Um bom começo antes de ficar 4 dias presos devido a uma enorme tempestade com muito vento e neve.

Essa história de viajar sem planejamento não é comigo! Sim, me considero um aventureiro, mas um aventureiro que calcula riscos. Ao contrário de muitos, não vejo nenhum mal nisso, e procuro usar as informações ao meu favor! Lógico, tem dias que não tem internet e não dá para saber a previsão do tempo ou para que lado o vento vai soprar, por exemplo. Internet, pessoas locais, gps, minha própria experiência, qualquer sinal da natureza… Uso tudo para gerenciar os riscos e “sofrer” o mínimo possível, e mesmo assim, não descarto ser pego de surpresa. O negócio é ficar sempre alerta! Como diria um velho amigo: Olho vivo e pé ligeiro!

Tradicional foto de despedida com as crianças e a carriola para buscar água em Ulan Bataar - Mongólia.

Tradicional foto de despedida com as crianças e a carriola para buscar água em Ulan Bataar – Mongólia.

Depois da tradicional foto de despedida, Begz, o chefe da família que me hospedou na periferia de Ulan Bataar, me guiou até o centro da cidade para eu finalizar meus preparativos e iniciar o pedal pela Mongólia. Meu plano é seguir rumo norte para visitar o lago Uvs, o maior da Mongólia, que fica totalmente congelado boa parte do ano. Depois sigo para o centro do país para visitar dois parques nacionais, o Orkhon Valley e o Khogno Tarna, antes de voltar para a capital. Esse é apenas um plano, já que estou sujeito as intempéries desta que é uma das regiões mais inabitadas do planeta, com a menor densidade populacional do mundo, com menos de 2 habitantes por km², onde a temperatura pode chegar a – 20° C nesta época do ano. Frequentes nevadas, estradas de terra sem estrutura em péssimo estado de conservação, e muitas outras variáveis podem atrasar a viagem e exigir mudança de plano. Vamos ver o que acontece!

Meu primeiro dia de viagem foi tranquilo! Temperatura em torno de 1°C e quase nada de vento. Estrada asfaltada e alguns pontos de apoio. Acampei ao lado de um pequeno restaurante na beira da estrada. Aproveitei para checar mais uma vez a previsão do tempo, recarregar as baterias de celular e GPS (que só estou usando em caso de dúvidas para onde seguir, economizando bateria), repor meu estoque de 5,5 litros de água e jantar, sem precisar usar as minhas provisões.

Bicicleta pronta para viajar pelo interior da Mongólia

Bicicleta pronta para viajar pelo interior da Mongólia

Primeiro dia de pedal na Mongólia. O sol ajuda a espantar o frio e a estrada asfaltada traz a  certeza de encontrar apoio. Mongólia

Primeiro dia de pedal na Mongólia. O sol ajuda a espantar o frio e a estrada asfaltada traz a certeza de encontrar apoio. Mongólia

O segundo dia também começou muito bem! Ensolarado e um vento me empurrando a 20 km/h. Percorri 60 km em apenas 3 horas, parei em uma pequena vila na beira da estrada para almoçar. A partir dali o asfalto acabou! Eu esperava uma estrada de terra de chão batido, rígida, pois estava pedalando em uma estrada nacional. Mas o que encontrei foi uma estrada hora de areia fofa e hora de pedras soltas, muito diferente das informações que levantei antes de começar a viagem com alguns poucos locais com quem conversei. Na areia, descia para empurrar e nas pedras, ou empurrava ou pedalava com muito cautela, devagar para não danificar os raios, rodas ou os pneus da bike. Fiz 12 km em duas horas e meia e decidi parar. Montei acampamento no alto de uma montanha de frente para um magnífico vale e enquanto preparava minha comida não parava de pensar nas condições da estrada. Se continuasse daquela forma, meu plano precisaria ser refeito. Dormi com a pulga atrás da orelha!

Estada na Mongólia

Estada na Mongólia

Dourando cebola e alho para o meu macarrão com atum minutos antes do por do sol! Uma ótima refeição, um lindo visual pouco antes do por-do-sol. Mongólia

Dourando cebola e alho para o meu macarrão com atum minutos antes do por do sol! Uma ótima refeição, um lindo visual pouco antes do por-do-sol. Mongólia

Acampamento em um belíssimo vale na Mongólia.

Acampamento em um belíssimo vale na Mongólia.

Resolvi apostar nas informações e segui em frente! Depois de alguns quilômetros a estrada melhorou e pude desenvolver uma velocidade aceitável. No meu terceiro dia de viagem encontrei apenas um conjunto de casas sem nenhum comércio, cruzei montanhas e o vento voltou com força, principalmente no final do dia, levantando uma fina camada de poeira no horizonte, irritando meus olhos e gargantas. Não cheguei a me perder, mas em diversas vezes as trilhas me deixaram dúvidas em que caminho seguir. Encontrei alguns nômades guiando uma tropa de cavalos e cruzei com alguns veículos. Um deles parou! Quatro homens e um garoto. Me deram chá e uma broa. Não falavam inglês, mas é como eu sempre digo: Quando existe boa intenção não é necessárias palavras para a comunicação.

