dias na estrada se tratando de rendimento e fadiga. Talvez, o lance dos terremotos associado a minha auto-confiança, tenham trazido um relaxamento natural me fazendo perder um pouco o foco. Às vezes sinto-me tão seguro que momentos como esse são críticos para me colocar de volta a realidade.  Tudo para me manter sempre alerta, e me lembrar que estou longe de ser de ferro! Sigam na garupa!

O risco é proporcional a intensidade que você escolhe viver!

Eu fico com a pureza da resposta das crianças... É a vida, é bonita e é bonita!

Eu fico com a pureza da resposta das crianças… É a vida, é bonita e é bonita!

Esse foi o momento mais difícil da minha grande aventura de viajar de bicicleta mundo afora. Por um instante passou pela minha cabeça: _ Vou morrer e não vai dar para fazer nada! Ironicamente, a minha bicicleta estava desmontada e protegida ainda dentro da caixa.

Eu sou responsável, reconheço e assumo o risco de uma grande aventura como a minha! Tudo pode acontecer… Posso errar, uma fatalidade ou tragédia pode ocorrer… Mas também pode ocorrer terremoto na Califórnia! Tsunami no Japão! Ataque terrorista em Paris! Avião cair, bala perdida no Rio! Assalto seguido de morte em São Paulo! Carro desgovernado, briga de torcida… descarga elétrica amigo! Botijão de gás! Dá um treco, e de uma hora para outra você “viaja” antes do combinado! Está certo que o meu risco é maior do que a maioria das pessoas… evidente… mais o risco é proporcional a intensidade que você vive… e eu estou seguro, pelo menos no momento atual da minha vida, que estou vivendo na intensidade que escolhi. E cada um escolhe a sua… na boa, a intensidade muda de acordo com a fase que você está.

Como disse em outra ocasião, acredito ser lúcido o suficiente para gerenciar os riscos da melhor maneira possível! Não caí nessa aventura de paraquedas! Tenho conhecimento em preparação física e minha profissão exige no mínimo um conhecimento básico sobre nutrição. Tenho treinamento de primeiros socorros (embora sei que em muitos casos não consigo aplicar em mim, mas consigo estabelecer prioridades em situações de apuro), estudei os sintomas das doenças mais comuns em que estou mais vulnerável, trago medicamentos com bulas, tenho contato direto com meu amigo e médico André Moro, que está sempre esperto e disposto a ajudar, tenho seguro de saúde. Tomei todos os tipos de vacinas disponíveis no Brasil antes de viajar, estudo sempre que possível as previsões do tempo e vento, tenho pílulas para purificar água. Consigo solucionar boa parte dos problemas que a bicicleta pode apresentar… carrego comida… faço pesquisas na internet para saber tudo que julgo necessário… só para citar alguns exemplos! O risco existe! Mas eu trabalho forte para minimizá-lo! Esse é a função de um bom aventureiro!  Não é porra-louquice! Eu não gosto de falar muito de mim, e os mais próximos sabem muito bem disso, e pode até parecer que estou dando uma de bom e que nada vai acontecer… não é nada disso! Só estou dizendo que coloco muita energia no que estou fazendo! É o papel de todo bom advogado, médico, engenheiro, professor e etc! De aventureiro também! É trabalho! Um trabalho que faço com TESÃO!

Quanto a viajar de bicicleta, fico melhor cada dia que passa! E também é assim com médico, advogado, engenheiro e professor…  O dia-a-dia oferece uma gama de acontecimentos que somados, muitas vezes, tornam as tomadas de decisões mais claras e seguras e as tarefas cada vez mais fáceis de serem executadas. Isso é experiência! Não cai do céu! Já pedalei em muitos lugares inóspitos, e já faz um bocado de tempo que estou na estrada… Tenho consciência  que essa experiência não me assegura nada! Erros, distrações, cansaço, tragédias, acidentes! Pode acontecer com qualquer um em qualquer lugar! Não estou certo se morar nas grandes cidades brasileiras como São Paulo e Rio de Janeiro é mais seguro do que viajar de bicicleta, por exemplo! Eu não quero dramatizar o assunto! Na grande maioria dos casos eu me sinto mais seguro na estrada. Uma estrada ou outra é mais perigosa, mas geralmente escolho o trajeto mais tranquilo.

