Pela minha lente: Pós terremoto em Kathmandu – Nepal

Olá pessoal,

A tensão causada pelo terremoto e a expectativa de novos tremores, associadas ao trabalho voluntário e 3 noites sem dormir me deixaram exausto. Por isso, ao invés de escrever, vou deixar as fotos falarem por mim.

Muito obrigado pelas mensagem de carinho e apoio que venho recebendo pelas redes sociais. Isso é um fator motivacional super importante para eu seguir ajudando por aqui e para continuar a minha aventura com o Projeto da China para Casa by Bike. Eu tenho acompanhado um pouco de como tudo repercutiu no Brasil, e devido a isso, recebi vários convites de amigos no facebook. Para você que está chegando agora, seja bem vindo, e junte-se aos velhos amigos sendo um seguidor do Projeto da China para Casa by Bike!

 

Será um prazer ter você na minha garupa!

Terremoto em Khatmandu - Nepal

Terremoto em Khatmandu – Nepal

Mulher desolada em frente a casa demolida por terremoto em Kathmandu - Nepal

Mulher desolada em frente a casa demolida por terremoto em Kathmandu – Nepal

Desolação estampada no rosto da nepalesa após terremoto em Kathmandu - Nepal

Desolação estampada no rosto da nepalesa após terremoto em Kathmandu – Nepal

População em busca de informações após terremoto em Kathmandu, Nepal

População em busca de informações após terremoto em Kathmandu, Nepal

Esse foi o pedaço do muro que desabou bem próximo da mim durante o terremoto em Kathmandu, Nepal.

Esse foi o pedaço do muro que desabou bem próximo da mim durante o terremoto em Kathmandu, Nepal.

Carro atingido por desmoramento durante o terremoto em Kayhmandu, Nepal

Carro atingido por desmoramento durante o terremoto em Kayhmandu, Nepal

Desolação - Khatmandu - Nepal

Desolação – Khatmandu – Nepal

Casa atingida pelo terremoto em Kathmandu, Nepal

Casa atingida pelo terremoto em Kathmandu, Nepal

Prédios condenados depois de atingidos por terremoto em Kathmandu, Nepal.

Prédios condenados depois de atingidos por terremoto em Kathmandu, Nepal.

Casa atingida pelo terremoto em Kathmandu, Nepal

Casa atingida pelo terremoto em Kathmandu, Nepal

Ruínas da Torre Dharahara, 62m de altura, que foi ao chão atingida pelo terremoto em Kathmandu - Nepal

Ruínas da Torre Dharahara, 62m de altura, que foi ao chão atingida pelo terremoto em Kathmandu – Nepal

Muro condenado após terremoto em Kathmandu - Nepal

Muro condenado após terremoto em Kathmandu – Nepal

Equipe de busca entre as ruínas na Durbar Square após terremoto em Kathmandu - Nepal

Equipe de busca entre as ruínas na Durbar Square após terremoto em Kathmandu – Nepal

Famílias acampadas ao lado das ruínas na Durbar Square após terremoto em Kathmandu - Npal

Famílias acampadas ao lado das ruínas na Durbar Square após terremoto em Kathmandu – Npal

Lixo se acumulando nas ruas de Kathmandu após terremoto - Nepal

Lixo se acumulando nas ruas de Kathmandu após terremoto – Nepal

Cozinha emprovissada em acampamento de desabrigados após terremoto em Kathmandu - Nepal

Cozinha emprovissada em acampamento de desabrigados após terremoto em Kathmandu – Nepal

População sendo abastecida com água potável após terremoto em Kathmandu - Nepal

População sendo abastecida com água potável após terremoto em Kathmandu – Nepal

Acampamento de desabrigados após terremoto em Kathmandu, Nepal.

Acampamento de desabrigados após terremoto em Kathmandu, Nepal.

A falta de saneamento básico na cidade preocupa as autoridades do Nepal.

A falta de saneamento básico na cidade preocupa as autoridades do Nepal.