Quando a noite chegou, o vento aumentou e a temperatura caiu. Tive uma das noites mais difíceis da minha vida. Primeiro por causa do frio. Vesti todas as minhas roupas e ainda assim não fiquei confortável dentro do saco de dormir. E o vento trazia a poeira para dentro da barraca, deixando o respirar muito difícil. Resolvi não cozinhar. Comi a broa e tomei o chá. O chá leva um pouco de sal para evitar o congelamento. Não é gostoso, mas com a broa doce caiu relativamente bem.

A certa altura da noite, quase sufocado com a poeira, decidi tentar a única coisa que me passou pela cabeça naquele momento. Saí da barra e preenchi o espaço entre a lona da barraca e o chão com a própria areia que me sufocava do lado que o vento soprava. Arrisquei e deu certo! Com isso o vento não trouxe mais poeira para dentro da barraca e apenas o frio continuou incomodando. Na verdade só consegui dormir bem quando o sol saiu e a barraca esquentou. Acordei com calor por volta das 10:00h da manhã.

Estrada nacional no intterior da Mongólia

Estrada nacional no intterior da Mongólia

Homens de bom coração! Simplesmente pararam e ofereceram chá e broa. Mongólia.

Homens de bom coração! Simplesmente pararam e ofereceram chá e broa. Mongólia.

A única placa de sinalização que encontrei nos 3 primeiros dias de viagem pela Mongólia.

A única placa de sinalização que encontrei nos 3 primeiros dias de viagem pela Mongólia.

Nômade mongol. Mongólia

Nômade mongol. Mongólia

Cerca de 30% da população da Mongólia é formada por nômades ou semi-nômades que vivem procurando água e pastagem para os rebanhos de gado, cabras, ovelhas e cavalos. Mongólia

Cerca de 30% da população da Mongólia é formada por nômades ou semi-nômades que vivem procurando água e pastagem para os rebanhos de gado, cabras, ovelhas e cavalos. Mongólia

Eu sabia que a previsão do tempo prometia uma noite muito gelada com fortes ventos, mesmo o meu quarto dia começando bonito com sol e céu azul. Precisava achar abrigo para passar as próximas noites e pedalei firme para chegar em Zaamar, já no final da tarde. Zaamar é um pequeno vilarejo ao lado do rio Tuul, onde existe uma das poucas pontes para cruzá-lo. Um posto de gasolina, duas vendas, um pequeno restaurante, algumas lojas de peças para veículos e alguns yurts (ou ger – casa típica mongol) é tudo que a vila possui. Felizmente, a filha do dono de uma das vendas fala inglês e conseguiu arrumar um yurt para eu esperar a tempestade passar.

Vale próximo a Zaamar - Mongólia

Vale próximo a Zaamar – Mongólia

Típico redemoinho nos planaltos da Mongólia.

Típico redemoinho nos planaltos da Mongólia.

A tempestade veio forte, juntamente com uma nevasca e deixou o vilarejo 30 horas sem energia.  Tenho que esperar um dia a mais para a neve derreter o que já pode comprometer o meu cronograma. A boa notícia é que estou protegido, aquecido e bem alimentado.

Meu yurt sofrendo com a tempestade do lado de fora...

Meu yurt sofrendo com a tempestade do lado de fora…

... e eu, aquecido e bem alimentado do lado de dentro. Zaamar - Mongólia

… e eu, aquecido e bem alimentado do lado de dentro. Zaamar – Mongólia

 

12 comentários em “Um bom começo antes de ficar 4 dias presos devido a uma enorme tempestade com muito vento e neve.

  1. APARECIDA DOURADO disse:

    Puxa! Parabéns pela limpeza de narração. Me senti aí na Mongólia observando as suas ações. Enviado pelo meu Windows Phone ________________________________

  2. Will Rocha disse:

    Belíssimo texto… e adorei a citação do ‘olho vivo e pé ligeiro’…!
    Continuo por aqui… em cada pedalada!!
    Abraço.. e saudades!
    #sucesso

  3. Cynthia disse:

    Oi Tato, sentimos sua falta na Páscoa! Aproveite aí e cuidado! Continue contando com a previsão do tempo e de toda informação que puder! Adorei o texto! Bjs

  4. Sueli disse:

    Quase sinto o frio congelante. Situações marcantes, hein? Beijo e siga em frente!

  5. Opa, Aurélio.

    Encontrei seu blog ao procurar uma imagem para ilustrar um post do meu (http://www.suntzulives.com/) e achei suas aventuras sensacionais.

    Gostaria de saber se eu poderia usar a foto da manada de cavalos e, caso positivo, confirmar que você é o autor.

    Parabéns pelo blog e obrigado por compartilhar com a gente.

    Alexandre.

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