Outro dia uma amiga perguntou se tenho medo? É claro que sim! No entanto, respondi, quanto mais me sinto preparado, mais seguro eu me sinto para enfrentá-lo! A experiência e o conhecimento nos alimenta de coragem, que somados ao tamanho do seu desejo, não há medo que te segura! Com tudo isso, a cada dia que passa, além de estar cada vez mais perto de casa, me sinto mais preparado!

A minha missão de voluntário neste triste episódio chegou ao fim! Fiz o que pude e estou muito satisfeito com o que fiz. Ajudar fez bem para mim! A sorte de sair vivo dessa tragédia, e a oportunidade de ajudar esse povo que muito admiro, foi uma grande experiência de vida que contribuiu para muitos aprendizados , mas que sobre tudo, me fez ainda mais humano!

Obrigado pelo apoio de todos os que participaram do vídeo ou de qualquer outro tipo de manifestação, desde um “curtir” no face, um comentário no blog, ou até mesmo mandando energias positivas em pensamento! Realmente fiquei feliz e emocionado e com a renovação de uma certeza que já tinha:  Sim, vou seguir em frente!  Agora, mais forte do que nunca!

Crianças me saudando com um NAMASTÊ - O ser que habita meu coração saúda o ser que habita o seu coração

Crianças me saudando com um NAMASTÊ – O ser que habita meu coração saúda o ser que habita o seu coração

#sigaemfrenteaurelio

Como não ficar emocionado! Chorei! Um choro gostoso, que lavou a minha alma!

É sempre bom receber uma surpresa boa! Quanta gente querida! Cada aparição uma surpresa deliciosa!

Agradeço cada um de vocês  e saibam que o pequeno tempo que dedicaram gravando este vídeo, pode ter sido apenas alguns segundos para você, mas para mim, tem o valor de uma eternidade! Vocês fazem a diferença!

E quanto a você, Cynthia, que é parte de mim… sem você ao meu lado… nunca chegaria tão longe! Amor maior!

Obrigado, do fundo do coração, a todos vocês!

Estamos juntos #sigaemfrenteaurelio

– Edição e coordenação: Cynthia Magalhães

– Cantor e compositor: Fábio Nazareth

– Participação especial: Pai, Mãe, Tia Alessandrinha, Tio Vi, Biel e Fael, Maurícião e Lilian, Lincoln, Lilian e Lucas, Zaqueu e D. Edna, RodriCÃO, Márcia e Edson, Barney, as Princesas e o Príncipe, família Torres, Dioguito, Pri Favaro, Leandrinho Santos, Buninha Carnaval, Camilinha Guido, Aline Damascenos, Silvia Helena e Pedrão, Dr. Pablius, Marcião e Bruninha, Ná e Be, Doctor Bruno, Amigas do Condomínio Barcelona,Pepe, Fabião Almeida, e Baixinho.

Pela segunda vez o Nepal marca a minha vida!