Trabalho de profilaxia e controle de pragas em acampamento de desabrigados. Kathmandu após terremoto - Kathmandu - Nepal

Trabalho de profilaxia e controle de pragas em acampamento de desabrigados. Kathmandu após terremoto – Kathmandu – Nepal

Trabalho voluntário de conscientização e controle de pragas em Kathmandu - Nepal

Trabalho voluntário de conscientização e controle de pragas em Kathmandu – Nepal

Menina segura uma garrafa de água em acampamento de desabrigados em Kathmandu - Nepal

Menina segura uma garrafa de água em acampamento de desabrigados em Kathmandu – Nepal

Ruínas após terremoto em Kathmandu Nepal - Durbar Square - maior patrimônio histórico e cultural do país.

Ruínas após terremoto em Kathmandu Nepal – Durbar Square – maior patrimônio histórico e cultural do país.

Viajar de bicicleta na Mongólia não é para qualquer um! Mas que compensa, compensa!!!!

Longas distâncias sem estrutura de apoio, estradas de chão, hora de pedras soltas, hora de areão, subidas intermináveis, nevascas, vento forte e poeirão, temperatura abaixo de zero, e dificuldade de comunicação… Por outro lado, paisagens belíssimas, e um mergulho na cultura local. Tudo isso faz da Mongólia um dos lugares mais desafiadores e magníficos que já pedalei!

Mongólia: Um dos lugares mais desafiadores e magníficos que já pedalei

Mongólia: Um dos lugares mais desafiadores e magníficos que já pedalei

O que faz da Mongólia um país desafiador para se pedalar nesta época do ano são as dificuldades que surgem simultaneamente. O vento gelado chega com a nevasca ou levanta o poeirão, irritando os olhos, nariz e garganta; a estrada de pedra solta ou areão atrasa a viagem, pois exige desmontar da bike e empurrar; o esforço das longas subidas faz transpirar, aumentando a sensação de frio com temperaturas abaixo ou perto de 0⁰ C; noites mal dormidas na barraca devido ao frio, ou no chão das casas dos locais; informações conflitantes; dificuldade de comunicação… Tudo isso e muito mais… Como bicicleta mais pesada com a necessidade de carregar mais suprimentos; falta de banho ou de um banheiro confortável; necessidade de explicar tudo com mímica ou desenhos (muitas vezes sem sucesso)… tudo isso gera um estresse que acumula e aumenta muito o cansaço não só físico, mas também mental!

Montanhas nevadas na Mongólia

Montanhas nevadas na Mongólia

Na estrada chegando em Jargalant - Mongólia

Na estrada chegando em Jargalant – Mongólia

No entanto, as paisagens são revigorantes e o esforço do povo local em ajudar traz a motivação necessária para seguir em frente.

Em cada país procuro me adaptar as condições locais para achar o ritmo ideal para pedalar. E quanto mais essa adaptação demora acontecer, maior o risco de meu planejamento furar. Por isso o planejamento do Projeto da China para Casa by Bike é muito flexível, com metas reajustáveis facilmente, bem diferente do Projeto Noruega by Bike, onde seguir o cronograma era um fator motivacional.

Estrada ao lado do Lago Huvs em Hatgal - Mongólia

Estrada ao lado do Lago Huvs em Hatgal – Mongólia

Porto em Hatgal - Lago Huvs, o maior lago da Mongólia

Porto em Hatgal – Lago Huvs, o maior lago da Mongólia

A cada dia que passa os dias vão se tornando mais longos. Começa a clarear pouco antes das 7h e só fica escuro depois das 21:30h. Geralmente estou pronto para começar a pedalar por volta das 8h, quase sempre a temperatura esta abaixo de zero. Quando acampo faço um café e como pão ou bolacha com manteiga e⁄ou nutella, frutas secas e castanhas. Quando estou na casa dos locais, geralmente me oferecem chá de leite (levemente salgado), biscoitos que de longe lembram “bolinhos de chuvas” bem secos, que se não fosse o chá não desceria, ou um bom pão feito em casa, puro.

