Viajar de bicicleta na Mongólia não é para qualquer um! Mas que compensa, compensa!!!!

Longas distâncias sem estrutura de apoio, estradas de chão, hora de pedras soltas, hora de areão, subidas intermináveis, nevascas, vento forte e poeirão, temperatura abaixo de zero, e dificuldade de comunicação… Por outro lado, paisagens belíssimas, e um mergulho na cultura local. Tudo isso faz da Mongólia um dos lugares mais desafiadores e magníficos que já pedalei!

Mongólia: Um dos lugares mais desafiadores e magníficos que já pedalei

Mongólia: Um dos lugares mais desafiadores e magníficos que já pedalei

O que faz da Mongólia um país desafiador para se pedalar nesta época do ano são as dificuldades que surgem simultaneamente. O vento gelado chega com a nevasca ou levanta o poeirão, irritando os olhos, nariz e garganta; a estrada de pedra solta ou areão atrasa a viagem, pois exige desmontar da bike e empurrar; o esforço das longas subidas faz transpirar, aumentando a sensação de frio com temperaturas abaixo ou perto de 0⁰ C; noites mal dormidas na barraca devido ao frio, ou no chão das casas dos locais; informações conflitantes; dificuldade de comunicação… Tudo isso e muito mais… Como bicicleta mais pesada com a necessidade de carregar mais suprimentos; falta de banho ou de um banheiro confortável; necessidade de explicar tudo com mímica ou desenhos (muitas vezes sem sucesso)… tudo isso gera um estresse que acumula e aumenta muito o cansaço não só físico, mas também mental!

Montanhas nevadas na Mongólia

Montanhas nevadas na Mongólia

Na estrada chegando em Jargalant - Mongólia

Na estrada chegando em Jargalant – Mongólia

No entanto, as paisagens são revigorantes e o esforço do povo local em ajudar traz a motivação necessária para seguir em frente.

Em cada país procuro me adaptar as condições locais para achar o ritmo ideal para pedalar. E quanto mais essa adaptação demora acontecer, maior o risco de meu planejamento furar. Por isso o planejamento do Projeto da China para Casa by Bike é muito flexível, com metas reajustáveis facilmente, bem diferente do Projeto Noruega by Bike, onde seguir o cronograma era um fator motivacional.

Estrada ao lado do Lago Huvs em Hatgal - Mongólia

Estrada ao lado do Lago Huvs em Hatgal – Mongólia

Porto em Hatgal - Lago Huvs, o maior lago da Mongólia

Porto em Hatgal – Lago Huvs, o maior lago da Mongólia

A cada dia que passa os dias vão se tornando mais longos. Começa a clarear pouco antes das 7h e só fica escuro depois das 21:30h. Geralmente estou pronto para começar a pedalar por volta das 8h, quase sempre a temperatura esta abaixo de zero. Quando acampo faço um café e como pão ou bolacha com manteiga e⁄ou nutella, frutas secas e castanhas. Quando estou na casa dos locais, geralmente me oferecem chá de leite (levemente salgado), biscoitos que de longe lembram “bolinhos de chuvas” bem secos, que se não fosse o chá não desceria, ou um bom pão feito em casa, puro.

Procuro seguir em um ritmo constante com curtas paradas devido ao frio. Geralmente nem desço da bike para fazer xixi ou comer alguma coisa, mesmo porque não é comum achar um lugar para apoiar a bicicleta. Quase não existe barrancos na beira das estradas, árvores é raridade por aqui e muitos vezes na hora de fazer uma foto preciso deitar a bicicleta no chão. Com vento forte e chão instável não dá para confiar no descanso (pezinho) da bicicleta.

Estrada perto de Moron -Mongólia - 8 km de estrada de chão com muitas pedras. 2 horas empurrando a bike.

Estrada perto de Moron -Mongólia – 8 km de estrada de chão com muitas pedras. 2 horas empurrando a bike.