Trek ao acampamento base do Everest - 2011

Trek ao acampamento base do Everest – 2011

A primeira foi em 2009, quando fiz a caminhada ao Acampamento Base do Everest. Uma viagem de aventura que pelas dificuldades, é inevitável fazer uma análise interior. Nesta viagem, encontrei algumas respostas e no pé da montanha mais alta do mundo decidi buscar um novo estilo de vida, que realmente fizesse sentido e completasse as minhas ambições. Além de ser um dos lugares mais lindos que já visitei, hindus, budistas e muçulmanos, convivem em harmonia, tramando uma diversidade cultural e religiosa enraizadas na realidade do dia a dia, com crenças muito diferentes das nossas, fazendo do Nepal um lugar que ao mesmo tempo choca e deslumbra. Apesar dos diferentes grupos étnicos, os nepaleses se caracterizam pelo sorriso puro e simpatia, tornando Kathmandu a capital mundial do sorriso, mesmo sendo um dos lugares mais pobres do planeta. Eu conheço algumas pessoas que já visitaram o Nepal e todos são unânimes em afirmar que de alguma maneira, mudaram sua forma de pensar e ver a vida.

Não foi diferente comigo!

“O vídeo acima mostra mulher tomando banho nas águas do rio Bagmati, um rio considerado sagrado por hindus e budistas, no Templo de Pashupatinath ( Templo das cremações).
A imagem choca, pois o rio recebe todo o esgoto da região sem nenhum tratamento, deixando sua água com forte odor e aparência péssima.
Pashupati significa “o senhor e protetor de todos os seres vivos” e aqui seria o lugar em que Shiva teria repousado.”

Do Nepal, voltei com a ideia de planejar uma grande viagem de bike, um sonho guardado na gaveta, onde criei o conceito de juntar meus hobbies em um grande desafio: viagem de aventura, gastronomia, fotografia e busca por novas culturas. E assim nasceu o Projeto Noruega by Bike, finalizado com o lançamento do livro em agosto de 2011, e já no mês seguinte, eu já estava trabalhando em um novo projeto chamado Ásia by Bike, que foi renomeado de Da China para Casa by Bike, responsável pelo meu retorno ao Nepal. (Saiba mais sobre o livro Noruega by Bike)

Bairro de Thamel - Kathmandu - Nepal

Bairro de Thamel – Kathmandu – Nepal

As diferentes etnias do Nepal... um só sentimento...

As diferentes etnias do Nepal… um só sentimento…

Cheguei em Kathmandu na véspera da tragédia em um cansativo voo noturno com escala em Seul, vindo de Ulan Bataar, capital da Mongólia. Estava empolgado! Afinal, voltava ao lugar onde tudo começou, com a expectativa de fazer um novo trek nas montanhas do Himalaia e seguir viagem pedalando pelo interior, até cruzar a divisa com a Índia (Banbasa), no extremo oeste do país. A longa espera na fila da imigração e a confusão na esteira de bagagens me traziam uma paz difícil de explicar. Todos muito contrariados e aflitos com a confusão de sempre no aeroporto, e eu, parecendo estar em outra dimensão, feliz por viver aquele caos novamente. Sabia que de alguma forma, tudo iria dar certo!

Cansado e ainda sem um mapa da região, coloquei a caixa da bicicleta no pequeno táxi e segui para o bairro de Dilli Bazar, cerca de 2,5 km do Thamel (lugar mais atingido pelo terremoto, o bairro central da cidade, onde ficam a maioria dos turistas e as maiores atrações culturais e históricas de Kathmandu). Consegui hospedagem na casa de um professor norte-americano via warmshowers, caso contrário, muito provavelmente, estaria no Thamel na hora do desastre. A casa de Dhane Blue fica entre um emaranhado de vielas onde não há espaço para os carros, com postes improvisados, fios emaranhados, lixo espalhados nos terrenos baldios e chão de pedras soltas e barro. Enquanto adentrava ao bairro carregando a caixa da bicicleta, logo associei o lugar as favelas do Brasil.

Dhane Blue e Suva momentos depois do terremoto atravessando os escombros - Vielas do Bairro de Dilli Bazar, Kathmandu - Nepal

Dhane Blue e Suva momentos depois do terremoto atravessando os escombros – Vielas do Bairro de Dilli Bazar, Kathmandu – Nepal

A casa onde estou é relativamente segura. Não sofreu nenhuma rachadura com os tremores. A casa não possui geladeira, vaso sanitário, e a água sai marrom das torneiras, mas considero que pelos padrões da Kathmandu, estou bem instalado.