Procuro seguir em um ritmo constante com curtas paradas devido ao frio. Geralmente nem desço da bike para fazer xixi ou comer alguma coisa, mesmo porque não é comum achar um lugar para apoiar a bicicleta. Quase não existe barrancos na beira das estradas, árvores é raridade por aqui e muitos vezes na hora de fazer uma foto preciso deitar a bicicleta no chão. Com vento forte e chão instável não dá para confiar no descanso (pezinho) da bicicleta.

Estrada perto de Moron -Mongólia - 8 km de estrada de chão com muitas pedras. 2 horas empurrando a bike.

Estrada perto de Moron -Mongólia – 8 km de estrada de chão com muitas pedras. 2 horas empurrando a bike.

O horário mais quente do dia fica entre 13h e 17h, mas a temperatura nunca ultrapassa os 10⁰ C. É nesse intervalo que faço uma parada um pouco mais longa para almoçar. Geralmente tenho que trocar a roupa molhada por uma seca para aguentar o frio. Quando acampo no dia anterior, faço a comida do jantar sobrar para almoçar no dia seguinte. Se dormi na casa de um local, abro uma lata de atum, que vezes como com pão, vezes com grão de bico ou milho enlatados, ou macarrão instantâneo crú (miojo), porque gosto mais do que cozido, temperado com cebola e azeite. É raridade achar vegetais e frutas por aqui, tornando o meu cardápio bem restrito. Mesmo assim, essa parada mais longa nunca ultrapassa uma hora.

No período da tarde, a medida que vou avançando, vou traçando um plano mental. A ideia é pedalar até as 20h e a partir daí procurar um local para passar a noite. Como não é sempre que tenho acesso a internet, faço minhas anotações sobre o tempo e vou avaliando a situação. Acontece, que sem o perfil altimétrico e todas as dificuldades que já mencionei, nunca se sabe onde se pode chegar. E outra, a pesquisa sobre as condições climáticas é feita em uma localidade, podendo sofrer variações importantes em uma distância de 50 km ou mais. Geralmente atravesso um ou dois passos de mais de 2500 m de altitude no dia (a altitude média da Mongólia é de 1500 m). E é lá de cima que encontro as melhores vistas. Em um certo dia, minha pesquisa apontava vento forte a partir das 18h. Porém, depois de atravessar um passo de 2800 m de altitude a 55 km de distância do local pesquisado, o vento me pegou de surpresa as 14h, levantando um poeirão que me obrigou a buscar proteção em uma casinha á beira da estrada. Não estava previsto neve no local que fiz a pesquisa, no entanto, nevou forte, pois estava em uma altitude maior, e tive que passar a noite alí mesmo. Felizmente os locais são muito solidários e adoram receber visitas.

O poerão esconde as montanhas ao fundo. O vento forte vem chegando.. é hora de procurar abrigo. Mongólia

O poerão esconde as montanhas ao fundo. O vento forte vem chegando.. é hora de procurar abrigo. Mongólia

A neve chega sem avisar nas grandes altitudes... Mongólia

A neve chega sem avisar nas grandes altitudes… Mongólia

Um dos raros pontos de descanso nas estradas da Mongólia.

Um dos raros pontos de descanso nas estradas da Mongólia.

A partir da minha segunda semana na Mongólia só acampei quando não achei nenhuma moradia por perto. Entendi que é só chegar nos Gers ou Yurts (casa típica da Mongólia), e pedir com um sinal para passar a noite. O bacana é que geralmente perto do horário que planejo parar eles estão na lida com os animais. Estamos na época da procriação e é hora de trazer as ovelhas da pastagem para os filhotes se alimentarem. São dezenas de cabritinhos famintos e é muito legal acompanhar esse trabalho. Os machos são separados das fêmeas e em seguida os filhotes são soltos, e cada um, em uma confusão completa, sai aos berros a procura da mãe. Muitos filhotes não conseguem encontrar a mãe e algumas mães rejeitam o filhote. Aí, entra o trabalho da família, que ajuda a encontrar os pares ou a segurar a mãe para o filhote mamar. Muitas vezes cheguei a ajudar neste trabalho o que deixou todos surpresos e contentes. Alguns filhotes mais fracos são trazidos para um cercadinho dentro da casa para passar a noite. Só depois, já escuro, a mulher da casa começa a preparar o jantar.