O horário mais quente do dia fica entre 13h e 17h, mas a temperatura nunca ultrapassa os 10⁰ C. É nesse intervalo que faço uma parada um pouco mais longa para almoçar. Geralmente tenho que trocar a roupa molhada por uma seca para aguentar o frio. Quando acampo no dia anterior, faço a comida do jantar sobrar para almoçar no dia seguinte. Se dormi na casa de um local, abro uma lata de atum, que vezes como com pão, vezes com grão de bico ou milho enlatados, ou macarrão instantâneo crú (miojo), porque gosto mais do que cozido, temperado com cebola e azeite. É raridade achar vegetais e frutas por aqui, tornando o meu cardápio bem restrito. Mesmo assim, essa parada mais longa nunca ultrapassa uma hora.

No período da tarde, a medida que vou avançando, vou traçando um plano mental. A ideia é pedalar até as 20h e a partir daí procurar um local para passar a noite. Como não é sempre que tenho acesso a internet, faço minhas anotações sobre o tempo e vou avaliando a situação. Acontece, que sem o perfil altimétrico e todas as dificuldades que já mencionei, nunca se sabe onde se pode chegar. E outra, a pesquisa sobre as condições climáticas é feita em uma localidade, podendo sofrer variações importantes em uma distância de 50 km ou mais. Geralmente atravesso um ou dois passos de mais de 2500 m de altitude no dia (a altitude média da Mongólia é de 1500 m). E é lá de cima que encontro as melhores vistas. Em um certo dia, minha pesquisa apontava vento forte a partir das 18h. Porém, depois de atravessar um passo de 2800 m de altitude a 55 km de distância do local pesquisado, o vento me pegou de surpresa as 14h, levantando um poeirão que me obrigou a buscar proteção em uma casinha á beira da estrada. Não estava previsto neve no local que fiz a pesquisa, no entanto, nevou forte, pois estava em uma altitude maior, e tive que passar a noite alí mesmo. Felizmente os locais são muito solidários e adoram receber visitas.

O poerão esconde as montanhas ao fundo. O vento forte vem chegando.. é hora de procurar abrigo. Mongólia

O poerão esconde as montanhas ao fundo. O vento forte vem chegando.. é hora de procurar abrigo. Mongólia

A neve chega sem avisar nas grandes altitudes... Mongólia

A neve chega sem avisar nas grandes altitudes… Mongólia

Um dos raros pontos de descanso nas estradas da Mongólia.

Um dos raros pontos de descanso nas estradas da Mongólia.

A partir da minha segunda semana na Mongólia só acampei quando não achei nenhuma moradia por perto. Entendi que é só chegar nos Gers ou Yurts (casa típica da Mongólia), e pedir com um sinal para passar a noite. O bacana é que geralmente perto do horário que planejo parar eles estão na lida com os animais. Estamos na época da procriação e é hora de trazer as ovelhas da pastagem para os filhotes se alimentarem. São dezenas de cabritinhos famintos e é muito legal acompanhar esse trabalho. Os machos são separados das fêmeas e em seguida os filhotes são soltos, e cada um, em uma confusão completa, sai aos berros a procura da mãe. Muitos filhotes não conseguem encontrar a mãe e algumas mães rejeitam o filhote. Aí, entra o trabalho da família, que ajuda a encontrar os pares ou a segurar a mãe para o filhote mamar. Muitas vezes cheguei a ajudar neste trabalho o que deixou todos surpresos e contentes. Alguns filhotes mais fracos são trazidos para um cercadinho dentro da casa para passar a noite. Só depois, já escuro, a mulher da casa começa a preparar o jantar.