Na casa também moram dois garotos locais. Suva de 18 anos, que divide o quarto comigo e Karun de 13. Professor e aluno respectivamente da mesmo escola em que Dhane Blue leciona.

Conversava com Suva sobre fotografia. O garoto muito interessado, gosta de trabalhar com photoshop, e fazíamos um plano para fotografar a cidade nos próximos dias quando o chão tremeu levemente, ao mesmo tempo em que a energia foi cortada. Frações de segundos depois, veio o grande tremor…

Eu demorei um pouco a perceber o que estava rolando… ele, rapidamente se levantou e me arrastou correndo para fora de casa. Enquanto atravessávamos o quarto, o tremor foi aumentando, chacoalhando tudo, fazendo um barulho danado! Os utensílios de cozinha foram ao chão, os vidros das janelas á um triz de se quebrarem… a estrutura do prédio balançou, acompanhando o chão que nos fez esbarrar nas paredes e batentes enquanto o medo e o desespero foi aumentando… O que é isso? Ataque terrorista? _ Earthquake man! _ Earthquake man! Gritava Suva, sem largar a manga da minha camiseta.

Dhane Blue conseguiu sair da casa alguns poucos segundos depois. Desorientados e com medo, seguimos em direções contrárias no instante em que outro tremor, ainda maior aconteceu. Um muro desabou, fazendo Blue retornar para a nossa direção. Pude ver seu semblante apavorado surgindo em meio ao poeirão que o cobriu por completo. Fomos ao chão por duas ou três vezes! Hora o chão nos jogava para um lado, hora para outro. Por sorte, no momentos em que caímos por cima de uma cerca de bambu de uma pequena horta, o muro do terceiro andar de uma casa veio abaixo, inteiro, se espatifando a menos de 3 metros das nossas cabeças. Pude sentir os estilhaços me atingindo… enquanto que desta vez, éramos nós que estávamos sendo encobertos pela poeira… ainda com o chão tremendo. Se caíssemos para o outro lado como no instante anterior, seríamos atingidos em cheio! Nos sentamos e nos seguramos uns aos outros… O barulho oco do muro se espatifando no chão parecia não sair da minha cabeça!

Quando tudo parecia mais calmo, corremos ao pátio aberto de um colégio e aos poucos a população foi chegando também… Todos muito assutados… Minutos depois, outro tremor de menor escala, mas suficiente para nos levar ao chão! Uma agonia! Mães com as crianças no colo, família e amigos se abraçavam na tentativa de confortarem uns aos outros. Rostos pálidos de medo! Os tremores se seguiram por horas, variando a intensidade e a cada tremor gritaria e apreensão.

Família abraçada buscando consolo enquanto alguns tentam contato com celulares. Pátio da escola momentos depois do terremoto - Kathmandu - Nepal

Família abraçada buscando consolo enquanto alguns tentam contato com celulares. Pátio da escola momentos depois do terremoto – Kathmandu – Nepal

Família em oração. Pátio da escola momentos depois do terremoto em Kathmandu, Nepal

Família em oração. Pátio da escola momentos depois do terremoto em Kathmandu, Nepal

Cerca de 15 minutos depois do grande tremor, mandei uma mensagem de texto para a minha família contando do terremoto e que estava tudo bem comigo. Depois o sistema 3G entrou em colapso e a comunicação passou a ser um desafio. Para piorar, sem energia elétrica, não tínhamos como recarregar as baterias dos celulares, computares e tudo mais.