Mulher Mongol cuidando do seu rebanho. Mongólia

Mulher Mongol cuidando do seu rebanho. Mongólia

Mulher na lida com os animais. Mongólia

Mulher na lida com os animais. Mongólia

Minha bike dentro de um Ger, encostada na cerca onde os filhotes mais fracos passam a noite. Mongólia

Minha bike dentro de um Ger, encostada na cerca onde os filhotes mais fracos passam a noite. Mongólia

O interessante foi que em todos as casas que fiquei o prato do jantar foi o mesmo. Uma massa cozida no vapor com picadinho de carne. Em alguns lugares com um pouco de batata. Tudo é temperado apenas com sal. Nada de cebola, alho ou pimenta-do-reino. Alguns acrescentam o chá de leite, transformando a massa em sopa. Tudo muito gorduroso, inclusive o chá. Uma forma de suprir as necessidades calóricas. Na maioria das casas não existe geladeira e muita coisa no verão é armazenada na banha ou em uma espécie de manteiga com cheiro muito forte. Um painel solar alimenta a bateria que fornece energia e o fogão é sempre a lenha.

Preparando o jantar. Parte 1

Preparando o jantar. Parte 1

Preparando o jantar. Parte 2

Preparando o jantar. Parte 2

Preparando o jantar. Parte 3

Preparando o jantar. Parte 3

Em nenhum lugar encontrei água encanada, nem mesmo nas pousadinhas que dormi nas pequenas vilas. Nessas vilas existe casa de banho. Paga-se cerca de US$ 1,50 por meia hora de água quente. Sinceramente não sei de quanto em quanto tempo os Mongóis tomam banho. Eu superei meu record: 11 dias usando lenços umedecidos. As crianças estão sempre sujas! Os meninos até uma certa idade usam cabelos compridos com tranças e laços coloridos e vestem roupas que os deixam parecendo meninas. A espiritualidade mongol é muito forte! Eles acreditam que disfarçando os meninos de meninas, os maus espíritos são enganados e a criança fica protegida, pois tais espíritos só se interessam por meninos.

Enquanto a mãe se prepara para a foto, o menino se diverte com a minha presença. Mongólia

Enquanto a mãe se prepara para a foto, o menino se diverte com a minha presença. Mongólia

Menino no colo do pai. Vestido como menina para enganar os maus espíritos. Mongólia

Menino no colo do pai. Vestido como menina para enganar os maus espíritos. Mongólia

Minha viagem pela Mongólia chegou ao fim! Aqui, de uma forma muito mais intensa, as dificuldades de uma viagem de bike conviveram lado a lado com os prazeres de cada conquista, de cada objetivo alcançado, de cada encontro, de cada visual de tirar o fôlego… Uma etapa difícil e prazerosa, onde aprendi um pouco mais a aceitar e conviver com os altos e baixos da vida. Saio daqui fortalecido para entrar na fase que considero uma das mais difíceis do Projeto Da China para Casa by Bike, cruzar a Ásia Central, e com a certeza de que quanto maior a dificuldade, maior o prazer em superá-la.

“Quem elegeu a busca, não pode recusar a travessia…” – Guimarães Rosa

Depois da cabeça de pato em Taiwan, uma cabeça de cordeiro na Mongólia

Conversando através de mímicas e desenhos, a proprietária de uma pequena pousada em Tairat – Mongólia, entende que o Projeto da China para Casa by Bike viaja em busca da gastronomia local, e me oferece uma refeição emocionante, que me fez lembrar uma das pessoas mais queridas da minha vida! Essa cabeça estava o fino, Vô Luís!

Um bom começo antes de ficar 4 dias presos devido a uma enorme tempestade com muito vento e neve.