Mulher Mongol cuidando do seu rebanho. Mongólia

Mulher Mongol cuidando do seu rebanho. Mongólia

Mulher na lida com os animais. Mongólia

Mulher na lida com os animais. Mongólia

Minha bike dentro de um Ger, encostada na cerca onde os filhotes mais fracos passam a noite. Mongólia

Minha bike dentro de um Ger, encostada na cerca onde os filhotes mais fracos passam a noite. Mongólia

O interessante foi que em todos as casas que fiquei o prato do jantar foi o mesmo. Uma massa cozida no vapor com picadinho de carne. Em alguns lugares com um pouco de batata. Tudo é temperado apenas com sal. Nada de cebola, alho ou pimenta-do-reino. Alguns acrescentam o chá de leite, transformando a massa em sopa. Tudo muito gorduroso, inclusive o chá. Uma forma de suprir as necessidades calóricas. Na maioria das casas não existe geladeira e muita coisa no verão é armazenada na banha ou em uma espécie de manteiga com cheiro muito forte. Um painel solar alimenta a bateria que fornece energia e o fogão é sempre a lenha.

Preparando o jantar. Parte 1

Preparando o jantar. Parte 1

Preparando o jantar. Parte 2

Preparando o jantar. Parte 2

Preparando o jantar. Parte 3

Preparando o jantar. Parte 3

Em nenhum lugar encontrei água encanada, nem mesmo nas pousadinhas que dormi nas pequenas vilas. Nessas vilas existe casa de banho. Paga-se cerca de US$ 1,50 por meia hora de água quente. Sinceramente não sei de quanto em quanto tempo os Mongóis tomam banho. Eu superei meu record: 11 dias usando lenços umedecidos. As crianças estão sempre sujas! Os meninos até uma certa idade usam cabelos compridos com tranças e laços coloridos e vestem roupas que os deixam parecendo meninas. A espiritualidade mongol é muito forte! Eles acreditam que disfarçando os meninos de meninas, os maus espíritos são enganados e a criança fica protegida, pois tais espíritos só se interessam por meninos.

Enquanto a mãe se prepara para a foto, o menino se diverte com a minha presença. Mongólia

Enquanto a mãe se prepara para a foto, o menino se diverte com a minha presença. Mongólia

Menino no colo do pai. Vestido como menina para enganar os maus espíritos. Mongólia

Menino no colo do pai. Vestido como menina para enganar os maus espíritos. Mongólia

Minha viagem pela Mongólia chegou ao fim! Aqui, de uma forma muito mais intensa, as dificuldades de uma viagem de bike conviveram lado a lado com os prazeres de cada conquista, de cada objetivo alcançado, de cada encontro, de cada visual de tirar o fôlego… Uma etapa difícil e prazerosa, onde aprendi um pouco mais a aceitar e conviver com os altos e baixos da vida. Saio daqui fortalecido para entrar na fase que considero uma das mais difíceis do Projeto Da China para Casa by Bike, cruzar a Ásia Central, e com a certeza de que quanto maior a dificuldade, maior o prazer em superá-la.

“Quem elegeu a busca, não pode recusar a travessia…” – Guimarães Rosa

11 comentários em “Viajar de bicicleta na Mongólia não é para qualquer um! Mas que compensa, compensa!!!!

  1. Vinicius disse:

    Fantástico Tato!
    Também (pelos seus relatos) adoramos a Mongólia! Nos faz ver que a beleza e a felicidade está presente nas coisas simples!
    Parabéns

  2. Lincoln Lima disse:

    Que bacana, Aurelio! Fotos incríveis, cara!!! Estamos na garupa!

  3. Cynthia disse:

    Adorei o texto! Que experiência,hein?!
    Bjs

  4. Adriana disse:

    ” Uma etapa difícil e prazerosa, onde aprendi um pouco mais a aceitar e conviver com os altos e baixos da vida.” Caraca! Seu sexto sentido estava aguçado quando escreveu esse relato… Acho que nem de longe passava na cabeça o que viria pela frente… Se cuide! Bjos

  5. nonatanuri@hotmail.com disse:

    coisa linad as fotos bjs

  6. Meu amigo Aurélio! Parabenizo pela sua viagem “From China to Home by bike”, estou planejando cruzar a Mongólia a cavalo, e seu excelente relato sobre o país é com um pote de ouro, muito obrigado! Nós vemos quando voltar para casa! Um grande abraço!

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