O terremoto ocorreu ás 11:56h. Por volta das 16h, com tudo mais calmo, resolvi seguir para o centro da cidade, ainda sem saber a verdadeira dimensão da tragédia. Não tínhamos acesso a notícias, e as poucas informações que chegavam eram conflitantes vindas de pessoas que voltavam da rua. “Muitas pessoas mortas.” “Terremoto de magnitude 7.8.” “Quase ninguém morreu em Kathmandu, o problema foi no interior.” “Muita gente morreu em Kathmandu.” “O terremoto foi de 5,8 de magnitude.” “Caiu a torre da cidade.” “Vai faltar água e energia por uma semana.” “Vamos ter que dormir aqui no pátio do colégio.” “Dizem que o Thamel foi devastado.” “Vai ter mais terremoto a qualquer momento.” Foi assim que as informações foram chegando até mim… dependo do lugar que a pessoa estava voltando ela contava uma história diferente. Estava ansioso, curioso e aflito para saber a verdade.

Suva foi comigo. As informações que ele me dava não condizia com a realidade que eu estava encontrando. Milhares de pessoas mortas, prédios destruídos, muita confusão na cidade. Eu não via nada daquilo! O bairro de Dilli Bazar estava estranhamente desabitado e não mostrava nenhuma evidência de um terremoto devastador. Um muro ou outro destruído era tudo que vimos por ali. O fato de ter poucas pessoas nas ruas, era a única coisa que destoava da Kathmandu que eu conhecia até então. Aqui, há sempre muita gente nas ruas!

Um dos poucos locais destruído no Bairo de Dilli Bazar após terremoto em Kathmandu, Nepal

Um dos poucos locais destruído no Bairo de Dilli Bazar após terremoto em Kathmandu, Nepal

No entanto, o panorama foi mudando á medida que nos aproximávamos da Durbar Square, a praça mais famosa de Kathmandu, com vários templos e prédios históricos.  Cruzamos uma praça já tomada por barracas e tendas improvisadas com muitas famílias desabrigadas. Aglomerações de pessoas, ruas bloqueadas, caminhões do exército, policiais apitando e gesticulando tentando impor a ordem, ambulâncias em alta velocidade, gente correndo para lá e para cá… e ali, diante daquele caos, pela primeira vez, caiu a ficha de que aquele povo que esbanja sorriso e simpatia sustentava agora um semblante triste, amargo, desiludido.  Percebi que os maiores patrimônios dos nepaleses, o sorriso e o conjunto arquitetônico da Durbar Square, haviam desaparecido… Eu começava a entender o tamanho da tragédia.

Nepaleses atônitos após terremoto em Kathmandu, Nepal.

Nepaleses atônitos após terremoto em Kathmandu, Nepal.

Meus pensamentos, em devaneios, misturavam as emoções e lembranças que tinha daquela magnífica praça de anos atrás, com os templos completamente destruídos bem à minha frente. Uma lágrima rolou. Fui tomado por um vazio inexplicável. Do chão, olhava para o alto dos destroços do templo que em 2009 passei horas sentado, admirando o visual… me vendo lá em cima… Naquele dia, havia acabado de voltar do trek do Everest decidido a encarar a vida de uma maneira diferente… cheio de autoestima, entusiasmo e coragem… Entre uma foto e outra, meus pensamentos buscavam encontrar a melhor direção a ser seguida. Nunca vou me esquecer daquele dia!

Durbar Square - Kathmandu - Nepal

Durbar Square – Kathmandu – Nepal

Templo que resistiu ao terremoto na Durbar Square, Kathmandu, nepal.

Templo que resistiu ao terremoto na Durbar Square, Kathmandu, nepal.

No caminho de volta para o colégio me sentia deprimido, sem vontade de conversar. A terra continuou tremendo durante toda a madrugada. Por volta das 5:35h da manhã um tremor com mais intensidade deixou todos apavorados novamente. Eu não mais sentia medo! Sentia tristeza! Angústia! E esse sentimento se transformou em vontade de ajudar de alguma forma. Ficamos sem energia por 36h. Uma boa surpresa em meio ao caos. Todos apostavam em muito mais tempo sem energia. O Thamel por exemplo, só teve a energia restabelecida depois de 7 dias. Só então as notícias chegaram com mais precisão.