Essa história de viajar sem planejamento não é comigo! Sim, me considero um aventureiro, mas um aventureiro que calcula riscos. Ao contrário de muitos, não vejo nenhum mal nisso, e procuro usar as informações ao meu favor! Lógico, tem dias que não tem internet e não dá para saber a previsão do tempo ou para que lado o vento vai soprar, por exemplo. Internet, pessoas locais, gps, minha própria experiência, qualquer sinal da natureza… Uso tudo para gerenciar os riscos e “sofrer” o mínimo possível, e mesmo assim, não descarto ser pego de surpresa. O negócio é ficar sempre alerta! Como diria um velho amigo: Olho vivo e pé ligeiro!

Tradicional foto de despedida com as crianças e a carriola para buscar água em Ulan Bataar - Mongólia.

Tradicional foto de despedida com as crianças e a carriola para buscar água em Ulan Bataar – Mongólia.

Depois da tradicional foto de despedida, Begz, o chefe da família que me hospedou na periferia de Ulan Bataar, me guiou até o centro da cidade para eu finalizar meus preparativos e iniciar o pedal pela Mongólia. Meu plano é seguir rumo norte para visitar o lago Uvs, o maior da Mongólia, que fica totalmente congelado boa parte do ano. Depois sigo para o centro do país para visitar dois parques nacionais, o Orkhon Valley e o Khogno Tarna, antes de voltar para a capital. Esse é apenas um plano, já que estou sujeito as intempéries desta que é uma das regiões mais inabitadas do planeta, com a menor densidade populacional do mundo, com menos de 2 habitantes por km², onde a temperatura pode chegar a – 20° C nesta época do ano. Frequentes nevadas, estradas de terra sem estrutura em péssimo estado de conservação, e muitas outras variáveis podem atrasar a viagem e exigir mudança de plano. Vamos ver o que acontece!

Meu primeiro dia de viagem foi tranquilo! Temperatura em torno de 1°C e quase nada de vento. Estrada asfaltada e alguns pontos de apoio. Acampei ao lado de um pequeno restaurante na beira da estrada. Aproveitei para checar mais uma vez a previsão do tempo, recarregar as baterias de celular e GPS (que só estou usando em caso de dúvidas para onde seguir, economizando bateria), repor meu estoque de 5,5 litros de água e jantar, sem precisar usar as minhas provisões.

Bicicleta pronta para viajar pelo interior da Mongólia

Bicicleta pronta para viajar pelo interior da Mongólia

Primeiro dia de pedal na Mongólia. O sol ajuda a espantar o frio e a estrada asfaltada traz a  certeza de encontrar apoio. Mongólia

Primeiro dia de pedal na Mongólia. O sol ajuda a espantar o frio e a estrada asfaltada traz a certeza de encontrar apoio. Mongólia

O segundo dia também começou muito bem! Ensolarado e um vento me empurrando a 20 km/h. Percorri 60 km em apenas 3 horas, parei em uma pequena vila na beira da estrada para almoçar. A partir dali o asfalto acabou! Eu esperava uma estrada de terra de chão batido, rígida, pois estava pedalando em uma estrada nacional. Mas o que encontrei foi uma estrada hora de areia fofa e hora de pedras soltas, muito diferente das informações que levantei antes de começar a viagem com alguns poucos locais com quem conversei. Na areia, descia para empurrar e nas pedras, ou empurrava ou pedalava com muito cautela, devagar para não danificar os raios, rodas ou os pneus da bike. Fiz 12 km em duas horas e meia e decidi parar. Montei acampamento no alto de uma montanha de frente para um magnífico vale e enquanto preparava minha comida não parava de pensar nas condições da estrada. Se continuasse daquela forma, meu plano precisaria ser refeito. Dormi com a pulga atrás da orelha!

Estada na Mongólia

Estada na Mongólia

Dourando cebola e alho para o meu macarrão com atum minutos antes do por do sol! Uma ótima refeição, um lindo visual pouco antes do por-do-sol. Mongólia

Dourando cebola e alho para o meu macarrão com atum minutos antes do por do sol! Uma ótima refeição, um lindo visual pouco antes do por-do-sol. Mongólia

Acampamento em um belíssimo vale na Mongólia.

Acampamento em um belíssimo vale na Mongólia.