Muitos me perguntam sobre como foi o resgate das pessoas em meio aos escombros e se vi muita gente morta. Não! Eu não me sinto capaz de entrar em prédios condenados com segurança. Não tenho treinamento para isso! Vi alguns corpos ocasionalmente e muitos feridos. Me voluntariei fazendo um trabalho de profilaxia, contenção de epidemias e conscientização, espalhando bactericida em acampamentos de desabrigados e lugares com grande número de pessoas, explicando a importância de manter o lugar limpo. Foram 3 dias até que o nosso suprimento acabou. Depois, ajudei na distribuição de água e alimentos, carregando caminhões; na limpeza e desinfecção de áreas de emergência de dois hospitais; e na remoção de escombros na Durbar Square.

Prédio demolido pelo terremoto em Kathmandu, Nepal.

Prédio demolido pelo terremoto em Kathmandu, Nepal.

Dois dias atrás adoeci. Dor de cabeça, leve diarreia, e um pouco de febre durante a noite me fizeram pensar em cólera. No manhã seguinte, já sem diarreia, arrotos com cheiro de enxofre, ou ovo podre, me sugeriram giardia. Tomei medicamento e me hidratei. Também achei melhor não sair de casa e me resguardar, interrompendo por um tempo o trabalho voluntário. Afinal, estou em viagem de bicicleta e sei da importância de manter minha saúde em dia. Hoje já me sinto 100% e fiz apenas uma caminhada até o Thamel, que parece voltar ao normal. Agora apenas poucas lojas em prédios condenados estão fechados.

Embora ainda não tenho uma data específica para deixar Kathmandu, amanhã começo meus preparativos para iniciar o pedal. Pela manhã, com a promessa de reabertura da Embaixada da Índia, vou aplicar meu visto que pode demorar de 4 a 10 dias. Também aguardo um par de pneus que comprei pela internet vindos da Alemanha. Nesse meio tempo, pretendo continuar ajudando como voluntário. Ainda tenho que tirar a bike da caixa e montá-la, comprar gás para meu fogareiro de cozinha, repelente, protetor solar e preparar meu estoque de água e comida.

Infelizmente o governo fechou todos os treks do país, e ainda não tem uma data de reabertura. Também estou levando em consideração encurtar a rota no Nepal, entrando antes do previsto na Índia. É uma decisão que vou tomar de acordo com os fatos. Dizem que o abastecimento de água e comida em alguns lugares está muita abaixo das necessidades.

A cidade está coberta por uma nuvem de poeira. Com problemas na coleta de lixo e a falta de saneamento básico, o mau cheiro prolifera em algumas áreas. O calor e ar extremamente seco, deixa garganta, olhos e nariz irritados ou ressecados. Vez ou outra o chão ainda treme por aqui! Com mais frequência, sentimos um pouco de ondulações, como marolas passando por um barquinho. Bem de leve!

Quis o lado bruto do destino, que o Nepal marcasse mais uma vez a minha vida. Certamente, nunca vou esquecer essa experiência!

Para os nepaleses, fica meu sentimento de tristeza e solidariedade, e a esperança que esse povo forte e tão amável, de sorriso puro e cativante, encontre forças para se reerguer e superar um dos momentos mais difíceis da sua história recente.

Para mim, que estou vivendo a maior aventura da minha vida, vivenciar uma tragédia de tamanha dimensão, e consequentemente o maior risco de morte que já passei, ironicamente com a minha bicicleta dentro de uma caixa, me traz à lembrança uma frase que meu velho pai sempre diz: _ Para morrer, basta estar vivo!

E isso fortalece o meu conceito daquilo que eu sempre digo: _ Aproveite a vida!

ONE LIFE, ONE CHANCE!

NAMASTÊ!