Resolvi apostar nas informações e segui em frente! Depois de alguns quilômetros a estrada melhorou e pude desenvolver uma velocidade aceitável. No meu terceiro dia de viagem encontrei apenas um conjunto de casas sem nenhum comércio, cruzei montanhas e o vento voltou com força, principalmente no final do dia, levantando uma fina camada de poeira no horizonte, irritando meus olhos e gargantas. Não cheguei a me perder, mas em diversas vezes as trilhas me deixaram dúvidas em que caminho seguir. Encontrei alguns nômades guiando uma tropa de cavalos e cruzei com alguns veículos. Um deles parou! Quatro homens e um garoto. Me deram chá e uma broa. Não falavam inglês, mas é como eu sempre digo: Quando existe boa intenção não é necessárias palavras para a comunicação.

Quando a noite chegou, o vento aumentou e a temperatura caiu. Tive uma das noites mais difíceis da minha vida. Primeiro por causa do frio. Vesti todas as minhas roupas e ainda assim não fiquei confortável dentro do saco de dormir. E o vento trazia a poeira para dentro da barraca, deixando o respirar muito difícil. Resolvi não cozinhar. Comi a broa e tomei o chá. O chá leva um pouco de sal para evitar o congelamento. Não é gostoso, mas com a broa doce caiu relativamente bem.

A certa altura da noite, quase sufocado com a poeira, decidi tentar a única coisa que me passou pela cabeça naquele momento. Saí da barra e preenchi o espaço entre a lona da barraca e o chão com a própria areia que me sufocava do lado que o vento soprava. Arrisquei e deu certo! Com isso o vento não trouxe mais poeira para dentro da barraca e apenas o frio continuou incomodando. Na verdade só consegui dormir bem quando o sol saiu e a barraca esquentou. Acordei com calor por volta das 10:00h da manhã.

Estrada nacional no intterior da Mongólia

Estrada nacional no intterior da Mongólia

Homens de bom coração! Simplesmente pararam e ofereceram chá e broa. Mongólia.

Homens de bom coração! Simplesmente pararam e ofereceram chá e broa. Mongólia.

A única placa de sinalização que encontrei nos 3 primeiros dias de viagem pela Mongólia.

A única placa de sinalização que encontrei nos 3 primeiros dias de viagem pela Mongólia.

Nômade mongol. Mongólia

Nômade mongol. Mongólia

Cerca de 30% da população da Mongólia é formada por nômades ou semi-nômades que vivem procurando água e pastagem para os rebanhos de gado, cabras, ovelhas e cavalos. Mongólia

Cerca de 30% da população da Mongólia é formada por nômades ou semi-nômades que vivem procurando água e pastagem para os rebanhos de gado, cabras, ovelhas e cavalos. Mongólia

Eu sabia que a previsão do tempo prometia uma noite muito gelada com fortes ventos, mesmo o meu quarto dia começando bonito com sol e céu azul. Precisava achar abrigo para passar as próximas noites e pedalei firme para chegar em Zaamar, já no final da tarde. Zaamar é um pequeno vilarejo ao lado do rio Tuul, onde existe uma das poucas pontes para cruzá-lo. Um posto de gasolina, duas vendas, um pequeno restaurante, algumas lojas de peças para veículos e alguns yurts (ou ger – casa típica mongol) é tudo que a vila possui. Felizmente, a filha do dono de uma das vendas fala inglês e conseguiu arrumar um yurt para eu esperar a tempestade passar.

Vale próximo a Zaamar - Mongólia

Vale próximo a Zaamar – Mongólia

Típico redemoinho nos planaltos da Mongólia.

Típico redemoinho nos planaltos da Mongólia.

A tempestade veio forte, juntamente com uma nevasca e deixou o vilarejo 30 horas sem energia.  Tenho que esperar um dia a mais para a neve derreter o que já pode comprometer o meu cronograma. A boa notícia é que estou protegido, aquecido e bem alimentado.

Meu yurt sofrendo com a tempestade do lado de fora...

Meu yurt sofrendo com a tempestade do lado de fora…

... e eu, aquecido e bem alimentado do lado de dentro. Zaamar - Mongólia

… e eu, aquecido e bem alimentado do lado de dentro. Zaamar – Mongólia